Os pecados da carne

Saiba por que o número de adeptos do vegetarianismo tem aumentado e quais são as vantagens e os riscos da dieta para o organismo

por Daniela Costa 06/05/2013 15:25

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JC Martins
Depois que se tornou vegetariana, a produtora de TV Julia Lery (em pé, com a avó Wania Carneiro) observou melhoras: "Meu colesterol diminuiu e minha disposição física melhorou" (foto: JC Martins)
Mais do que uma simples mudança no cardápio, o vegetarianismo requer uma mudança cultural. É coisa para fortes. Afinal, deixar de comer carne em um país que se orgulha de ser o segundo maior exportador de carne bovina do mundo – e um dos maiores consumidores do produto – é ir contra costumes arraigados da população. Os números falam por si: cerca de 70% da carne de frango produzida no país (o total de 2012 foram 10 milhões de toneladas) e 80% da bovina e suína (10 milhões de toneladas e 3,5 milhões de toneladas, respectivamente, no total de 2012) são, historicamente, consumidas no mercado interno, fato que talvez explique a origem do famoso prato feito (PF) brasileiro, composto por arroz, feijão, ovo e carne. E é justamente neste cenário que, segundo pesquisa realizada em 2012 pelo Ibope, uma pequena – mas heroica – parte da população das principais capitais e regiões metropolitanas brasileiras (8%) resiste às tentações da carne e se declara vegetariana. O volume de adeptos aumenta conforme a faixa etária, sendo maior entre pessoas acima dos 65 anos. No entanto, o número de jovens que aderem à dieta também é considerável. No topo dos lugares com maior índice de vegetarianos (14%) está Fortaleza (CE). Em Belo Horizonte, o percentual chega aos 9%. Os motivos para abolir qualquer tipo de carne do prato e consumir alimentos apenas de origem vegetal são diversos. Entre as principais motivações estão o respeito aos animais e ao meio ambiente. Mas quais são os prós e contras dessa dieta para o organismo?

Publicado recentemente, um estudo realizado por cientistas da Universidade de Oxford (Reino Unido) comprova que os vegetarianos têm menor incidência de doenças do coração. As chances de morrerem em consequência de problemas cardiovasculares são 32% menores que as dos carnívoros, o que se explica pelo fato de o índice de colesterol e da pressão sanguínea ser mais alto entre aqueles que consomem carne. Além disso, os vegetarianos apresentam baixos índices de massa corporal (IMC) e menos casos de diabetes. Segundo Ana Vládia Bandeira Moreira, doutora do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa (UFV), entre as principais vantagens da dieta está o alto consumo de fibras, o que favorece o bom funcionamento do intestino, o aumento da defesa imunológica do organismo, além da excelente função antioxidante. Vegetariana há cinco anos, a produtora de TV Julia Lery, de 22 anos, observou melhoras em sua saúde. “Meu colesterol diminuiu e minha disposição física melhorou. Até minha família, que não é vegetariana, já prepara pratos especiais para mim.”

JC Martins
Após visitar um templo Hare Krishna, o jornalista Romero Carvalho (como o filho Lucas e a mulher Lissandra) mudou sua dieta radicalmente: "Quando olhava para o prato e via que a carne que estava ali era de um ser vivo, automaticamente eu o recusava" (foto: JC Martins)


Para cada tipo de vegetariano é indicada uma dieta específica. Os estritos não consomem qualquer alimento de origem animal (leite e ovo, por exemplo) e, por isso, podem ter carência de nutrientes como vitaminas do complexo B, zinco e ferro, o que pode resultar no comprometimento do sistema imunológico, raquitismo e anemia. Os ovolactovegetarianos (que consomem ovos, laticínios e mel) possuem um maior equilíbrio nutricional no que tange a vitaminais e minerais. “É importante saber que deixar de ingerir esses alimentos está longe de ser uma recomendação médica. E deve-se ficar atento para sintomas disfarçados de transtornos alimentares, como a anorexia”, ressalta Geraldo Santana, médico do Instituto Mineiro de Endocrinologia. A psicóloga Halina Rezende explica que o vegetarianismo só se torna um problema quando atrapalha a vida física ou emocional do indivíduo. “Algumas pessoas encontram na prática uma forma de se opor à família ou de se exibir à sociedade e, às vezes, até de firmar sua personalidade, para compensar uma baixa autoestima. Nesses casos, a orientação psicoterápica é fundamental.”

Pedro Nicoli
Ao se aprofundar no processo de produção e abate da indústria da carne, o fotógrafo Daniel Moreira Soares tomou uma decisão: "Hoje faço até minha própria massa" (foto: Pedro Nicoli)


Na maior parte dos casos, carnívoros assumidos mudam radicalmente o cardápio após adquirirem uma nova consciência existencial. Os vegetarianos são categóricos ao afirmar que, por trás do bife que se come no almoço, há vidas sendo sacrificadas – a dos animais, que são abatidos, e a dos homens que, muitas vezes, trabalham em abatedouros em condições precárias. “Há 12 anos, fui convidado a visitar um templo Hare Krishna e, a partir de então, adquiri um novo olhar sobre os alimentos. A partir do momento que eu olhava para o meu prato e via que a carne que estava ali era de um ser vivo, automaticamente eu o recusava”, conta o jornalista Romero Carvalho, de 31 anos. O processo de produção e abate da indústria de carne fez com que o fotógrafo Daniel Moreira Soares, de 34 anos, abolisse qualquer tipo de carne de sua alimentação. “Após me aprofundar na relação do homem com os animais, na maneira como eles são criados e mortos, sofri um choque de realidade. Não tive mais coragem de fazer parte disso”, diz Soares, do grupo dos ovolactovegetarianos. Com o cardápio restrito, aprendeu a fazer sua própria massa. “Não tem jeito. Acabamos comendo muito macarrão.” A falta de casas especializadas no ramo na capital mineira é uma reclamação unânime entre os vegetarianos, que têm de se virar quando precisam comer fora. “É uma das maiores dificuldades que tenho, porque até para fazer um lanche é complicado. Tudo leva carne. Por isso prefiro comer em casa”, conta a estudante Camila Bastos, de 22 anos.

Paulo Márcio
A falta de casas especializadas em vegetarianismo na capital incomoda aos adeptos: "Um simples lanche é complicado", diz a estudante Camila Bastos (foto: Paulo Márcio)


A opção por não ingerir proteína animal gera polêmicas, como o possível envelhecimento precoce dos vegetarianos, que teriam maior dificuldade para sintetizar o colágeno, essencial para manter o viço da pele – o que, segundo a dermatologista Ana Cláudia de Brito Soares, não pode ser confirmado. “Desde que os vegetarianos tenham uma dieta que inclua fontes adequadas de proteínas, vitaminas e ferro, eles serão capazes de produzir o colágeno de forma adequada, evitando assim possíveis alterações de pele, cabelo ou unha.” A ingestão de colágeno hidrolisado como forma de prevenção não é indicada. “Não há estudos que comprovem que a utilização do colágeno hidrolisado previna a redução do colágeno dérmico. O ideal mesmo é consumir os alimentos necessários”, diz Geraldo Magela Magalhães, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia.



Apesar de as proteínas vegetais não serem completas em aminoácidos como as proteínas de origem animal, elas complementam a dieta. “É importante que o vegetariano tenha uma dieta diária que inclua cereais, leguminosas, sementes, nozes, legumes e vegetais, para que tenha um aporte adequado de todos os aminoácidos necessários”, explica a nutricionista Júlia Mayrinck. E acrescenta que outra aliada forte da dieta é a soja, por possuir alto valor proteico.

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