A paixão mineira de Lamartine Babo

Conheça, no cinquentenário da morte do cantor e compositor carioca, a história de Serra da Boa Esperança, um de seus maiores sucessos que homenageia a pequena cidade do Sul de Minas

por João Pombo Barile 08/05/2013 13:00

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O Cruzeiro/DA Press
(foto: O Cruzeiro/DA Press)

Corre o ano de 1934. Na pequena Dores da Boa Esperança, cidade ao sul do estado, o dentista mineiro Carlos Netto tem sempre a mesma rotina: todo dia, depois de voltar do consultório, liga o rádio para ouvir seus programas preferidos. Sintoniza o aparelho nas emissoras da capital federal e passa horas ouvindo as rádios Sociedade, Clube do Brasil, Mayrink Veiga, Educadora e Philips. Regente de orquestra, ele aproveita o tempo vago para ouvir canções e escrever as partituras que servirão de arranjos para seu conjunto.

Amante da música brasileira, um dia ele tem uma ideia: escrever para os compositores e locutores das rádios cariocas pedindo-lhes retratos autografados, um costume que era frequente na era de ouro do rádio no Brasil. Redige, então, 100 cartas.

A grande maioria dos artistas responde de pronto. Outros simplesmente ignoram. Mas ele não desiste e escreve novamente. Só que, agora, assinando com pseudônimo feminino, na expectativa de, assim, ser atendido. Adota o nome de Nair Pimenta de Oliveira, identidade que toma emprestada de uma sobrinha de 11 anos.

A estratégia funciona. E as cartas, redigidas supostamente por Nair, são atendidas com rapidez. Os retratos autografados aumentam consideravelmente sua coleção.



Entre os artistas que respondem está o famoso criador de marchinhas, o compositor carioca Lamartine Babo, cuja morte completa 50 anos em junho. Ele manda uma cartinha meio sacana, cheia de segundas intenções. A resposta de Lamartine deixa Netto feliz, mas, ao mesmo tempo, atônito: e agora? O que fazer? Deve manter a correspondência com o famoso missivista sob a personalidade de Nair? Os amigos são unânimes: “Claro, não pare!”. “E se ele um dia resolver vir conhecer sua fã do Sul de Minas?”, teme Netto. Os amigos continuam encorajando-o. “Imagine: Lamartine nunca enfrentará o desconforto da viagem até Boa Esperança. E, se um dia ele o fizer, uma de nós assumirá a identidade de Nair”, garante uma das moças da turma.

As cartas trocadas se avolumam. E a curiosidade de Lamartine, ou Lalá, aumenta. Quem será a misteriosa fã do interior mineiro? Talvez por não se achar o homem mais bonito do mundo, Lamartine não envia nenhum retrato. “Manda o seu primeiro”, escreve em uma das cartas para a ‘menina’.

Para enrolar o famoso carioca, Netto lança mão de um curioso estratagema: consegue 25 retratos de moças e rapazes, entre eles o seu e o da menina Nair. Na carta, ele diz que a fã “Nair” estava entre aqueles 25. E, com a sensibilidade de artista, Lalá certamente conseguiria identificá-la.

Cansado do jogo de gato e rato, no dia 9 de dezembro de 1935, após um ano e quatro meses de correspondência, Lamartine finalmente manda o prometido retrato autografado. Como as cartas tomavam muito tempo de Netto, já que eram bem elaboradas, ele então resolve interromper a história. Além disso, não tem nenhuma foto para mandar e é melhor mesmo parar com a brincadeira. Escreve, então, a última carta, na qual informava que estava de casamento marcado, iria se mudar para São Paulo e não poderia continuar a se corresponder com ele. Desolado, o compositor carioca aceita a decisão da fã.

Arquivo pessoal
Lamartine no ritmo de Minas: o compositor acompanha uma apresentação da banda de Carlos Netto, de quem ficou amigo (foto: Arquivo pessoal)


A história terminaria aqui, e a bonita canção Serra da Boa Esperança nunca teria sido composta não fosse outra carta escrita por Netto. E, desta vez, com a sua verdadeira identidade – mas sem revelar que Nair era, na verdade, ele mesmo. Nela, o dentista mineiro convidava Lamartine para a estreia do Bando de Tangarás, conjunto amador homônimo do carioca, que tinha sido formado na cidade do interior de Minas. Lalá aceita o convite de pronto, acreditando ser uma boa oportunidade para procurar e conhecer a antiga fã.

Quando chega à cidade, a primeira pergunta que o convidado carioca faz a Netto é sobre o paradeiro da tal Nair.  Netto, então, é obrigado a explicar a Lamartine ser Nair sua sobrinha. E que quem mantivera a sua correspondência com ele tinha sido ele mesmo.

“Lamartine reagiu bem à brincadeira”, conta a jornalista Marluci Messora de Oliveira, sobrinha-neta do dentista e músico amador,  falecido em 1998. “Tanto assim que acabaria até compondo com o tio Carlos”, conta Marluci. A canção foi Vaca Amarela, gravada em 1938 por Araci de Almeida, Lamartine e grupo Diabos do Céu.

erra da Boa Esperança se transformaria num clássico da música brasileira. A primeira gravação, feita em 1937 por Francisco Alves e a orquestra da Rádio da RCA Victor,  foi um dos grandes sucessos do cantor.

“A obra de Lamartine sempre primou pela qualidade e originalidade”, explica Jairo Severiano, um dos mais importantes estudiosos da música brasileira e autor do imprescindível Uma História da Música Popular Brasileira. “E Serra da Boa Esperança é, sem dúvida, uma das suas obras-primas”, diz.

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