"Mesmo após a retirada dos seios, há chance de desenvolver câncer"

Presidente do Conselho Superior da Sociedade Brasileira de Cancelorogia não aconselha às mulheres a mastectomia preventiva, como fez a atriz Angelina Jolie

por Nayara Menezes 10/06/2013 15:36

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Samuel Gê
(foto: Samuel Gê)
Desde que a atriz Angelina Jolie surpreendeu o mundo com a notícia da retirada total dos seios, diante de um diagnóstico de mutação genética que eleva em 80% a probabilidade de ela desenvolver câncer de mama, o assunto dividiu opiniões no país e passou a preocupar, principalmente, as mulheres. Afinal, a mastectomia preventiva é a melhor forma de evitar o câncer de mama, tipo que mais mata mulheres no mundo? Só no Brasil, a previsão é de 60 mil novos casos em 2013, dos quais 20% devem levar à morte. O médico oncologista Roberto Porto Fonseca, presidente do Conselho Superior da Sociedade Brasileira de Cancerologia e diretor executivo da Oncomed-BH, defende tratamentos alternativos para mulheres com maior probabilidade de desenvolver a doença. Para ele, a mastectomia preventiva tem consequências que precisam ser consideradas, como o impacto negativo no “psicológico da mulher”.

1 | ENCONTRO – O senhor considera que a decisão da atriz Angelina Jolie de retirar os seios, mesmo sem ter o câncer, foi acertada?
Roberto Porto Fonseca –
Em medicina, a preocupação primordial chama-se prevenção. Sabendo então desse risco, dessa alta possibilidade de desenvolver a doença, devemos discutir com a paciente as diversas formas de prevenção. A mastectomia é uma alternativa, mas não é a única. Como tudo em medicina, deve-se tomar cuidado com os riscos e benefícios dos procedimentos. A mastectomia preventiva não resolve 100% dos casos. Ainda há cerca de 10% de chance de desenvolver o câncer de mama, mesmo após a retirada dos seios. Além disso, há um alto risco de desenvolver o câncer de ovário, que, normalmente, é muito mais agressivo que o de mama. É importante ressaltar que uma mastectomia tem conse-
quências, pois você mexe com a estética e com o psicológico da mulher. Existem outras possibilidades de prevenir, como fazendo exames de mamografia ou ressonância mais frequentemente. Mas, de qualquer forma, quem tem de escolher o tratamento é a paciente.  Cabe ao médico esclarecer sobre as diversas alternativas existentes.

2 | Mas, se uma parente do senhor tivesse o mesmo diagnóstico e pedisse a sua opinião, o senhor aconselharia o procedimento?
Provavelmente não. Eu aconselharia a se submeter a um controle periódico mais frequente e precoce, com mamografia ou ressonância. Porém, é importante destacar que as pacientes que apresentam a mutação naqueles genes podem ter sensibilidade maior para desenvolver câncer devido a radiações. Por isso, mamografias realizadas muito precocemente podem acelerar o processo de desenvolver o câncer. Nesse caso, a ressonância poderia ser a mais indicada. Além disso, é importante lembrar-se do risco do câncer de ovário. Por isso, se for fazer a mastectomia, é bom que se discuta também a possível retirada dos ovários.

3 | O exame pode ser feito em Belo Horizonte e, de fato, é caro?
Sim, o exame pode ser realizado na capital, em laboratórios que façam avaliação genética. O preço varia entre R$ 7 mil a R$ 10 mil.

4 | Todas as mulheres deveriam ter acesso a esse exame?
No primeiro momento, ainda não, por uma razão simples: você pode causar mais mal do que bem. Não é toda paciente que está preparada psicologicamente para receber uma notícia de que tem 80% de chance de desenvolver um câncer. Uma avaliação psíquica da paciente é fundamental, primeiramente.

5 | Mas qual foi, de fato, o procedimento a que Angelina Jolie foi submetida?
Ela fez o procedimento em três etapas. Primeiro, uma cirurgia que libera a auréola e o mamilo, para preservação dos dois. Na segunda etapa, fez a mastectomia, com a retirada de todo o tecido da mama, e colocou um expansor. E a terceira fase é a colocação da prótese para preencher o seio.

6 | Qual a sua opinião sobre a quadrantectomia, cirurgia que preserva parte dos seios?
Faz parte de um procedimento terapêutico para câncer de mama. Há 30 anos, o que se fazia era uma mastectomia chamada de halsted, onde se retiravam toda a mama, os músculos peitorais e ainda se fazia um esvaziamento das axilas. Isso era muito agressivo, pois deformava a mulher completamente. Com o passar do tempo, começamos a perceber que era possível fazer uma mastectomia apathy, na qual os músculos são deixados. Hoje podemos fazer uma lumpectomia, em que apenas o tumor é retirado, com uma margem de segurança. Fazemos uma biópsia dos linfonódulos das axilas e, se eles não tiverem sido acometidos, podemos preservá-los. Hoje o que sabemos é que nos tratamentos da doença procedimentos menos agressivos trazem os mesmos resultados, do ponto de vista de mortalidade, que aqueles mais agressivos.

7 | Em 2013, pelo menos 60 mil novos casos de câncer de mama devem surgir no Brasil. Em 2010, cerca de 12 mil mulheres morreram em decorrência da doença no país. Por que os números ainda são tão altos?
Costumo dizer que se os números hoje são altos é porque há maior acesso ao serviço médico e, com isso, mais diagnósticos são feitos. Outro fator que eleva os índices é o aumento da expectativa de vida da população. Já sobre a mortalidade por câncer de mama e outros tipos, infelizmente, ela ainda é alta no Brasil. Isso ocorre, principalmente, porque o acesso das pacientes para uma avaliação periódica, apesar de ter melhorado, ainda é muito ruim. Faltam informação e estrutura para atendimento. E a principal forma de reduzir a mortalidade é por meio do diagnóstico precoce.

8 | Além do câncer de mama, quais os tipos da doença que mais acometem as mulheres?
O câncer de pele é o que mais acomete homens e mulheres no país, devido à alta exposição ao sol. Mas, em geral, no Brasil, depois do câncer de mama, os tipos mais comuns nas mulheres são de colo de útero e de ovário.

9 | O câncer tem origem apenas genética ou é provocado também pelo estilo de vida das pessoas?
A hereditariedade acomete menos de 10% dos pacientes. Ou seja, é uma doença decorrente de uma mutação genética, mas que, provavelmente, tem suas origens em hábitos adquiridos, como reposição hormonal, tabagismo, anticoncepcional utilizado por muitos anos, obesidade, dieta inadequada. Como evitar os fatores cancerígenos? Tendo uma vida mais saudável, não fumando, bebendo pouco, alimentando-se bem.

10 | Como o senhor avalia a estrutura da rede hospitalar em BH para a prevenção e combate ao câncer?
Temos uma qualidade ótima, mas uma quantidade ruim, deficiente. Hoje temos um déficit em Belo Horizonte de 3 a 5 mil leitos. Por isso, estamos precisando focar de maneira séria nesse problema. A cidade tem tudo para ser referência em saúde, dada a qualidade de atendimento, mas falta infraestrutura.

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