O poeta do cotidiano

Nos cem anos de Rubem Braga, lançamentos e exposição lembram a obra de um dos mais importantes cronistas brasileiros, que iniciou a carreira em BH

por João Pombo Barile 17/04/2013 17:01

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Divulgação/Editora José Olympio
Autorretrato de Rubem Braga: a foto ilustra um dos principais livros do autor, Retratos Parisienses, da editora José Olympio (foto: Divulgação/Editora José Olympio)
“Escrevo às 17 horas do dia 24. Hoje visitei uma trincheira. Fui lá menos por curiosidade de repórter do que por desfastio. Manacá vai se tornando pesadamente monótona.” Com esta elegante frase, começava a reportagem de capa do Diário da Tarde do dia 1º de agosto de 1932. Seu autor: um jovem repórter, recém-formado em direito e só com 19 anos, o foca Rubem Braga.

Enviado especial dos Diários Associados à zona de operação da Força Pública de Minas, a cobertura da Revolução Constitucionalista seria uma das primeiras matérias feitas pelo jovem capixaba, que nas décadas seguintes  se tornaria um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. A guerra entre paulistas e mineiros, no Sul do estado, duraria quatro meses. Em Minas, Rubem começaria a se tornar um grande escritor.

“Belo Horizonte foi mesmo decisiva para que ele entrasse definitivamente no trilho do jornalismo e da crônica, gênero em que se tornaria insuperável”, diz o jornalista e escritor Humberto Werneck, uma das maiores autoridades brasileiras quando o assunto é crônica. “Foi aqui que ele se casou com a mineira Zora Seljan, mãe de seu único filho, Roberto. Foi aqui também que Rubem fez preciosas, vitalícias amizades, por meio das quais, já longe de Belo Horizonte, faria outras, ainda mais sólidas, com um punhado de filhos das Gerais – entre eles, alguns mais jovens, como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende”, conta Werneck.

Arquivo EM 1943
Rubem Braga na redação do jornal Diário da Tarde, em 1932: ele tinha apenas 19 anos quando foi contratado pelo jornal mineiro (foto: Arquivo EM 1943)


Rubem Braga nasceu em Cachoeiro do Itapemirim (ES) em 1913. Formou-se em direito na capital mineira, mas sempre trabalhou como jornalista. Atuou como correspondente dos Diários Associados durante a Revolução Constitucionalista e a Segunda Guerra Mundial. Foi ainda embaixador no Marrocos e chefe do escritório comercial do Brasil no Chile. Junto ao escritor Otto Lara Resende fundou, em 1968, a editora Sabiá, responsável por lançar, no Brasil, escritores como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez e Pablo Neruda. Seu primeiro livro, O Conde e o Passarinho, de 1936, é um marco da crônica brasileira. Publicaria ainda outras obras-primas, como Ai de ti, Copacabana (1960) e As Boas Coisas da Vida (1988). O cronista faleceu em 1990.

Nos cem anos do grande escritor, celebrados em 2013 e comemorado com lançamento de livros e exposições, a obra de Rubem segue despertando interesse. Com ele, para desespero dos acadêmicos, a crônica brasileira acabou ganhando status de alta literatura.

Dono de estilo inconfundível, Rubem era um obstinado colecionador de frases e citações. Durante década manteve na sua coluna na Revista Nacional uma seção chamada “Frases dos outros”. Mas ele próprio foi autor de um número infinito de frases, quer merecem ser lidas e relidas. Por isso, selecionamos algumas delas. Divirta-se!

Livros e exposições

Vários lançamentos estão previstos para 2013, para comemorar os cem anos do escritor, que aconteceu em janeiro

Livros

Retratos Parisienses:
o volume, que acaba de chegar às livrarias, traz 31 textos inéditos que exploram um lado pouco conhecido de Rubem Braga, o de crítico de arte
e literatura. Braga escreve sobre autores como Chagall, Picasso, Jean-Paul Sartre e Jacques Prévert. O livro é publicado pela editora José Olympio e custa R$ 35.

Exposição


Mostra interativa Rubem Braga - O fazendeiro do ar:
Dividida em sete módulos, ela foi aberta em março, em Vitória, e chega a Belo Horizonte no segundo semestre, em local ainda não definido

Outros títulos: ao longo deste ano, a editora Record promete ainda mais quatro títulos. São eles Rubem Braga, o lavrador de Ipanema; edição em capa dura das 200 crônicas escolhidas; Na Cobertura de Rubem Braga, do jornalista e escritor José Castello e o infantil O Menino e o Tuim, pelo selo Galerinha. Os preços não foram divulgados.

Para ler e reler


Algumas frases do autor, escritas desde que ingressou no jornalismo, tornaram-se célebres

“No fundo, talvez não seja muito
bom negócio vender a alma; a alma
às vezes faz falta.”

“Fazer política é namorar homem.”

“As mulheres são mais fortes
que os homens. Nós somos
uns fracos de bigodes.”

“Há homens que não mudam de mulher pelo mesmo motivo pelo qual não
mudam de casa: ‘Nesta aqui eu pago
o aluguel antigo’.”

“‘Eles se separaram’ pode ser uma frase triste e, às vezes, nem isso. ‘Estão
se separando’ é que é triste mesmo.”
“A gente sempre sabe, de um casal
de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina.”

“No fundo do coração, os moços
não acreditam na velhice.”

“A vida poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher. E se deixar viver naturalmente, como as plantas
e os bichos.”

“Eu sou do tempo em que as geladeiras eram brancas e os telefones, pretos.”

“Discutir com adjetivos é muito fácil.
Eu chamo você de feio e você me chama de antipático. Podemos ficar nisto a vida inteira, trocando adjetivos. Mas na vida não há só adjetivos. Há também fatos, fatos substantivos, fatos concretos.”

“Há homens que são escritores e fazem livros que são verdadeiras casas, e ficam. Mas o cronista de jornal é como o cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha, e vai.”

“Se eu conhecesse outro sujeito igual
a mim, nossas relações nunca chegariam a ser grande coisa.”

“Os jornais noticiam tudo, menos
uma coisa tão banal de que ninguém
se lembra: a vida.”

“Vivo numa certa solidão, sim.
Mas eu acho horrível é a solidão a dois. Uma monotonia sem fim. Isso não
me pega mais.”

“O pior dos mortos é que nunca telefonam.”

“Sou uma máquina de escrever
com algum uso, mas em bom estado
de funcionamento.”

“Há mulheres tão lindas e estranhas
que só acontecem pela madrugada,
em um grande aeroporto internacional.”

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