A bênção,Nhá Chica!

Fé e emoção marcam beatificação da mineira, filha de uma ex-escrava, que pode se tornar a primeira santa brasileira. A cidade de Baependi, no Sul de Minas, onde ela viveu, já se prepara para o turismo religioso

por Gustavo Werneck 06/06/2013 13:30

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Gláucia Rodrigues
Multidão se aglomera em Baependi para a missa campal na cerimônia de beatificação: à espera de graças, milhares de pedidos são feitos todos os anos (foto: Gláucia Rodrigues)

Gláucia Rodrigues
Imagem de Nhá Chica feita pelo artista Hildebrando Lima, em frente à igreja que leva o nome da beata: homenagens em nome da fé (foto: Gláucia Rodrigues)
Um homem de fé à espera de um milagre. Desde que foi diagnosticado com uma grave doença, que prefere não dizer o nome, o padre Edio Joaquim Moreira do Nascimento reza com firmeza para a bem-aventurada Nhá Chica, pedindo sua intercessão para ficar curado. Natural de São João del-Rei, na região do Campo das Vertentes, e titular da paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, em Macaé (RJ), o religioso vem notando uma sensível melhora na saúde e tem confiança de que o pior vai passar. Durante a cerimônia de beatificação de Francisca de Paula de Jesus, a Nhá Chica (1810-1895), em 4 de maio, na cidade de Baependi, no Sul de Minas, o sacerdote tocou suavemente a relíquia, que contém um pedaço de osso da mineira filha de uma ex-escrava, e não conteve a emoção. As lágrimas brotaram, as palavras se tornaram reticentes e a devoção falou mais alto. “Tomo medicamentos e tenho esperança de que receberei um milagre. Conheço a história de Nhá Chica desde criança e admiro a sua fé em Deus e Nossa Senhora. A confiança dela era ilimitada.”

A fé de padre Edio é compartilhada por milhares de fiéis. Os mesmos fiéis que, no dia 4 de maio, lotaram a pequena Baependi para a cerimônia de beatificação de Nhá Chica (ela é a primeira beata negra do país). São os mesmo fiéis que, agora, vão aguardar sua santificação. Para isso, é necessário que haja um novo milagre reconhecido pelo Vaticano (o primeiro milagre, a cura de um problema cardíaco, já foi reconhecido). Na igreja de Nossa Senhora da Conceição, conhecida como Santuário de Nhá Chica, no centro de Baependi, há 20 mil graças registradas, segundo a irmã Claudine, das Irmãs Franciscanas do Senhor e diretora da Associação Beneficente Nhá Chica, que atende a 170 crianças e oferece uma série de serviços à comunidade. Em Minas, que já assistiu, em 2006, no estádio do Mineirão, à cerimônia de beatificação do holandês padre Eustáquio (1890-1943), há muitas comunidades católicas à espera do reconhecimento da Santa Sé para seus candidatos (ver quadro).

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Procissão na cerimônia de beatificação: contrição, agradecimento e orações de religiosos e fiéis (foto: Gláucia Rodrigues)
A beatificação de Nhá Chica, que poderá se tornar a primeira santa brasileira – Santa Madre Paulina (1865-1942) nasceu na Itália e viveu 68 anos no Brasil –, foi possível graças ao relato da professora Ana Lúcia Meirelles Leite, de 68 anos, moradora da vizinha Caxambu e casada há 48 anos com o fazendeiro José Márcio Carvalho. Ela não se esquece do dia 28 de junho 1995, quando completou 50 anos. Fazendo faxina em casa, ficou cega de repente. “Não enxergava nada dos dois olhos e chamei logo por Nhá Chica, de quem sempre fui devota, e, para mim, é uma santa. A minha avó Ana foi amiga dela e me ensinou a rezar pedindo sua intercessão”, conta Ana Lúcia, que, tateando as paredes, deitou-se de bruços na cama do quarto e chamou o marido. Pouco depois, voltou a enxergar.

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Casas de Baependi enfeitadas de amarelo e branco, as cores do Vaticano, em homenagem à cerimônia realizada na cidade do Sul de Minas (foto: Gláucia Rodrigues)
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Devotos oram sob monumento que guarda os restos mortais de Nhá Chica: pedidos de ajuda e agradecimento por graças alcançadas (foto: Gláucia Rodrigues)
A perda da visão foi diagnosticada como isquemia transitória e, preocupada, a professora procurou especialistas que indicaram uma ressonância magnética. “O resultado foi um defeito congênito no coração – o sangue passava por caminhos errados”, conta Ana Lúcia. Exames e mais exames se sucederam em Belo Horizonte e São Paulo (SP) até que a paciente padeceu três dias com uma febre alta. Foi no terceiro dia que a melhora chegou. “Era uma sexta-feira, às 15h, exatamente o horário em que Nhá Chica intercedia a Deus para fazer os seus milagres. Eu pedi com muita fé, rezava orações como Salve Rainha e Ave Maria”, conta. O tempo passou e a professora foi só melhorando. Seis meses depois, voltou ao médico, numa clínica em BH, para fazer novos exames. O horário da consulta: 15h de uma sexta-feira. “Levei os resultados para o cardiologista e ele perguntou se eu havia feito alguma cirurgia espiritual, pois não encontrou nada de errado. Eu estava ótima, curada, e a medicina não conseguia explicar.”

Na sala dos milagres, que fica na casa primitiva onde viveu a leiga (significa que não é freira ou irmã de caridade) mineira, junto ao santuário, Ana Lúcia mandou fazer um quadro com a frase “Meu coração nas mãos de Nhá Chica. Eterna gratidão por esta graça”. “Se há uma palavra para resumir a vida dela é simplicidade”, afirma Ana Lúcia, que costuma rezar diante da imagem de Nossa Senhora da Conceição, que pertenceu a Nhá Chica e fica num altar; diante da imagem; ou acendendo velas no túmulo, dentro da igreja. Recentemente, os restos mortais foram trasladados para uma urna próxima ao altar, perto da imagem da futura beata.

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A dona de casa Ana Lúcia Leite, que recebeu a cura de um problema no coração após pedir intercessão da beata: "Se há uma palavra para resumir a vida dela é simplicidade" (foto: Gláucia Rodrigues)
A cerimônia em Baependi reuniu cerca de 40 mil pessoas na missa campal, presidida pelo cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação da Causa dos Santos e representante do papa Francisco, e com a presença do bispo da diocese de Campanha, à qual Baependi está vinculada, dom Frei Diamantino Prata de Carvalho, além de dezenas de bispos, 400 padres, o governador Antonio Anastasia e o postulador (advogado) da Causa de Beatificação, o italiano Paolo Vilotta, que é responsável por 40 processos de canonização e beatificação, 25 deles no Brasil. Durante os dias que antecederam a festa, as casas de Baependi se cobriram de amarelo e branco, as cores do Vaticano. E, no dia da festa, as mãos agitaram lenços brancos com o desenho de Nhá Chica, que agora já tem a sua imagem no altar de igreja de Nossa Senhora da Conceição.

O governador Antonio Anastasia destacou que Nhá Chica representa a fé do povo mineiro e adiantou que Baependi será um dos primeiros municípios a receber intervenções do Caminho Religioso da Estrada Real (Crer), que ligará os santuários de Nossa Senhora da Piedade, onde está a padroeira de Minas, em Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a Aparecida (SP), que guarda a imagem da padroeira do Brasil. O percurso é de 850 quilômetros e engloba 86 municípios. Anastasia acredita que a beatificação intensificará o turismo na região e no Circuito das Águas, onde vários investimentos estão em andamento.

 

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