Tá bonito. Mas tem que funcionar bem

O Mineirão ficou melhor e adequado às exigências da Fifa. O problema é que nem torcedores nem parceiros estão satisfeitos com a dministração do estádio, e começam a pipocar ações contra a Minas Arena na Justiça. Até o Cruzeiro ameaça romper parceria

por Renan Damasceno 17/06/2013 13:58

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Cláudio Cunha
Vista das arquibancas e gramado do Mineirão, reaberto em dezembro do ano passado: desde então foram 11 partidas e uma sucessão de problemas (foto: Cláudio Cunha)

No entardecer do dia 6 de junho de 2010,  um domingo, quando o árbitro catarinense Célio Amorim apitou o fim do jogo entre Atlético e Ceará, o torcedor sabia que a espera seria longa até rever o cinquentão que faz parte da vida dos mineiros, sobretudo dos belo-horizontinos, desde setembro de 1965. Misturado à nostalgia e ao choro embargado pela despedida da geral, das cadeiras vermelhas e do tropeiro com couve e bife de porco, ficava a esperança de que, dali a pouco mais de dois anos e meio, os apaixonados por futebol se reencontrariam com um Gigante ainda mais imponente, remodelado e com ar jovial, sem deixar a desejar para os mais modernos estádios da Europa e Ásia.

Foram intermináveis 971 dias de espera para o torcedor voltar a invadir a Pampulha pelas avenidas Catalão e Antônio Carlos em uma tarde de domingo para ver a bola rolar. Palco de três jogos da Copa das Confederações, em junho, e seis da Copa do Mundo, no ano que vem, o estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, foi reaberto em 21 de dezembro do ano passado, recebeu a primeira partida de futebol em 3 de fevereiro e consagrou o Atlético campeão mineiro de 2013, em 19 de maio. Até ser fechado para os eventos internacionais, foram 11 partidas, sendo a primeira delas o empate da Seleção Brasileira com o Chile, por 2 a 2, em abril.

Ao entrar no estádio, o público deparou-se com uma nova arena, adequada às exigências da Fifa, a entidade máxima do futebol. O tão aguardado reencontro do torcedor mineiro com o Mineirão, no entanto, esteve longe de ser um conto de fadas. Do atraso no início da venda ingressos, falta de água, lanchonetes fechadas, ao tumulto na chegada e saída do estádio, no jogo de estreia, as reclamações dos usuários colocaram em xeque a operacionalidade do remodelado Gigante da Pampulha, que apresentou graves falhas em seu primeiro grande teste.

Em três meses de funcionamento, alguns torcedores até acham que melhorou, mas ainda acreditam que o estádio tem muito a evoluir. “Não tinha nem água no primeiro jogo. Foi caótico para chegar e sair. Já na decisão entre Atlético e Cruzeiro, o trânsito fluiu melhor, apesar de ainda ter sido difícil. Pelo menos as lanchonetes abriram. Mas o que parece que vai demorar para ser respeitado são os lugares marcados. Cada um senta onde quer”, reclamou o relações públicas André Aquino de Brito, de 27 anos, que esteve no Mineirão no primeiro e no último jogo do estadual.

Samuel Gê
Reclamações dos usuários, como o relações públicas André Aquino, colocam em xeque a operacionalidade do estádio: "Não adianta comprar lugares marcados. Cada um senta onde quer" (foto: Samuel Gê)
As cadeiras numeradas são uma das novidades. Com a reforma, o estádio foi dividido em setores: laranja (norte), vermelho (leste), amarelo (sul) e roxo (oeste). Cada setor é dividido em blocos, o que significa que cada torcedor deve identificar primeiro o setor, depois o bloco e, por último, a fila e o número do assento. “O respeito aos lugares estabelecidos nos ingressos é uma questão cultural, que depende da colaboração do público. A empresa disponibiliza orientadores de público, além de seguranças privados e Polícia Militar, que auxiliam e cobram dos torcedores que se dirijam aos lugares indicados nos ingressos”, explicou o gerente de Operações da Minas Arena, Severiano Braga.

Para o estudante Henrique Fernandes, de 18 anos, o número de lanchonetes abertas e a qualidade do tradicional tropeiro deixaram a desejar. “Às vezes eu saio para comer no intervalo e consigo voltar só depois dos 10 minutos do segundo tempo. Além do mais, o tropeiro já não é mais o mesmo”, diz o torcedor. A Minas Arena explicou que o prato atende ao conceito de segurança alimentar proposto pela Vigilância Sanitária. “Estamos atentos às reivindicações dos torcedores e vamos sempre buscar um caminho entre a tradição do tropeiro e as regras da Anvisa”, diz Braga.

Mas a realidade é que, desde a abertura do Mineirão, as queixas contra a empresa responsável pela administração do Mineirão só crescem, tanto por parte de parceiros quanto de torcedores. Além de sofrer quase três centenas de processos de torcedores insatisfeitos com os serviços prestados no novo Mineirão, a concessionária entrou em atrito com o principal parceiro comercial, o Cruzeiro, que assinou contrato de fidelização, em novembro do ano passado, para utilizar o Gigante da Pampulha por 25 anos.

O hino do Atlético, em alto e bom som, ao fim da partida que deu ao alvinegro o título estadual, em 19 de maio, enquanto os torcedores celestes ainda cantavam em apoio aos derrotados, foi o estopim para que a diretoria cruzeirense expusesse uma série de insatisfações com a Minas Arena. Em nota, assinada pelo presidente Gilvan de Pinho Tavares, o clube deixou claro que a parceria havia ficado abalada, além de enumerar uma série de desrespeitos ao contrato, como falha na prestação de serviço ao torcedor, não concessão de vagas de estacionamento, falta de transparência, ausência de prestação de contas, inadimplência e atraso no pagamento de verbas estabelecidas. O Cruzeiro estuda a possibilidade até mesmo de rescindir o contrato.

Ramon Lisboa EM D.A Press
O presidente da Minas Arena, Ricardo Barra, recusou dar entrevista: preferiu divulgar nota para dizer que a empresa "está tranquila" (foto: Ramon Lisboa EM D.A Press)
“Marcamos reuniões, a Minas Arena nos recebeu, mas, na prática, nada foi resolvido. Por isso, resolvemos abrir o jogo e levar as reclamações ao governador Antonio Anastasia”, explicou o diretor de marketing do Cruzeiro, Marcone Barbosa. Além do atraso no repasse da renda dos jogos, a concessionária deve ao clube as duas últimas parcelas das luvas pela fidelização: R$ 500 mil, que deveriam ter sido depositados em 28 de abril, e outro R$ 1 milhão, no fim de maio.

No contrato entre clube e concessionária, ficou prevista a exploração comercial por parte do Cruzeiro de uma loja na esplanada, camarotes e, em dias de jogos, participação nas receitas de bares, lanchonetes e estacionamento. O clube azul não paga aluguel, mas, em contrapartida, arca com 70% dos custos operacionais de cada jogo. O Cruzeiro tem direito a 100% de 54.201 ingressos, sem destinar nenhum percentual dessa receita à Minas Arena, que por sua vez comercializa cadeiras VIP, camarotes e cadeiras especiais.

O Cruzeiro garante que cumpre com seus deveres e, inclusive, não cobrou os R$ 2,5 milhões de multa por deixar de utilizar o estádio em 4 de maio, quando o Beatle Paul McCartney se apresentou no local. “Foi um pedido particular do governador, do secretário Tiago Lacerda, ao qual o clube atendeu. Em vez da multa, a produtora do show se comprometeu a pagar R$ 400 mil ao Cruzeiro, valor que ainda não foi quitado”, afirma Barbosa.

Procurado por Encontro, o presidente da Minas Arena, Ricardo Barra, não retornou os telefonemas. Por meio da assessoria de imprensa, explicou que, mesmo diante das acusações do parceiro, “a Minas Arena está tranquila e vai tratar o assunto em mesa de reunião com o Cruzeiro”.

Alexandre Guzanche e Glasdyston Rodrigues EM D.A Press
Tumulto no trânsito nas proximidades do Mineirão e avenida Antônio Carlos: são horas para chegar ao estádio (foto: Alexandre Guzanche e Glasdyston Rodrigues EM D.A Press)

Glasdyston Rodrigues  EM D.A Press
Filas intermináveis e sem organização para entrar no estádio: inauguração caótica (foto: Glasdyston Rodrigues EM D.A Press)

Tulio Santos e Renan Damasceno EM DA Press
O tradicional e cobiçado tropeiro antes (esq) e no novo Mineirão: perdeu ingredientes e sabor (foto: Tulio Santos e Renan Damasceno EM DA Press)



Torcedores querem indenizações

Samuel Gê
A Justiça mandou a Minas Arena pagar R$ 2,5 mil ao analista de redes Bruno Jorge dos Santos, mais a devolução do ingresso de R$ 100: "Fui maltratado. Não pretendo voltar tão cedo" (foto: Samuel Gê)
Mais de 40 processos contra a Minas Arena estão na pauta de julgamento do Juizado Especial Cível para junho. Em 27 do mês passado, o juiz Elton Pupo Nogueira determinou que a concessionária e o Cruzeiro indenizassem o analista de redes Bruno Jorge dos Santos, de 25 anos, por danos morais, no valor de R$ 2,5 mil, mais a devolução do ingresso (R$ 100). “Fui maltratado. Paguei ingresso mais caro e fui deslocado para um setor inferior, além de ser mal atendido pelos funcionários. Não pretendo voltar tão cedo”, explicou Bruno, que esteve no estádio no jogo de reabertura. À decisão ainda cabe recurso.

Sentindo-se lesados pelo atendimento no clássico de abertura do estádio, em 3 de fevereiro, os advogados Gladston Porto e Diego Ávila assumiram a causa de 110 torcedores. Ao todo são 25 grupos, que aguardam julgamento. “Estamos pedindo danos morais por causa da falta de água, banheiros inadequados, falta de alimentação, fora os outros problemas que foram públicos e notórios”, explicou Gladston.

Pelos mesmos desrespeitos, a Minas Arena foi multada em R$ 1 milhão pelo estado, que, desde a formação da parceria público-privada, tem a função de avaliar a performance da concessionária – se o desempenho ficar abaixo do esperado, pode haver sanções e até mesmo interrupção da concessão. Derrotada no recurso para reverter a multa, a Minas Arena já quitou as duas primeiras das cinco parcelas do pagamento, no valor de R$ 200 mil cada uma.

 

Queda de braço

O que determina o acordo entre Cruzeiro e Minas Arena

 

  • O clube não paga aluguel, mas arca com 70% dos custos operacionais
  • Tem direito a 100% de 54.201 ingressos
    Recebe um terço da renda líquida da arrecadação de estacionamentos, bares e lanchonetes
  • Terá de cobrar, no mínimo, R$ 20 pelo ingresso dos jogos
  • Caso decida arbitrariamente jogar em outro estádio, deve pagar R$ 2,5 milhões à Minas Arena, que pagará o mesmo valor se impedir que o time faça jogos oficiais no estádio – exceto no período exclusivo da Fifa


Por que o Cruzeiro reclama de desrespeito ao contrato

 

  • Não há prestação de contas por parte da Minas Arena (a empresa apenas informa o custo operacional, sem detalhar gastos)
  • Pagamento das verbas estabelecidas e repasse da renda dos jogos atrasados
  • Falta pagamento das últimas duas parcelas das luvas de fidelização, somando R$ 1,5 milhão
  • Não há concessão de vagas de estacionamento
  • Muitas falhas na prestação de serviços aos torcedores

 

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