A radiação do bem

UFMG avança no uso comercial dos raios gama - aqueles que, nos quadrinhos, deram vida ao super-herói Hulk. Na vida real, eles são usados para mudar a cor de pedras preciosas e, em breve, para aumentar a vida útil de alimentos

por João Paulo Martins 07/05/2013 16:24

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Ao contrário do que se vê nas histórias em quadrinhos, em que o cientista Bruce Banner acidentalmente se expôs a raios gama e acabou ganhando um alter ego poderoso e bravo – o Hulk, personagem criado por Stan Lee –, a tecnologia de irradiação não cria monstros, e sim, é usada em favor dos seres humanos. A utilidade desses raios pode ser entendida pelo trabalho do Laboratório de Irradiação Gama da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que, além de agregar valor a pedras semipreciosas, quer transformar as saladas prontas, frutas e verduras picadas dos supermercados em produtos com vida útil três vezes maior.

A radiação gama é uma onda eletromagnética, assim como micro-ondas e os raios x, e é usada para proteger alimentos desde a década de 1920. Apesar de ser pouco conhecida no Brasil, a tecnologia de irradiação já foi usada, por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, na preparação das chamadas “rações” para os soldados americanos, que precisavam se alimentar no campo de batalha numa época em que os métodos de conservação de alimentos eram precários. Com a tecnologia gama, as refeições permaneciam livres de micro-organismos e demoravam mais tempo para se deteriorar.

“No pós-guerra, por volta da década 1950, a irradiação saiu da esfera militar e começou a ser disseminada para outras áreas, especialmente as de uso comercial. Só que novidades científicas sempre geram discussão. Polêmicas como a que temos sobre o consumo de alimentos transgênicos já aconteceram com o uso dos raios gama”, explica Luiz Ladeira, professor e chefe do Laboratório de Irradiação Gama (LIG) da UFMG. Apesar de ainda ser vítima de preconceito, o uso desse tipo de radiação, segundo o professor, além de ter aprovação da Organizações das Nações Unidas (ONU), por meio de seu órgão para a Agricultura e Alimentação (FAO), não faz mal à saúde humana. Ao contrário, serve para deixar os alimentos com baixa quantidade de patógenos. “O problema é que as pessoas ainda associam o uso da energia nuclear com o efeito traumático gerado pelas bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial, ou pela explosão da usina de Chernobyl, na extinta União Soviética”, lembra Luiz Ladeira.

Samuel Gê
O professor Luiz Ladeira, responsável pelo laboratório LIG: "O problema é que as pessoas ainda associam o uso da energia nuclear com o efeito traumático gerado pelas bombas atômicas" (foto: Samuel Gê)


O LIG foi criado em 2002 e, além de ser usado em pesquisas da universidade, que ocupam apenas 20% do tempo útil do irradiador (construído numa área de 420 m², funciona com o elemento radioativo cobalto 60, que emite raios gama 24 horas por dia), ele trabalha de forma comercial com serviço de esterilização de material médico-hospitalar, alteração de cor de pedras semipreciosas e eliminação de insetos, larvas e ovos de temperos e condimentos. A intenção do professor é de que, em breve, comecem a trabalhar com produtos minimamente processados, ou seja, saladas, frutas e verduras picadas, vendidos em supermercados. “Esses produtos têm prazo de validade muito curto, normalmente dois dias. Porém, após irradiados, poderiam ficar na prateleira por até seis dias”, diz Luiz Ladeira.

Alimentacaoesaude/Reprodução
(foto: Alimentacaoesaude/Reprodução)


O uso dessa tecnologia na área alimentícia, aliás, não é novidade no Brasil. Ela já é usada pela indústria de condimentos e macarrões instantâneos e, de acordo com o professor, até pela rede de fast food McDonalds – que, preocupada com a manutenção de seu padrão de qualidade internacional, irradia parte de seus produtos: “Quando estávamos em busca de informações sobre máquinas que trabalham com essa tecnologia, encontramos uma empresa americana chamada Gray Star, que fabrica irradiadores, cujo sócio é o grupo McDonalds”. Outra empresa que estaria usando raios gama é uma grande cachaçaria mineira, cujo nome não foi revelado. No caso de bebidas destiladas, o efeito desejado é o envelhecimento antecipado. “Em vez de se deixar a cachaça no tonel por anos para envelhecer, com a irradiação você consegue acelerar esse processo”, diz o professor.



Outro uso curioso dos raios gama é a alteração da cor de pedras semipreciosas. O quartzo, por exemplo, muito comum em Minas Gerais, vale, no estado natural, US$ 1 o quilo. Após o processo de irradiação, que altera a tonalidade de acordo com a quantidade de impurezas presentes na pedra, pode alcançar US$ 100 o quilo. “Do quartzo conseguem-se cores como fumê, limão, oliva, black, green gold e rose de france. Pode-se ainda irradiar a prasiolita (ametista verde), citrino conhaque, berilo verde, morganita rosa, turmalina e topázio”, explica Luiz Ladeira. O topázio, aliás, exige uma dose muito elevada para se transformar em imperial, que tem valor agregado infinitamente maior.

“Nós não damos tanta ênfase a esse método, mas o utilizamos para melhorar a cor de certas pedras”, diz Marcelo Bernardes, gemologista e sócio-diretor da joalheria Manoel Bernardes. Ele explica que, na natureza, não se conseguem gemas com certos matizes de cor, possíveis apenas com a irradiação. “O topázio azul, por exemplo, é encontrado no ambiente, mas é extremamente raro. O processo de irradiação tira da pedra o melhor que ela pode dar.” Mesmo usando raios gama, as gemas ainda exigem tratamento térmico, em fornos especiais, para chegar à cor pretendida. O diretor da Manoel Bernardes explica que existem outros métodos de correção de tonalidade, como acelerador de elétrons, e que o mais comum é se fazer o tratamento em pedras que possuem valor de mercado mais baixo.



A área de saúde também se beneficia com o uso da irradiação. Além de servir para esterilizar produtos médico-hospitalares – por exemplo, a Johnson & Johnson possui irradiador próprio em sua fábrica de São José dos Campos, no interior de São Paulo – a tecnologia é empregada no tratamento do sangue e seus derivados. Em Minas Gerais, a Hemominas possui equipamento específico para ser usado em bolsas de sangue. “Quando se faz uma transfusão, é preciso levar em conta a diferença imunológica entre o doador e o receptor, para não ocorrer reações inesperadas”, explica Gisela Hollanda Iunes, gerente técnica do Hemocentro de Belo Horizonte. Um problema que pode acontecer é a chamada Doença Enxerto Versus Hospedeiro, que pode ser fatal e ocorre quando o organismo da pessoa receptora reage à presença de linfócitos T – tipo de glóbulo branco usado pelo corpo para atacar doenças – no sangue doado. “A irradiação ajuda a eliminar esses elementos que causam a reação.” Segundo Gisela, o uso de sangue irradiado é obrigatório em transfusões intrauterinas e em recém-nascidos com problemas de saúde ou com peso inferior a 1,2 kg.

O uso de raios gama no mundo já é realidade, especialmente em países da Europa e nos Estados Unidos. Os americanos, aliás, já aceitam esse procedimento há tempos, e um exemplo do sucesso de seu uso se deu na década de 1990, quando frutas e verduras irradiadas chegavam a vender até 10 vezes mais que suas versões naturais. Com relação ao custo/benefício da técnica, o professor Luiz Ladeira diz que, ao se evitarem desperdícios – o Brasil joga no lixo 39 mil toneladas de alimentos por dia –, o valor gasto pelo empresário torna-se irrisório: para aplicações de baixa dose (como para inibir o surgimento de brotos em cebolas e batatas), o custo é de US$ 15 por tonelada; para aplicações de alta dose (como na esterilização de material hospitalar), chega a US$ 250 por tonelada.

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