A BH que queremos

O que a cidade precisa para oferecer mais qualidade de vida a seus moradores? Para achar a resposta, Encontro ouviu educadores, políticos, empresários e outras pessoas que vivem na capital. Confira o que eles disseram

por Daniel Camargos* 11/07/2013 12:19

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Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)
Os livros de história das próximas gerações terão um capítulo destinado a explicar o que ocorreu no mês passado no país. Junho foi, de fato, um mês para se guardar, estudar – e, principalmente, para se aprender com ele. O Brasil foi às ruas para protestar contra a baixa qualidade dos serviços públicos, a caixa-preta do transporte urbano, as falhas na saúde, educação e segurança, a inflação, a corrupção e gastos exagerados na construção de estádios de futebol. Foi a maior manifestação popular no país desde os cara-pintadas de 1992, que queriam o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Foi como se o copo, cheio, afinal tivesse entornado com a última gota. E a última gota foi um protesto em São Paulo contra o preço das tarifas do transporte público. Como um rastilho de pólvora, o movimento alastrou-se pelo país e chegou rapidamente a Belo Horizonte, que se tornou palco de manifestações gigantescas. Ao todo, mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas em todo o Brasil.

Assustado e perplexo, o poder público tentou reagir. Prefeituras de todo o país, inclusive a de Belo Horizonte, anunciaram a redução das tarifas de transporte público. Acuado, o Congresso Nacional votou projetos que estavam emperrados e derrubou propostas que foram alvo dos manifestantes, como a Proposta de Emenda Constitucional 37 (PEC 37), que limitava os poderes de investigação do Ministério Público. A presidente Dilma Rousseff foi à TV e propôs uma assembleia constituinte para realizar uma reforma política. Com a resistência dos próprios aliados, voltou atrás e passou a defender um plebiscito. É uma proposta vaga, que ninguém sabe como – ou se – será realizada. E não foi suficiente para acalmar o país. As manifestações avançaram. A Câmara Municipal de Belo Horizonte, por exemplo, foi ocupada por manifestantes que cobravam a abertura das planilhas das empresas particulares que fazem o transporte público da capital. São essas planilhas que definem o preço das tarifas. Está claro que, para quem mora em BH, a mobilidade urbana é um dos principais pilares dos protestos. Mas há outros, igualmente abrangentes e estruturais, como nas demais grandes cidades brasileiras.

Cláudio Cunha
Manifestantes nas avenidas Antônio Carlos, no dia 26 de junho: protesto reuniu pessoas de diversas idades (foto: Cláudio Cunha)


Encontro foi às ruas para tentar achar duas respostas. A primeira: saber exatamente o que os manifestantes de Belo Horizonte – jovens, em sua esmagadora maioria – querem. Os depoimentos que surgem nestas páginas mostram, invariavelmente, as mesmas preocupações: transporte de qualidade, tarifas baixas (ou zeradas), saúde, educação e o fim da corrupção. É bom lembrar que, na capital, em um intervalo de 11 dias, quase 200 mil pessoas foram às ruas. #vemprarua foi a hashtag mais usada nas mídias sociais. Passou a ser também o grito dos manifestantes, que conclamavam trabalhadores, motoristas e quem estava em casa a engrossar a turba. Percorreram as principais praças. Gritaram em frente à prefeitura, à Câmara Municipal, à Assembleia Legislativa de Minas Gerais e à antiga sede do governo estadual, o Palácio da Liberdade. Marcharam do centro da cidade até a Pampulha, no limite imposto pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) para garantir a segurança de quem participava e torcia na Copa das Confederações nos três jogos que aconteceram no Mineirão. Lá, próximo ao estádio reinaugurado no fim do ano passado, aconteceram as piores batalhas. Na última delas, no dia 26 de junho, Douglas Henrique de Olivera Souza, de 21 anos, morreu ao cair do viaduto José Alencar. Os confrontos entre manifestantes e polícia não deixaram apenas vítimas. Somente no dia do jogo entre Brasil e Uruguai, pela semifinal da Copa das Confederações, os prejuízos calculados com a quebradeira generalizada na avenida Antônio Carlos passaram de R$ 6 milhões.

A segunda resposta que Encontro buscou, junto a manifestantes, personalidades, empresários, artistas e representantes da sociedade civil  é o que precisa ser efetivamente feito para que Belo Horizonte se transforme numa cidade melhor para se viver. Chegamos a três consensos: todos os consultados apoiam as manifestações; todos querem mudanças; e o transporte público aparece como o principal problema de BH. Os depoimentos podem ser conferidos nas páginas desta reportagem. “Precisamos de soluções ousadas para a grave questão da mobilidade urbana, que passe pela interligação entre todos os municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)”, diz, por exemplo, o empresário Olavo Machado, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), um dos principais e mais respeitados radares dos problemas que afligem o país. “É primordial investirmos na mobilidade urbana e no transporte público. Apenas o BRT (sigla em inglês para o transporte em ônibus rápido) não vai atender à demanda”, reforça o presidente da Ordem dos Advogados de Minas Gerais - Seção Minas Gerais (OAB-MG), Luís Cláudio Chaves. Há quem defenda a criação de um consórcio metropolitano para encontrar soluções conjuntas para a RMBH – e já há até aqueles que acham que o BRT, cujas obras rasgam as principais vias da cidade neste momento, chegará defasado. Finalmente, há também os que batem no pacto federativo, como o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Dinis Pinheiro (PSDB). “Precisamos de uma reforma radical na distribuição dos recursos arrecadados, que hoje ficam, em sua maioria absoluta (70%), nos cofres da União”, diz o parlamentar.

Cláudio Cunha
Palco de protestos, a praça Sete foi o cenário de vários momentos das manifestações: o combate à corrupção na pauta do dia (foto: Cláudio Cunha)


A questão é: há muito o que ser feito. A população parece ter acordado e descoberto a necessidade de mudanças somente agora. Mas algumas sementes do movimento de junho já estavam sendo plantadas antes das manifestações. Voltemos ao mês de março, quando o Movimento Passe Livre de Porto Alegre (RS) foi às ruas e conseguiu barrar o aumento da passagem de ônibus. Em maio, foi a vez da população de Natal (RN) brigar pela redução da tarifa. Porém, o rastilho de pólvora cruzou o país de um Rio Grande ao outro e encontrou o campo minado em São Paulo.

Em 6 de junho, quatro dias após o anúncio do aumento do valor da passagem, de R$ 3 para R$ 3,20, os manifestantes foram às ruas. Doze veículos foram depredados e outros 53 foram pichados. A avenida Paulista chegou a ser bloqueada por manifestantes que atearam fogo em sacos de lixo. No mesmo dia, protestos aconteceram em Natal, Goiânia e no Rio de Janeiro. A repressão endureceu. No dia 10 de junho, no Rio de Janeiro, 13 pessoas foram detidas e no dia seguinte, em São Paulo, outras 20 foram presas. No dia 13 de junho, uma quinta-feira, a Polícia Militar usou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Mais de 200 pessoas foram detidas e cerca de 6 mil manifestantes participaram do ato. No sábado seguinte, em BH, 8 mil pessoas partiram em passeata saindo da praça da Savassi até a praça da Estação.

Samuel Gê/Encontro
Pirulito da Praça Sete, tomado por populares: cena entrou para a história na capital mineira (foto: Samuel Gê/Encontro)
Porém, na segunda-feira, 17 de junho, quando Nigéria e Taiti se enfrentaram no Mineirão pela Copa das Confederações a avenida Antônio Carlos foi palco de um violento embate entre parte dos 20 mil manifestantes e a Polícia Militar, que protegia a área reservada à Fifa. Durante toda a semana, as ruas da capital ficaram tomadas por manifestantes. O Pirulito da praça Sete tornou-se um símbolo, constantemente ocupado pela população, que exibia cartazes e gritava palavras de ordem. Outras regiões, como Barreiro, Venda Nova e a vizinha Ribeirão das Neves, engrossaram o coro dos descontentes. No Barreiro, 5 mil pessoas caminharam pelo bairro e foram até a obra do hospital regional para exigirem a imediata conclusão. Em Ribeirão das Neves, a população fechou a BR-040 por 14 horas.
No sábado, 22 de junho, mais de 60 mil pessoas marcharam da praça Sete até a barreira policial que protegia a área da Fifa, próxima ao Mineirão, onde Japão e México se enfrentariam. Mais uma vez, os manifestantes exaltados, chamados pela polícia de vândalos, partiram para o ataque e foram reprimidos com bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e balas de borracha. A repressão aumentou a fúria dos exaltados, que depredaram o comércio da avenida Antônio Carlos e seguiram para o centro da cidade. Como resposta, a polícia montou uma operação de guerra para evacuar a praça Sete.

Em todo o Brasil, as manifestações se intensificaram e ganharam ares de batalha. Em Brasília, no dia 21 de junho, uma sexta-feira, um grupo se deslocou da massa de 60 mil manifestantes e depredou o prédio do Itamaraty. Mais de 60 janelas foram quebradas. Cinco dias antes, outros 5 mil manifestantes invadiram o espelho d’água e subiram no teto do Congresso Nacional, proporcionando imagens que rodaram o mundo. A pressão surtiu efeito. A toque de caixa, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 232/07, que destina 75% dos royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde. Também foi aprovado projeto que reduz a zero as alíquotas do PIS/Pasep e Cofins sobre os serviços de transporte público municipal coletivo, metroviário, ferroviário e aquaviário. O voto aberto nos processos de cassação de mandato parlamentar, um antigo desejo de quem quer transparência no Congresso Nacional, foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça – e abriu-se o processo de cassação do deputado Natan Donadon (PMDB-RO), que teve a prisão determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Trata-se do primeiro parlamentar preso no exercício do mandato. O Senado também sucumbiu à pressão e aprovou novas regras para a partilha do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e o projeto que torna corrupção crime hediondo.

Cláudio Cunha
Militares da Força Nacional fazem cordão de isolamento próximo ao estádio Mineirão (foto: Cláudio Cunha)


Mesmo após essas conquistas, mais de 50 mil belo-horizontinos foram às ruas na quarta-feira, 26 de junho. A despeito do vandalismo, que gerou prejuízos para diversos empresários, e até da dor irreparável da família do jovem Douglas, uma cena que ficará para sempre na mente de quem estava no local remete a uma batalha épica: carros incendiados, rastros de bombas no céu, helicópteros em voo rasante, muita fumaça e gás lacrimogêneo no ar e dezenas de milhares de pessoas gritando enfurecidas: “Não vai ter Copa”. É pouco provável que a frase se torne realidade, mas as ruas falaram.

O fato é que, neste momento, nem o Brasil nem Belo Horizonte podem jogar no lixo a oportunidade de debater a fundo os problemas que realmente castigam a população. O recado foi claro: o país precisa de mudanças. O poder público precisa se reencontrar com a sociedade. Os belo-horizontinos querem uma cidade melhor. Querem poder deslocar-se de casa para o trabalho em um transporte eficiente e de qualidade. Querem hospitais e escolas compatíveis com o que se paga de impostos aos cofres públicos. Querem ir e vir em segurança. Querem ter a dignidade que merecem como cidadãos honestos. Tapar os ouvidos para os protestos seria um erro grave. Até porque as ruas continuam vigilantes. “Só vamos transformar a cidade se continuarmos na luta”, resume o rapper Flávio Renegado. É hora do diálogo por uma cidade onde realmente valha a pena de se viver.



* Com Marina Dias, Simone Dutra, Rafael Campos, Pabline Félix, João Barile e Daniela Costa



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