Se minha Kombi falasse...

Produzido no país desde 1957, o utilitário de maior sucesso de vendas da Volkswagen deve pendurar as rodas no próximo ano. Encontro conversou com quem não troca o veículo por nada

por Rafael Campos - Revista do Correio 15/04/2013 14:16

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Samuel Gê
Helbert Rafael Silva, Amauri Lúcio de Oliveira e Silvério Hayzer Caetano com as suas respectivas Kombis: em comum, a paixão antiga pelo veículo (foto: Samuel Gê)

Ela já foi estrela de Hollywood, como em Pequena Miss Sunshine (2006); símbolo de rebeldia e liberdade dos hippies na década de 1970, emprestou seu charme até para a turma do Scooby-doo e companhia, batizada como Mistery Machine. Ganhou outros papéis menos badalados, é verdade, contudo não menos conhecidos, como transportadora de frutas, legumes e verduras, além da tradicionalíssima “pamonha caseira, pamonha fresquinha”, que continua circulando por alguns bairros da capital. Mas, ao que tudo indica, a velha Kombi está com os dias contados para pendurar as rodas. A Volkswagen não confirma, mas na impossibilidade de instalar airbag e freios ABS, itens obrigatórios para veículos fabricados no Brasil a partir do próximo ano, ela deve ser substituída por um modelo mais moderno. A “nova” Kombi deverá se chamar Transporter T5, que em nada lembra o utilitário que reinou absoluto no segmento, com mais de 1,5 milhão de unidades comercializadas. Uma coisa é certa: ela vai deixar um batalhão de órfãos.

Voltando no tempo, quem iniciou a trajetória do veículo foi o engenheiro holandês Ben Pon, que na década de 1940, após a Segunda Guerra Mundial, teve a ideia de combinar um veículo de carga leve com o modelo do fusca, daí o nome em alemão Kombiniert Fahrzeug (veículo combinado). A produção começou em 1950, na Alemanha. Um dos grandes destaques era a carroceria monobloco, a suspensão reforçada e o motor traseiro refrigerado a ar, (responsável por aquele barulho característico dos motores do Fusca, Variant e Brasília) de 25 cv. Sete anos depois chegava ao Brasil o utilitário, que ganhou um nome menos complicado: Kombi. Os anos se passaram e a primeira van do mundo passou a fazer grande sucesso por aqui, colecionando recordes de venda no segmento de transporte de carga leve. No fim de 2005, o veículo ganhou um pouco mais de força com o motor 1.4 Total Flex, arrefecido a água (confira a linha do tempo nesta reportagem).

História da Kombi no Brasil

O fato é que o veículo conquistou uma legião de fãs ao longo das últimas cinco décadas no país, tanto que, se acontecesse algo sobrenatural e o veículo ganhasse vida, ele bem que poderia solicitar, sem modéstia, um filme sobre a sua história e que poderia chamar Se minha kombi falasse, uma referência ao seu primo mais próximo, o Fusca.

Não é difícil encontrar pessoas que têm verdadeiro xodó pelo utilitário. “É uma paixão de infância. Lembro-me que ficava olhando a Kombi e sonhando com uma”, diz Amauri Lúcio de Oliveira, de 52 anos, presidente do Clube do Fusca Belo Horizonte, carro também que atrai inúmeros admiradores. Sua Kombi, que tem até cortinas, é do ano de 1975, ainda com o vidro dianteiro partido. “Gosto deste modelo mais antigo, tem um charme envolvido que não consigo encontrar em nenhum outro veículo novo”, diz. Todo terceiro domingo de cada mês amantes do Fusca, da Kombi e de outros veículos refrigerados a ar se encontram na rua Josafá Belo, na Cidade Jardim, para trocar informações e histórias sobre os carros. Histórias como a de Amauri: “Estávamos indo para a Bahia de Kombi quando a embreagem estragou. Tivemos de andar os últimos 70 quilômetros sem a embreagem, mas no fim deu tudo certo”, conta ele, que restaura peças de carros da família do Fusca.

Paulo Márcio
Rodrigo Moura Soares, advogado: "Quando subimos a rua em direção ao estádio do Independência, a galera faz uma grande festa" (foto: Paulo Márcio)


O policial militar Silvério Hayzer Caetano, de 44 anos, também é fiel ao modelo. Sua Kombi de 1974 é usada para passear com a família. “Foi difícil até de comprá-la, pois o dono não queria vender o veículo, que já estava há 17 anos com ele”, diz. Para Silvério, uma das principais vantagens é o custo/benefício. “É um carro econômico. Na estrada, apesar do peso e do tamanho, chega a fazer de 10 a 11 quilômetros por litro”, diz. O bancário Helbert Rafael Silva, de 38 anos, destaca a facilidade em reparar os problemas mecânicos de sua kombi, modelo 1970. “Se tem um alicate e uma chave de fenda, você tem tudo”, diz, revelando o seu próximo desejo: “Quero colocar um bagageiro e ir para a praia com ela”.

As Kombis escolares que, num passado recente, predominavam nas portas das escolas de BH, estão “sumindo”, ou seja, sendo substituídas por vans mais confortáveis e de direção hidraulica, como a Sprinter, da Mercedes-Benz. De acordo com a BHTrans, empresa que gerencia o tráfego da capital, dos 1.916 veículos que operam no sistema escolar, apenas 22 são Kombis. Para a empresa, o segmento está seguindo uma lógica de mercado. Contudo, Emanuela Cristina Andrade, de 29 anos, que há oito anos trabalha com transporte escolar, é uma das que resistem bravamente. “Ela me atende muito bem. Tem 15 lugares e custa a metade do preço de uma van mais nova, que tem 16”, diz. Os Correios de Minas Gerais também estão seguindo essa tendência. Segundo a instituição, são utilizados no dia a dia cerca de 2,5 mil veículos, entre motocicletas, caminhões e veículos leves, sendo que nem 10% são Kombis.

Pedro Nicoli
Emanuela Cristina Andrade: "Ela me atende muito bem. Tem 15 lugares e custa a metade do preço de uma van, que tem 16" (foto: Pedro Nicoli)


E quando a paixão pela Kombi se confunde com a do time do coração? “Quando subimos a rua em direção ao estádio do Independência, a galera faz uma grande festa”, diz o advogado Rodrigo Moura Soares, de 39 anos. Não pense que se trata do América Mineiro, cujo tamanho da torcida historicamente é associado ao veículo. Rodrigo é torcedor fanático do Atlético, tanto que adquiriu, com ajuda de outros amigos, uma Kombi modelo 1977 (ano em que o Galo foi vice-campeão brasileiro invicto) há cinco anos. Resultado? A Kombi virou atleticana, com direito ao símbolo do Galo e até autógrafos dos ídolos Euller, Marques e Dadá Maravilha. Ele conta que a decisão pela Kombi levou em conta a manutenção barata e a facilidade em dirigir. “Nunca tinha nem entrado numa Kombi até comprar uma. Com o tempo, a gente vai pegando os macetes”, afirma Rodrigo.

Manutenção barata e simples, ótimo custo/benefício. Essas são as principais vantagens levantadas pelos defensores da Kombi. Porém, o que se percebe é que há muito mais do que apelos racionais. Certos veículos que já saíram de linha, como o Fusca, despertam curiosidade e certo charme saudosista. A Kombi pode até sair de linha, mas de moda, parece que não sairá tão cedo.

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