União pela vida

Alarmados com os altos índices de câncer de mama e de intestino em Minas Gerais, hospitais, entidades e governo do estado se unem para conscientizar a população sobre a importância da prevenção

por Daniela Costa 06/05/2013 16:13

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Samuel Gê
Aos 28 anos, Kênia Silva descobriu que estava com câncer de mama. Deu a volta por cima: "Conheci Ronaldo na pior fase da minha vida (no detalhe). Ele não desistiu de mim e já estamos pensando em casamento" (foto: Samuel Gê)
Há três anos, a enfermeira Kênia do Couto Gonçalves Silva, de 31 anos, enfrentou o que até então parecia improvável. Sem indícios aparentes ou casos anteriores na família e fora da faixa etária de risco, recebeu um dos diagnósticos mais temidos pelas mulheres: câncer de mama. O nódulo foi descoberto por meio do autoexame e já com tamanho adiantado. “Nunca tinha feito o exame de mamografia nem ultrassom, porque não estava na faixa etária de risco. Mas sempre mantive o checape periódico em dia. Por isso, perdi o chão quando soube da notícia”, relembra.

Apesar de todas as improbabilidades, a partir daquele momento a enfermeira passava a integrar uma estatística alarmante. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de mama é o segundo tipo mais frequente no mundo, e somente no Brasil foram diagnosticados 50 mil novos casos em 2012. O índice de mortalidade é alto: a cada 100 mulheres com a doença, 29 não sobrevivem. Em Minas, os dados são preocupantes: a média de incidência de câncer de mama é de 69 casos para cada 100 mil habitantes, número que supera o da região Sudeste – 52 casos para cada 100 mil habitantes. “As estatísticas mostram que a incidência do câncer de mama é maior em regiões que possuem um alto nível socioeconômico. Fatores como dieta rica em gordura, sedentarismo, obesidade e estresse favorecem seu surgimento”, explica o oncologista Leandro Alves Gomes Ramos, da Oncomed BH.

Para virar o jogo em Minas, o movimento internacional Outubro Rosa (o dia mundial de combate ao câncer de mama é 19 de outubro) se uniu à Secretaria de Estado de Saúde com o objetivo de promover ações de conscientização sobre a doença. “Este ano, nossa campanha começou em março e vai até novembro. Por isso, adotamos um novo slogan, o Pense Rosa, pois consideramos que a doença deve ser combatida a qualquer tempo”, diz Alice Carta, coordenadora do movimento no Brasil. Com um investimento de R$ 50 milhões, o objetivo do Programa Estadual de Controle do Câncer de Mama é investir na prevenção, facilitando o acesso a informações por meio de serviços de call center e mamógrafos móveis (seis já estão em funcionamento e quatro serão entregues até junho). Além disso, o programa está adquirindo mamógrafos digitais (28 aparelhos serão distribuídos em todo o estado) e vai possibilitar o agendamento do exame sem consulta médica prévia, por meio da internet e em unidades de atendimento.

Leo Araújo
Para superar o câncer de mama, Helenice Machado Rutkowski apostou no bom humor e no amor pelos animais: "Montei meu kit quimioterapia com peruca, lenços e música, e mandei pintar um quadro de Jesus com minhas cachorrinhas" (foto: Leo Araújo)


Segundo o secretário estadual de Saúde, Antônio Jorge Souza Marques, outra meta é fazer o rastreio da doença em mulheres com idade a partir dos 40 anos – e não apenas entre os 45 e 60 anos, faixa etária mais crítica no estado. “O câncer de mama é muito veloz e, por isso, a prevenção é fundamental. Nossa meta é de que o tratamento seja iniciado no máximo 30 dias após o diagnóstico. Pretendemos realizar 900 mil mamografias por ano”, afirma.

Outra linha de frente no combate à doença é o projeto ConheSer, que há 12 anos ampara as mulheres portadoras da doença com orientação médica e psicológica na Santa Casa de Belo Horizonte. O projeto, promovido pelo Centro de Quimioterapia Antiblástica e Imunoterapia (CQAI), é gratuito e aberto à comunidade. “É um projeto que ajuda as mulheres a vencer o câncer”, diz Nedda Novaes, oncologista e coordenadora do programa. A troca de experiências entre as pacientes aumenta a expectativa de vida e aumenta a divulgação da gravidade da doença. “Descobri que estava com câncer de mama em 2011 e, desde então, decidi contar minha história para ajudar outras pessoas”, conta a jornalista Kátia Soares, que faz o relato da sua superação no blog intitulado Viver Bem Até os 100.

Samuel Gê
Aos 64 anos, Alexandre Guadalupe sente-se vitorioso: "Venci um câncer de intestino e minha esposa, Marília, retirou quatro pólipos a tempo. Não queria que ela passasse pelo mesmo que eu" (foto: Samuel Gê)


Quem enfrentou a doença conhece bem o trauma que ela traz, mesmo quando a história tem final feliz – como no caso de Kênia. Apesar da insegurança e do medo constantes, ela conseguiu superar o desconforto de seis sessões de quimioterapia, 33 sessões de radioterapia e o desespero de se ver careca. “Engordei 13 quilos por conta dos medicamentos e perdi todos os pelos do meu corpo. A mudança física foi o que mais me abalou.” Três anos depois, a enfermeira está recuperada e se prepara para dar um grande passo em sua vida. “Conheci o Ronaldo, meu namorado, na pior fase da minha vida, e mesmo assim ele não desistiu de mim. Eu me sentia feia e ele dizia que eu estava linda. Hoje, já pensamos em casamento”, revela.

Foi por meio da mamografia que, em 2004, a funcionária pública Helenice Machado Rutkowski, de 54 anos, descobriu que estava com câncer de mama. A confirmação veio com a biópsia e, mesmo tendo de passar por uma mastectomia radical – no seu caso, a radioterapia não pôde ser realizada –, Helenice não se deixou abater e manteve parte da sua rotina. “Para mim, é inadmissível ficar em casa pensando em doença. Por isso, não parei de trabalhar.” Vaidosa, Helenice comprou uma peruca idêntica ao seu cabelo e hoje brinca que tem o seu kit quimioterapia pronto, composto também por lenços e uma seleção especial de músicas. “Faço questão de emprestar meu kit para outras pacientes, para que se sintam fortalecidas como eu. Além disso, não abro mão da companhia dos meus animais. Eles foram fundamentais para minha cura e, por isso, mandei pintar um quadro de Jesus para homenageá-los.” Assim como ocorreu com Helenice, algumas mulheres acabam tendo de fazer a retirada parcial ou total da mama. Nesses casos, a oncoplastia é indicada para melhorar a estética e aumentar a autoestima feminina. “Além de corrigir deformidades, a reconstrução da mama devolve a alegria da paciente, o que influencia diretamente no resultado do seu tratamento. Outro ponto importante é que também aumenta a margem de segurança contra metástases, devido a uma retirada maior do tecido mamário”, explica Clécio Lucena, mastologista e diretor da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig).

Menos conhecido, mas também com alto índice de incidência e mortalidade, é o câncer de intestino ou colorretal, segundo tipo mais comum no estado. Diferentemente do câncer de mama, a doença possui o agravante de ter sua prevenção pouco divulgada. “O câncer de intestino surge de pólipos. São pequenas verrugas que levam cerca de cinco anos para se transformar em câncer. Quando o pólipo é detectado e retirado a tempo, a doença não prolifera”, explica a coloprotoctologista Hilma Nogueira da Gama, do hospital Madre Teresa. O exame preventivo é a única maneira de evitar o câncer de intestino. Os sintomas mais comuns, como cólicas na barriga, mudança na cor das fezes, diarreia, barriga inchada e barulhenta, sangramento e até anemia, são confundidos com outras patologias. “Acham que o sangramento é hemorroida, que a dor de barriga é verme, que os gases são resultado de má digestão e a diarreia, de crises nervosas. A maioria das pessoas não cogita que esses sintomas possam ser de um câncer de intestino”, diz a médica. Resultado: o tumor é o terceiro mais comum no Brasil, tanto em homens quanto em mulheres, com uma proporção de 16 casos para cada 100 mil habitantes. Na região Sudeste, o número sobe para 23 – e pula para 26 na capital mineira.

Fatores de risco como o sedentarismo, obesidade, tabagismo e a má alimentação são compartilhados com o câncer de mama. O consumo excessivo de carnes vermelhas, especialmente as processadas, e de alimentos gordurosos elevam os riscos. “É importante destacar que, quando diagnosticado nos testes de prevenção, a chance de cura é acima de 80%. Já após o início dos sintomas, essa margem cai para 50%”, diz Rodrigo Gomes da Silva, presidente da Sociedade Mineira de Coloproctologia. O exame preventivo é indicado a partir dos 50 anos, mas pessoas com histórico da doença na família devem se precaver após os 40 anos. Além do exame de sangue oculto nas fezes e o exame proctológico do reto, a colonoscopia também é indicada.



Mesmo tendo perdido o pai em consequência do câncer de intestino, a servidora pública Juliana Augusta Ferreira, de 55 anos, não deu muita importância quando os primeiros sintomas surgiram. “Eu trabalhava muito e fui deixando para lá. Quando percebi que as diarreias eram cada vez mais constantes, decidi ir ao médico, mas já tarde.” A luta contra o câncer começou em 2011 e não parou mais. A biopsia realizada acusou que o tumor já se desenvolvia há quatro anos. “Desde então, estive muitas vezes cara a cara com Deus. O sofrimento é tanto que é difícil descrever.” Além de ter passado pelas sessões de quimioterapia e radioterapia, Juliana também sofreu choque anafilático na cirurgia e trombose em consequência da doença. “Minha sustentação são minhas filhas. Apesar de todas as dificuldades, busco sempre a superação.”

O dentista Alexandre Brasil Guadalupe, de 64 anos, não sentia nenhum sintoma da doença. Mesmo assim, sempre manteve o exame preventivo em dia. “Como perdi vários parentes de primeiro grau de câncer de intestino, sabia do fator hereditário.” No entanto, surpreendido por uma lesão muscular no ombro em 2008, acabou não realizando o procedimento. “Tive de fazer uma cirurgia e acabei deixando de repetir a colonoscopia.” O exame foi realizado dois anos depois, tempo suficiente para o desenvolvimento de um tumor, que levou à retirada de 20 centímetros do intestino. “Muitas pessoas têm medo de fazer a colonoscopia, mas, se soubessem como o exame é simples perto do que se sofre com a doença, ninguém deixaria de fazê-lo.” Dois meses depois da cirurgia, sua esposa, Marília Bernardes Guadalupe, também fez o exame preventivo e acabou fazendo a retirada de quatro pólipos. “Foi um grande alívio para nós. Não queria que ela passasse pelo mesmo que eu”. A doença é tão grave que, neste mês, o Hospital Madre Teresa mobilizará uma campanha noturna de prevenção com consultas pré-agendadas. Os pacientes terão à disposição uma equipe multidisciplinar composta por coloproctologistas, endoscopistas, oncologistas, entre outros profissionais. Afinal, como afirma a coloproctologista Hilma Nogueira da Gama, em se tratando de câncer, é sempre melhor prevenir do que remediar.

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