Ele quer ser o rei do morro

Dono do Shopping Uai, o empresário Elias Tergilene se prepara para lançar empreendimentos comerciais em favelas de Belo Horizonte, Rio, São Paulo e Manaus

por Pabline Félix 10/06/2013 13:00

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Samuel Gê
O empresário Elias Tergilene, dono do Shopping Uai, no Morro do Papagaio, em BH: "Foi-se o tempo em que associávamos favela a pobreza. Hoje, o pessoal sabe o que é bom" (foto: Samuel Gê)

Se quisesse, o empresário Elias Tergilene, de 41 anos, poderia frequentar as rodas “de bacanas”, como chama as pessoas de alto poder aquisitivo. Cacife para isso ele tem de sobra: é sócio de diversos empreendimentos, como uma fábrica de móveis em parceria com um grupo italiano, uma mina de beneficiamento de ardósia voltada à exportação, uma administradora de imóveis para aluguel e os shoppings populares Uai e Oi. Mas é mais fácil encontrá-lo em “quebradas” como o Morro do Papagaio ou na praça da Rodoviária, em Belo Horizonte. “A high society é chata demais. Só aquele papo de ‘filho de rico’, falando de Miami, golfe, balada, marcas. Conversar com o povo é muito mais legal. Não tem frescura, as histórias são mais interessantes. É papo reto. É onde me sinto em casa”, diz, com vocabulário típico das ruas.

E o morro realmente povoa os sonhos do empresário. Sua mais nova iniciativa comercial, a Favela Holding Participações S.A., está de olho no poder de compra nada modesto dos moradores de comunidades de todo o Brasil. Segundo pesquisa divulgada no início deste ano pelo Instituto Data Popular, os mais de 12 milhões de moradores dos morros no país somam um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 56 bilhões, cifra superior a de países como Bolívia e Uruguai. E não é só isso: essa população não só consome, como escolhe produtos de qualidade e prefere fazer suas compras na própria comunidade. É por isso que o principal investimento da nova companhia será a construção de shoppings populares em favelas de cidades como Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus. A previsão é de que seja injetado cerca de R$ 1,2 bilhão em 25 centros de compras até 2018. “Foi-se o tempo em que associávamos favela a pobreza. Hoje, a renda circula, o pessoal tem informação e sabe o que é bom. Nossa parte é aproveitar esse cenário”, afirma.

Adriano Bastos
Cristiano da Silva, representante do governo mineiro: "A favela não quer caridade, quer viver do que produz. E o empreendedorismo é isso: um jeito de a comunidade ganhar independência" (foto: Adriano Bastos)
As negociações para a criação de um shopping no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, são, atualmente, as mais adiantadas e, por isso, as visitas de Elias ao local são constantes.  Ao contrário do que se possa pensar, sua entrada e saída do morro são tranquilas porque, como ele mesmo diz, “o mundo empresarial é carta branca. Não tem partido, não tem cor, não tem preferência. Logo, não tem problema com o chefe do morro”. Outra explicação reside na gênese da holding Favela S.A.: seu sócio e idealizador da empreitada é Celso Athayde, um dos criadores da Central Única de Favelas (Cufa), principal organização do país na tarefa de representar as comunidades junto a órgãos públicos e privados. Elias foi convidado por Athayde a “fortalecer a chapa” por ser um dos poucos empresários brasileiros atentos à realidade popular. “Decidi convidá-lo porque a sua história é como a de todo mundo da Cufa. Ele conhece a pobreza e ficou rico trabalhando. Não vai olhar para a gente com compaixão”, afirma Celso, que divide com o mineiro a responsabilidade pelas principais decisões da recém-fundada companhia.

O shopping no Alemão vai ter 500 lojas, das quais 60% serão reservadas para moradores da própria comunidade, gerando emprego, renda e uma alternativa de carreira profissional para os jovens. “Podemos mudar a matriz econômica da favela, que hoje é o tráfico de drogas. Não se trata de dar apenas dinheiro para o jovem favelado, mas status e poder, que é o que ele conquista quando faz parte do ‘bonde’. E isso o empresário tem: o desafio é mostrar que vale mais a pena empreender do que se envolver com o crime. O nosso negócio é transformar a favela em patrão”, diz Elias, que negocia parcerias com empresas como Honda, Tim, Nestlé, Ambev, Nike e P&G, entre outras, todas interessadas no filão das classes C e D.

Se o modelo do projeto funcionar no Alemão, será reproduzido em todo o país. Mas nem a condicionante impede que Elias já faça mais planos. Na capital mineira, ele prevê a instalação de dois empreendimentos. No aglomerado da Serra, conjunto de favelas com mais de 70 mil habitantes, o plano é construir um shopping que facilite o consumo da população de dentro e fora da comunidade. Segundo o empresário, o início das obras depende apenas da negociação com o governo do estado, dono do maior terreno disponível na região.

Já para o Morro do Papagaio, com 50 mil habitantes, Elias vê outra vocação. Rodeado por bairros de classe A, como Santo Antônio, Sion, São Bento, Santa Lúcia e Belvedere, o lugar parece ser perfeito para a criação de um centro de serviços que vá atender às necessidades das “madames” da vizinhança, como entrega de bolos, doces, salgados e cuidados automotivos. “Que madame não vai querer que busquem o seu carro em casa e devolvam todo certinho, polido, alinhado e  balanceado, com toda segurança? Vai bombar!”, afirma. Confiante no sucesso da iniciativa, Elias diz não temer o preconceito dos ricos e garante que será questão de tempo até que a boa fama dos serviços disponibilizados se espalhe.

Francislei Henrique Santos, o DJ Francis, morador do Papagaio, é um dos parceiros de Elias na capital mineira. A varanda de sua casa, que tem uma impressionante vista para a barragem Santa Lúcia, recebe diretores e gerentes de grandes empresas dispostas a ganhar a população. Mas, para isso, garantem os negociadores, é preciso saber jogar de acordo com as regras da favela. “Na economia formal, são ‘não sei quantos’ advogados para fechar um contrato, enquanto aqui vale o papo reto. Se você fechou comigo, está fechado com a Cufa, e vice-versa. E as pessoas têm de saber respeitar isso, porque não temos um passe qualquer: nosso passe vale R$ 56 bi”, diz. Francis garante que o cenário, que já está bom, deve melhorar ainda mais quando outros empresários perceberem a riqueza em meio à paisagem dos barracos. “Nunca houve um cenário tão propício para um diálogo entre setores variados da sociedade. Acredito que, com essa troca, um setor pode e vai complementar o outro”, diz.

Léo Araújo
DJ Francis, morador do Papagaio: "Na economia formal, são %u2018não sei quantos%u2019 advogados para fechar um contrato, enquanto aqui vale o %u2018papo reto%u2019. Se você %u2018fechou%u2019 comigo, está fechado" (foto: Léo Araújo)
Para Cristiano da Silva, o Cris do Morro, representante da assessoria estadual de Assuntos Sociais de Vilas e Favelas (cargo criado pelo governador Antonio Anastasia), o empreendedorismo é uma porta importante para gerar avanço nas comunidades. “A favela não quer caridade, quer viver do que produz. E o empreendedorismo é isso: um jeito de a comunidade ganhar independência”, afirma. É por isso que o Sebrae-MG é um dos principais interessados na inciativa de Elias. Segundo Antônio Vianna de Freitas, gerente regional da unidade estadual, ter um espaço nos shoppings das favelas seria uma forma de dar suporte não só para os empreendedores interessados no negócio, mas também para os do entorno. “Já temos trabalhos pontuais em praticamente todas as comunidades de BH, mas queremos ficar mais próximos da população e criar alternativas de renda ali mesmo”, afirma.

Samuel Gê
Cida Vieira, da Associação das Prostitutas: "Essa foi a primeira vez que um empresário enxergou que, como qualquer outra pessoa, nós ajudamos a cidade, gastamos dinheiro, frequentamos os espaços" (foto: Samuel Gê)
Apesar de referir-se sempre à população da favela como “nós”, Elias é um “irmão emprestado” do morro, já que cresceu mesmo foi no “asfalto” (gíria usada para designar a porção urbanizada da cidade). Nasceu em uma família humilde na pequena Carlos Chagas, no Vale do Mucuri, e ainda na infância mudou-se para Betim, na Região Metropolitana de BH. O pai, médico, fazia questão que os filhos se dedicassem aos estudos, mas os livros nunca estiveram entre as companhias preferidas do filho, que desde os 15 anos demonstrava talento para o comércio. “Já vendi de tudo: esterco, porta-retrato, boi, vaca, mexerica, até lavagem para porcos. Tentei ter um bar, mas não deu certo. Foi com a serralheria que as coisas começaram a engrenar”, lembra.

Na serralheria, a produção de camas tubulares sob encomenda para lojas de decoração deslanchou e, logo, a empresa tornou-se alvo do interesse do grupo italiano Doimo, que comprou 51% da companhia, hoje especializada em móveis de luxo. Com a entrada de dinheiro, Elias pôde variar seus investimentos. “Um deles foi o prédio localizado na praça da Rodoviária. Depois comprei uma mina de ardósia, uma fábrica de colchões (hoje desativada). Quando percebi, já estava mergulhado naquele ambiente fabril, com um monte de funcionários e uma rotina que não era para mim. Eu sou do comércio. Foi quando, então, decidi abrir o Shopping Uai”, conta.

O primeiro “shopping do povão”, como Elias mesmo define, foi inaugurado em 2008 no hipercentro de BH. A construção está próxima a redutos de uso de drogas, terminais de ônibus e prostíbulos, o que dá um indicativo do principal público do shopping. Mas, para o empresário, isso está longe de ser um problema. Com as prostitutas, por exemplo, são diversas as iniciativas desenvolvidas em parceria com a entidade representativa da classe. “No shopping, mulheres e travestis podem ter aula de inglês e aprender a se virar melhor na época das Copas das Confederações e do Mundo. O Uai cede o espaço e nós conseguimos os professores voluntários”, explica Cida Vieira, presidente da Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig). “Essa foi a primeira vez que um empresário enxergou que, como qualquer outra pessoa, nós gastamos dinheiro e frequentamos os espaços. É uma questão de cidadania”, diz Cida.

Além da unidade no centro, existem outras duas so Shopping Uai em Belo Horizonte, ambas na região Norte: uma no bairro Céu Azul e outra em Venda Nova. Em Manaus, capital do Amazonas, existem outros dois centros de compra. Em fevereiro, Elias concluiu a compra de 25% do Shopping Oi, o outro centro de compras popular da capital.

O empresário, que é casado e pai de quatro filhos, reconhece que pensa em negócios o tempo todo. “É isso que me dá prazer.”

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