Elas são falsas. Mas eles adoram

Lançado em janeiro deste ano, site brasileiro já reúne mais de 12 mil assinantes que contratam pessoas para fingirem ser suas namoradas no Facebook

por Sergiovanne Amaral 07/06/2013 18:02

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Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

Quando Marcos (nome fictício) começou a receber mensagens apaixonadas de uma mulher em seu mural do Facebook,  logo pensou em como sua rede de contatos reagiria. A expectativa era de, como dizem os internautas, “bombar no Face” ao ser paquerado publicamente por uma gata. Para espanto de Marcos, apenas duas ou três pessoas de sua lista de 627 “amigos virtuais” reagiram a comentários como “casa comigo” e “por você eu até mudo de time”. O ibope foi praticamente zero, mas o que ninguém sabia é que uma série de mentiras estava por trás de algo até então corriqueiro como uma paquera nas redes sociais. Primeiro, todos os 627 amigos virtuais foram enganados, porque a mulher havia sido contratada  por Marcos para enviar as mensagens apaixonadas. Segundo, a própria “namorada” foi enganada pelo seu cliente, que, na verdade, era um repórter de Encontro, escalado para testar o Namoro Fake, um site que contrata homens e mulheres para se passarem por ficantes, ex-namorados ou até namorados de pessoas que querem impressionar ou provocar ciúmes em ex ou atuais parceiros. Os recados que a falsa namorada deixava eram elaborados pelo próprio Marcos e postados no Facebook como se fossem reais. No entanto, o serviço, que custou R$ 39,90, não deu certo. “A sensação de fracasso foi grande, pois achava que era mais popular”, concluiu, aos risos, nosso repórter.

Esse “serviço” tem atraído milhares de pessoas desde que foi criado, em janeiro, e já provoca discussões entre especialistas e o público sobre seus aspectos positivos e negativos.


Nereu Jr.
Falta honestidade emocional: para a artista plástica Pompéa Tavares, sinceridade nas relações é solução gratuita e bem mais eficaz (foto: Nereu Jr.)


O dono do empreendimento (que tem se mostrado bastante lucrativo) é Flávio Stevam, um empresário de Campo Grande (MS), que conta que a ideia surgiu depois que ele ajudou um amigo a fazer ciúmes em uma ex-namorada. Para Flávio, qualquer pessoa atrai mais olhares quando está com um belo par. “O homem chama a atenção quando está com uma mulher bonita, mesmo que ele seja feio”, comenta, deixando claro que seu site não é cura garantida para nenhuma dor de cotovelo. “Não é remédio. O principal é ajudar as pessoas o levantar a moral, a ganhar autoestima”, define. Metade do valor pago pelos planos oferecidos pelo site vai para o bolso das namoradas fake. “Algumas chegam a ganhar mais de um salário mínimo por mês se divertindo com algo que já faziam de graça: postar comentários no Facebook”, revela o empresário.



Enquanto o site ganha fama e se expande – já opera no Estados Unidos desde abril e em junho deve estrear na China na rede social RenRen, que tem cerca de 100 milhões de usuários a mais que o Facebook –, muita gente anda discutindo se o serviço vale à pena ou se é uma grande furada. Para o psicanalista Walter Ferreira Filho, de 59 anos, o “empreendimento” de Stevam mexe com aspectos sérios de um relacionamento, como afetividade, confiança e reconhecimento, e não ajuda a aumentar a autoestima de verdade. “Levantar o moral?! Quem recorre a isso não sabe lidar com uma relação real. Um sujeito assim só consegue fazer sucesso frente à comunidade feminina criando uma mentira. Ele demonstra total incapacidade de sedução. É como assinar um atestado de incompetência”, diz Walter.

Por outro lado, dentro do vasto universo da psiquiatria, há quem ache que a “brincadeira” não faça tão mal. O psiquiatra Helio Lauar, de 52 anos, não se espanta com o serviço. “Os ciberprogramadores sabem da psicologia do amor. Desde que Freud se dedicou a descrevê-lo, sabemos que o ciúme é um bom tempero. Saber que o objeto que desejamos é desejado por outro nos dá mais convicção de que o que queremos é mesmo o melhor que podemos ter”, comenta.

Geraldo Goulart
Fernando Gutemberg, 27 anos: "No jogo do amor, não há regras" (foto: Geraldo Goulart)


Talvez o ponto de vista de Magda Costa, de 39 anos, mestre em psicologia pela Loyola University, especialista em cyber-affairs no Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), ajude a desequilibrar a discussão. “Mentir sobre uma namorada virtual dá mais trabalho do que arrumar uma de verdade. Não vejo como algo saudável. Há outras formas de reconquistar alguém.” Em relação à autoestima, Magda Costa também faz um alerta. “Por quanto tempo a pessoa vai sustentar essa mentira para amigos, parentes e para algum ex? Ninguém nunca vai ver os dois juntos. Parece até piada. A pessoa corre o risco de passar humilhação”, conclui.

Enquanto a polêmica por trás do site se estende pela web, Flavio Stevam vai  engordando sua conta bancária atrelado ao crescimento das redes sociais. No Brasil, o Facebook, em crescimento, já ultrapassou a marca de 70 milhões de usuários. Os números do Namoro Fake também impressionam: segundo Flávio, mais de 12 mil clientes foram atendidos nos últimos cinco meses. Até 2014, o site deve estar em seis países e, em 2015, a meta é de 15 países, com um faturamento médio anual de R$ 7 milhões. Interessante observar que o empresário tem lançado novos produtos na mesma linha. O site Amigo Fake disponibiliza amigos e colegas e no Fidelidade Face é possível testar a confiança de um parceiro.

E os internautas, o que acham de tudo isso? Para o funcionário público Fernando Gutemberg, de 27 anos, o Namoro Fake pode dar uma mãozinha em momentos críticos, mas só nessas horas. “No jogo do amor não há regras, mas não é algo para se fazer sempre. Se estivesse bem desesperado, contrataria. Poderia ser até divertido conquistar uma mulher assim. Depois, eu contaria a história para ela e daríamos boas gargalhadas.”

Eugênio Gurgel
Fuga das relações reais: para o psicanalista Walter Ferreira, quem recorre a sites como o Namoro Fake erra ao tentar sucesso criando uma mentira (foto: Eugênio Gurgel)

 

Já a artista plástica Pompéa Tavares, de 26 anos, acredita que assuntos como esse não devem ser banalizados. “Não acho que no jogo do amor valha tudo. Quem chega a gastar dinheiro com esse tipo de ‘solução’ está é criando outro problema por não querer encarar a realidade. Falta honestidade emocional nas relações. É ridículo. A pessoa que faz isso só prova o quanto é insegura”, conclui.

O fato é que, em um mundo cada vez mais imediatista, onde até carência e insegurança estão se transformarando em fontes de renda para os gênios da internet, e onde a aparência parece ser mais importante do que ser amado, vale lembrar aquele velho (mas nunca ultrapassado) verso de Drummond: “o amor é privilégio de maduros”. Até mesmo no Facebook.

Dudua's Profeta
O poder do ciúme: o psiquiatra Hélio Lauar não vê problema em utilizar o site para apimentar um pouco as relações (foto: Dudua's Profeta)


Escolha sua falsa

Site oferece cinco planos com preços, números de comentários e até níveis de beleza diferentes

Ficante

Validade: 3 dias
Máximo de comentários: 3
Preço: R$ 10

Uma mulher que surge no Facebook com um interesse repentino pelo cliente e quer estreitar laços na rede. Como vai desaparecer rapidamente, é considerada uma ameaça leve para a atual namorada. O objetivo é que a namorada real fique ressabiada e que os amigos fiquem impressionados. A frase “Não esquenta, amor. Vou mandar essa periguete parar de me perturbar!” deve deixar o cliente bem na fita com o amor real.

Ex-namorada

Validade: 7 dias
Máximo de comentários: 5
Preço: R$ 19

E se uma ex ressurgisse das cinzas, com saudade de você, disposta a se reaproximar (mesmo que virtualmente) para te reconquistá-lo? Sua namorada ficaria no mínimo enfurecida, certo? Pois esse
é o objetivo do perfil de “ex-namorada”, talvez mais temido que o de “namorada top”. Se concorrer com uma desconhecida já é difícil, imagina com alguém que talvez conheça seu amor melhor que você?

Namorada

Validade: 7 dias
Máximo de comentários: 10
Preço: R$ 39

Para começar, todos os seus contatos do Facebook vão receber o aviso de que você está em um “relacionamento sério” com uma garota que provavelmente ninguém viu. Muita gente pode ficar impressionada, inclusive sua ex, mas o grande problema é que seus R$ 39 só vão garantir isso por uma semana. O difícil é saber se isso é tempo suficiente para reverter aquele pé na bunda que você levou (ou deu).

Namorada virtual

Validade: 30 dias
Máximo de comentários: 30
Preço: R$ 99

É a fase avançada do perfil de “namorada”. Nesse caso, o namoro dura um mês e o impacto é maior. Também há mudança no status de relacionamento. Este é o plano que permite o maior número de comentários: 30. Você pode receber um comentário por dia. Fazendo uma conta rápida, você vai pagar R$ 3,30 para tentar, todo dia, cutucar sua ex-namorada ou tirar uma onda com seus amigos. Será que vale?

Namorada top

Validade: 5 dias
Máximo de comentários: 5
Preço: R$ 120

Esse plano é para quem quer deixar a rede social com o queixo caído. Como o próprio nome diz, ele permite que você receba comentários, das mulheres mais lindas cadastradas no Namoro Fake. São só cinco comentários e cada um sai pela bagatela de R$ 24. Quem contrata esse plano geralmente quer impressionar amigos, outras mulheres ou então esfregar na cara de alguma ex que é cobiçado por mulheres “mais bonitas” que ela.



Por que sim X por que não

Os motivos indicados pelo criador do site para você gastar sua grana contratando uma namorada fake e alguns argumentos que você deveria levar em consideração antes de aumentar os gastos com
seu cartão de crédito

PRÓ - Ter um namorado fake na internet pode deixá-lo mais popular e aumentar sua autoestima
CONTRA - O que você vai fazer quando não tiver dinheiro para contratar um namorado fake para encher sua bola? Além disso, você pode acabar virando uma pessoa que só é vista conversando com gatas e gatos no mundo virtual. 

PRÓ - Ninguém melhor que um namorado fake falando o que você quer para fazer ciúme no seu ex ou atual romance
CONTRA - O ciúme é considerado um tempero para a relação, mas vá com calma. Além disso, se em toda crise você contratar alguém com a cara da Letícia Spiller ou do Paulo Zulu para ficar lhe mandando mensagenzinhas no Facebook, você vai levantar desconfianças

PRÓ - Manter a cabeça fora d’água é ótimo quando o namoro naufraga. Com a ajuda de uma gata, melhor ainda
CONTRA - Ok! Você vai tirar a maior onda de durão e pegador no Facebook. Todos vão ver seu novo par. Mas e quando for ao supermercado? E quando for à padaria? E quando aparecer na balada
e todo mundo perguntar onde ela está? E se rolar um baile de formatura do seu amigo? E o pior: e quando você encontrar seu ex e ela estiver com o parceiro DE VERDADE?

PRÓ - Como é você quem define os textos, vai parecer que sua namorada fake o conhece há bastante tempo, fortalecendo toda a farsa
CONTRA - Não subestime seus amigos. Eles vão perguntar de onde saiu esse gato ou gata que sabe tudo sobre você. Na verdade, é fácil pensar que você criou um perfil fake para  mandar mensagens para si mesmo

O que nosso teste revelou


Um affair virtual forjado por sete dias, R$ 39,90 descontados no cartão de crédito, mensagens apaixonadas no mural do Facebook e... nada! O teste a que Encontro submeteu o site Namoro Fake resultou em fracasso pelo menos para um de nossos repórteres, que contratou uma das falsas namoradas para impressionar sua rede de contatos. Dos mais de 600 amigos virtuais dele, nem 10 deram bola para as mensagens que pipocaram em seu mural no Facebook.

O plano testado foi o de “Namorada”, que dava o direito de escolher uma entre 10 mulheres para receber até 10 mensagens durante sete dias. As mensagens (ou posts) são criadas pelo cliente. Depois de pagar e ficar cinco dias à espera para começar a usar o serviço, a primeira mensagem foi “Uma música para você, lindão”, acompanhada do clipe de A noite mais linda do mundo, de Odair José. Os versos cantados pelo Bob Dylan da Central do Brasil não conquistaram ninguém, mas ainda existiam outras mensagens para tentar chamar a atenção. No entanto, um tremendo fracasso viria em breve.

Já pensando em contratar um plano mais caro e imaginando a frustração de um usuário de verdade, o jeito foi usar artilharia pesada. “Casa comigo?” foi o texto lançado no mural do nosso repórter. Ninguém comentou ou quis saber quem era a mulher.

Vendo que não daria em nada investir nas mensagens, nosso jornalista decidiu testar as regras do site. Ele conversou no chat do Facebook com a contratada, trocou telefone e até marcou um encontro com ela, também de BH. Tudo proibido pelo site. Era a primeira vez dela como namorada fake.

Nem a última mensagem, “Por você eu mudo de time e viro cruzeirense”, causou reboliço no Facebook. Terminado o prazo do plano contratado, algo a se pensar: nosso jornalista-cobaia não é lá tão popular e o serviço não tem o efeito quase instantâneo e eficaz que promete. Na verdade, depende de quem você sempre foi na sua rede e de quem compõe a sua rede de contatos. Em tempo: até o fechamento desta edição, o falso cliente e a falsa namorada não haviam se encontrado.  

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