Tesouros resgatados

Cinco prédios tombados de escolas estaduais de BH estão sendo reformados e restaurados. A história das instituições confunde-se com a da própria capital

por Rafael Campos - Revista do Correio 08/05/2013 13:59

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Paulo Márcio
Uma das varandas do Barão do Rio Branco: restauração e reforma do primeiro grupo escolar de Belo Horizonte, na tradicional arquitetura do início do século passado (foto: Paulo Márcio)
Das janelas da Escola Estadual Barão do Rio Branco não se enxerga mais a avenida Paraúna, sem árvores e com homens caminhando com seus ternos alinhados, acompanhados de suas senhoras, exibindo belos chapéus, tal como já foi um dia, no início do século passado, no ameno clima da então novíssima capital mineira. A fachada da instituição não está tão bem cuidada. A boa notícia, contudo, é que um projeto da Secretaria Estadual de Educação, em parceria com o Departamento de Obras Públicas de Minas Gerais (Deop-MG), promete recuperar um pouco dessa atmosfera. Em Belo Horizonte, além do prédio da avenida Getúlio Vargas – antiga Paraúna – no bairro Funcionários, região Centro-Sul, outros quatro que abrigam instituições estaduais de ensino, todos tombados pelo Patrimônio, serão restaurados: Pandiá Calógeras, Barão de Macaúbas, Milton Campos e Afonso Pena. Encontro visitou as cinco instituições e conversou com arquitetos e engenheiros envolvidos na empreitada. Além disso, mergulhou no arquivo público da cidade para conhecer a origem dessas tradicionais instituições.

Na escola Barão do Rio Branco, o primeiro grupo escolar de BH, o som de picaretas, marteladas e carrinhos de mão substituem há muito tempo o corre-corre de alunos e o arrastar de carteiras. Lá, a obra é grande e minuciosa, pois a edificação foi erguida há exatos 100 anos, de acordo com os arquivos do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG). Enquanto parte dos operários está ajeitando a terra para a construção de um novo espaço administrativo, outra está fazendo a chamada prospecção, ou seja, buscando indícios de possíveis danos ou até mesmo peças ou pinturas originais de época. É o caso do auditório, onde desenhos foram encontrados por baixo da tinta branca. “É uma obra que demanda ações muito pontuais e que devem ser executadas com muito cuidado e critério, já que se trata de um prédio tombado”, explica o arquiteto Henrique Coutinho, da gerência de projetos do Deop.

Um traço marcante das escolas construídas no final do século XIX e início do XX é a presença de varandas, que lembram aqueles casarões antigos que ainda resistem no interior mineiro. Na escola Barão do Rio Branco, os balaústres de ferro fundido, provavelmente vindos da Bélgica, serão, é claro, preservados, mas os pisos com os charmosos ladrilhos hidráulicos terão de ser refeitos. As salas de aula (onde as janelas dão para a avenida Getúlio Vargas) que funcionavam no porão devem ganhar sistema de ventilação especial – e a ideia é que alguns laboratórios ocupem esses espaços.
Da escola da avenida Getúlio Vargas, partimos para a Escola Estadual Afonso Pena, localizada na avenida João Pinheiro, perto da praça da Liberdade. Poucos sabem, mas foi lá que a história da escola Barão do Rio Branco começou. Contam os arquivos de tombamento do Iepha que a escola de nome Barão do Rio Branco funcionou na atual escola Afonso Pena, de 1906 a 1913, quando se mudou definitivamente para o bairro Funcionários.

Ana Cristina de Oliveira Assis, diretora da escola Afonso Pena, não vê a hora de as obras começarem. Segundo a Secretaria Estadual de Educação, o projeto para a reforma e restauração do prédio ainda não está pronto; contudo, Ana Cristina enumera as principais necessidades: “As partes elétrica e hidráulica precisam de manutenção, além das esquadrias, do piso e da quadra”, afirma. Depois da reforma do prédio, ela irá batalhar pela recuperação do mobiliário, que, segundo a diretora, é antigo e data do início do funcionamento da escola.

Dona Maria Lúcia Daher Amorim, de 62 anos, é a funcionária mais antiga da instituição. São 25 anos trabalhando como auxiliar de serviços gerais. “Isso aqui é minha vida”, conta dona Maria, que até os 20 anos de idade morou na escola, junto a seu pai, que era zelador, e mais oito irmãos. Hoje, seu neto, Leonardo Daher Amorim Júnior, de 8 anos, segue a tradição da família e também estuda na instituição. Uma curiosidade: por lá já passou o escritor Fernando Sabino, que imortalizou Belo Horizonte em seu romance Encontro Marcado.

Aliás, outra tradicional escola da capital na fila para reforma e restauração é famosa por ter em seu quadro de ex-alunos ilustres personalidades. A Escola Estadual Governador Milton Campos, mais conhecida como Estadual Central, no Lourdes, já teve como alunos a presidente Dilma Rousseff, o cartunista Henfil, o ex-jogador Tostão e até o ex-presidente Getúlio Vargas (quando a escola funcionava em Ouro Preto). Os prédios foram projetados pelo arquiteto Oscar Niemeyer. “O projeto está todo voltado para manter as características originais e tirar os chamados ‘puxadinhos’”, diz Jefferson Lopes Pimenta, diretor do Estadual Central. Uma das edificações mais famosas da instituição, o auditório, em formato de mata-borrão, vai ganhar uma melhoria estética, sem perder as características do projeto de Niemeyer. A reforma consumirá o maior valor entre os projetos – mais de R$ 12 milhões.

Com um traçado também modernista, o prédio da Escola Estadual Pandiá Calógeras, no Santo Agostinho, também será reformado. O edifício é da década de 1930 e os operários já estão reforçando a fundação. “Descobrimos que a fundação da época era realizada com grandes pedras. A partir daí, notamos que seria necessário um reforço”, explica Márcio Carvalho, engenheiro fiscal da obra. Marcos Riquelme Ribeiro, de 11 anos, está ansioso para retornar ao espaço. “Estou com saudade de brincar e correr no pátio. Mas a escola estava precisando de reforma. A minha sala tinha várias rachaduras”, diz.

Segundo Cléber José Costa, gerente de projetos do Deop da área de educação, o principal desafio de uma empreitada desse tipo é “resgatar o aspecto original, consertar aquilo que o tempo travou e introduzir elementos que a legislação atual exige, como proteção contra descarga atmosférica e acessibilidade, entre outros”. Para Ana Lúcia Gazzola, secretária estadual de Educação, as intervenções guardam peculiaridades. “São obras caras e complexas, que exigem levantamentos arquitetônicos e históricos”, afirma a secretária. Segundo Ana Lúcia, atualmente estão em andamento mais de 1.300 obras em escolas estaduais do estado.

É o caso do prédio da Escola Estadual Barão de Macaúbas, no Floresta, região Leste, onde a obra segue a todo vapor. O prédio é da década de 1920 e também está passando por reforma e restauração geral. E de recuperação, o artesão Renilson Soares de Oliveira entende. Ele está recuperando, uma a uma, as janelas da instituição. “Adoro lidar com esse tipo de trabalho”, afirma Renilson. E, pelo visto, os alunos também irão adorar e dar nota 10 para o resultado.

História restaurada

Saiba quais são as escolas recuperadas e o que será feito

Barão do Rio Branco

Valor da obra:
R$6.185.550,33
Quando termina: junho/2016
Quando foi construída: 1913
Quantos alunos: 896 (6º ao 9º ano)

O que está sendo feito:
Serão reformadas as redes elétrica, hidráulica e restauradas as características arquitetônicas do prédio, incluindo a restauração de pinturas artísticas originais que foram encontradas nas paredes do hall de acesso principal e no auditório da escola durante o trabalho de prospecção. Constatou-se a necessidade de recuperação ou produção de itens que já não mais existem e precisam ser refeitos (na maioria das vezes, artesanalmente) em padrão idêntico ao original, como telhas, balaústres, pisos e esquadrias de madeira. As obras começaram em janeiro   

Um pouco de história:
Foi o primeiro grupo escolar de BH. O grupo tinha o objetivo de acolher os filhos dos funcionários transferidos para a nova capital. Inicialmente, o estabelecimento foi instalado na avenida Liberdade – hoje, avenida João Pinheiro. Em 15 de julho de 1914, a instituição foi transferida para o prédio definitivo, na antiga avenida Paraúna, atual Getúlio Vargas

Endereço:
Avenida Getúlio Vargas, 1.059, Funcionários. Os alunos tiveram de ser  transferidos para um anexo do Instituto de Educação, na rua Carandaí, também no Funcionários

Pedro Nicoli
Barão de Macaúbas: detalhe para o lambrequim, junto ao telhado %u2013 peça de decoração muito usada no início do século XX (foto: Pedro Nicoli)


Barão de Macaúbas

Valor da obra: R$ 3.094.520,57
Quando termina: fevereiro/2014
Quando foi construída: 1921
Quantos alunos: 1.036 (1º ao 9º ano)

O que está sendo feito:
Reforma geral, ampliação e restauração, que vai recuperar as características originais do prédio. Será construído um novo anexo com laboratório de ciências, biblioteca, três salas de aula, banheiros e área de convívio, além de uma quadra coberta. As obras foram iniciadas em outubro

Um pouco de história:
Primeira escola no bairro Floresta, foi inaugurada no dia 7 de setembro de 1922 com o nome Grupo Escolar Barão de Macaúbas. Inicialmente, seus alunos eram apenas rapazes. Em 1965 se transformou em grupo escolar, com oferta de pré-primário e de curso noturno para o atendimento de trabalhadores da região. No fim da década de 1970, recebeu o nome de Escola Estadual Barão de Macaúbas

Endereço: Rua Davi Campista, 42, Floresta. Durante a reforma, os alunos foram transferidos para a Escola Estadual Pedro Américo, no bairro Santa Tereza

Pedro Nicoli
Marcos Riquelme Ribeiro, um dos alunos da escola Pandiá Calógeras: "Estou com saudade de brincar e correr no pátio. Mas a escola estava precisando de reforma. A minha sala tinha várias rachaduras" (foto: Pedro Nicoli)


Pandiá Calógeras


Valor da obra: R$ 721.542,10
Quando termina:  A primeira fase, julho/2013; a segunda fase ainda não tem previsão
Quando foi construída: 1942
Quantos alunos: 1.530 (1º ao 9º ano)
  
O que está sendo feito: Na primeira fase, que começou em janeiro, a fundação está sendo avaliada e reparada. Na segunda fase, os pisos serão trocados, as esquadrias de madeira e metal de janelas e portas serão recuperadas, além das instalações elétricas, telefônicas e de cabeamento
  
Um pouco de história: Criada em 1935, a Escola Estadual Pandiá Calógeras tinha como objetivo atender aos filhos dos imigrantes italianos que viviam em Belo Horizonte. Inicialmente, ficava na rua Tamóios, no centro, e se chamava Dante Alighieri. Em 1935, foi transferida para sua localização atual e passou a se chamar Benedito Mussolini. Com o fascismo e a Segunda Guerra Mundial, recebeu o nome atual
  
Endereço:
Praça Carlos Chagas, 35, Santo Agostinho. Durante a reforma, os alunos foram transferidos para a rua Santa Catarina, 894, Lourdes

Paulo Márcio
Auditório do Estadual Central: em formato de mata-borrão e projetado por Oscar Niemeyer, terá a estética restaurada (foto: Paulo Márcio)


Governador Milton Campos (Estadual Central)

Valor da obra: R$ 12.264.825,55
Quando termina: Sem previsão
Quando foi construída: 1956
Quantos alunos: 3100 (Ensino médio)

O que está sendo feito: Estão previstas restauração e ampliação. São duas unidades. Em um dos complexos, obra do arquiteto Oscar Niemeyer passará por uma restauração completa. No outro, haverá a ampliação de um bloco.

Um pouco de história: O Estadual Central, como é conhecida a Escola Estadual Governador Milton Campos, foi inaugurada em 1854 em Ouro Preto, como Liceu Mineiro de Ouro Preto. Em 1887, a capital mineira passou a ser Belo Horizonte e a escola foi transferida para a nova capital,  em um prédio na praça Afonso Arinos. Em 1954, a pedido do então governador Juscelino Kubitschek, o arquiteto Oscar Niemeyer projetou a atual sede, inaugurada em 1956.

Endereço: Rua Fernandes Tourinho, 1.020, Santo Antônio

Samuel Gê
(foto: Samuel Gê)


Afonso Pena

Valor da obra: Em definição
Quando termina: Sem previsão
Quando foi construída: 1897
Quantos alunos: 883 (1º ao 9º ano)

O que está sendo feito: Contratação de projeto. Serão executadas restauração e reforma completas do prédio.

Um pouco de história: Foi inaugurada em 1906. Sua primeira diretora, Maria Salomé Pena, trabalhou para que a instituição fosse um referencial para a classe mais abastada e, assim, a escola recebeu filhos de famílias tradicionais da cidade. Em 1983, o prédio onde funciona a escola foi tombado pelo Iepha. Os alunos e professores foram transferidos para a atual Barão do Rio Branco, na avenida Getúlio Vargas, em 1913. Para o prédio da avenida João Pinheiro foram levados os alunos e professores do grupo escolar que funcionava na rua dos Guaranis. Antes de se tornar instituição de ensino, a edificação serviu de moradia para a família Pena.

Endereço:
Avenida João Pinheiro, 450, Centro

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