Ele é vilão?

O glúten vem sendo apontado como o novo inimigo do emagrecimento e da boa alimentação. Mas cuidado: pode ser mais um modismo. Não há consenso entre especialistas sobre os impactos da ingestão da substância

por Marina Dias 26/07/2013 13:14

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Eugênio Gurgel
A professora Natália Maranha e o namorado, Alfredo Costa, que fazem o regime sem glúten: o principal substituto no cardápio é o pão de queijo (foto: Eugênio Gurgel)
Na luta para perder peso, ter um corpo bonito e uma vida mais saudável, várias são as teorias que se pode encontrar na internet, em revistas e entre profissionais da saúde. Fora as ideias já consensuais, como a importância de exercícios físicos, alimentação variada, ingestão de água, etc., há um sem-número de regimes e de dicas disponíveis sobre emagrecimento e estilo de vida – muito deles  controversos e polêmicos.

Uma das principais teorias do momento, tão polêmica quanto popular, é a de que o glúten (conjunto de proteínas encontradas no trigo, centeio, cevada, aveia e derivados) pode e deve ser dispensado da rotina alimentar de qualquer pessoa, e não só daquelas que têm a doença celíaca, ou intolerância ao ingrediente. Essa dieta – que, na prática, significa deixar de consumir pão, bolo, biscoito, massas e cerveja, entre outros alimentos – está na moda entre famosos e não famosos, que comemoram e comentam resultados como perda de peso e diminuição do inchaço corporal após a suspensão desses alimentos.

Samuel Gê
A advogada Doris Gomes evita o glúten fazendo receitas em casa, e até o filho Bernardo, que não está na dieta, adora: "Depois de duas semanas, já percebi melhora no inchaço abdominal e no estado da pele" (foto: Samuel Gê)


Uma delas é a advogada Doris Gomes, de 30 anos, que começou uma dieta com restrição de glúten em novembro do ano passado, por orientação de uma nutricionista, no intuito de emagrecer e ter uma alimentação mais saudável e equilibrada. Ela afirma que os resultados foram visíveis – e de forma rápida. “Depois de duas semanas, já percebi uma melhora no inchaço abdominal e no estado geral da pele, principalmente em nós, mulheres, que temos celulite. A mudança é bem significativa. Quanto ao emagrecimento, já perdi mais de 7 kg”, afirma.

Para fugir dos alimentos com glúten, Doris varia nas opções e prepara algumas receitas em que substitui cevada, centeio, aveia e trigo por outros ingredientes. Apesar de não estender sua dieta aos familiares, ela afirma que os pratos diferentes fazem sucesso até com o filho Eduardo, de 2 anos. “Posso comer um pão de queijo por dia. Para variar o cardápio, substituo por pão de batata-doce ou por uma panqueca feita com farinha sem glúten ou com farelo de quinoa. Todos comem e adoram, inclusive meu filho”, conta.

A experiência de pessoas como Doris inspirou a pesquisa da nutricionista Fabíola Lacerda, doutora em bioquímica pela UFMG, sobre o efeito do glúten no emagrecimento. Ao perceber a procura desses alimentos por não celíacos, com o objetivo de perder peso, ela decidiu investigar cientificamente o assunto. Feito com camundongos, o estudo comparou resultados da alimentação de dois grupos de animais, sendo que um não comia glúten e outro sim, com a mesma quantidade calórica. Segundo Fabíola, a conclusão foi de que a retirada do glúten da dieta pode ser um importante auxiliar na prevenção do ganho excessivo de peso, inflamação no tecido adiposo e hiperglicemia. No entanto, ela ressalta que os resultados têm como base uma pesquisa feita em animais “e, embora sejam promissores, eles devem ser confirmados em estudos com humanos para que a retirada da proteína em não celíacos seja incorporada à prática clínica”, diz.

Paulo Márcio
Cesta com produtos sem glúten: adeptos da dieta têm várias opções para uma alimentação variada (foto: Paulo Márcio)


De acordo com a nutricionista Patrícia Oliveira, defensora da suspensão do glúten da rotina alimentar, já existem estudos que mostram como o organismo humano responde ao seu consumo de diversas maneiras, sendo o indivíduo celíaco ou não. “O glúten pode desencadear hipersensibilidade no organismo, provocando inflamação nas células intestinais e resultando na sensação de barriga estufada, intolerância alimentar, desconforto abdominal, gases e retenção de líquidos”, afirma ela, citando outras possíveis consequências, como obesidade, deficiência de cálcio, alergias, diarreias e doenças autoimunes. Para Patrícia, o não uso da proteína facilita, ainda, a absorção de vitaminas e minerais pelo intestino, o que contribui para o funcionamento do organismo e interfere na perda de peso.

Outros especialistas discordam. Para a médica Simone Miranda, da Associação Brasileira de Nutrologia, não há indicação alguma de que a retirada da proteína contribua, por si só, para o emagrecimento. Segundo ela, as pessoas podem confundir essa ideia com a exclusão de carboidratos do cardápio. “Pode acontecer de a pessoa perder peso por ter tirado o pão, e o emagrecimento se deu pela diminuição calórica”, afirma. O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia da Regional Minas Gerais, Paulo Miranda, ressalta que a alimentação restrita é outra desvantagem desse tipo de dieta. “Boa parte dos alimentos do nosso dia a dia contém glúten. A retirada deles levará a uma diminuição das opções alimentares e a uma redução passageira de ingestão calórica. A perda de peso, se ocorrer, será transitória, e não sustentável”, diz.

Para fugir da tentação e da monotonia do cardápio, uma saída dos adeptos é o consumo de produtos especiais desenvolvidos, inicialmente, para os celíacos, feitos com grão-de-bico, polvilho, farinha de milho, farinha de soja, entre outros. O advogado Chaquibe Souki, de 46 anos, que está em uma dieta sem glúten há cinco meses, faz compras semanais em uma loja especializada nesse tipo de produto. “Todo sábado eu passo lá e faço uma comprinha. Há vários tipos de pães e bolos sem glúten, barrinhas de cereal e massas”, conta ele, que perdeu 8 kg e diminuiu o percentual de gordura de 27% para 18% com o regime e exercícios físicos. “Não tenho como precisar qual é a responsabilidade do glúten nisso, pois também pratico atividades físicas. Mas o desinchar foi perceptível. Em 15 ou 20 dias já se vê o resultado”, diz.

Paulo Márcio
O advogado Chaquibe Souki recorre a produtos especiais para manter a dieta sem enjoar: "Toda semana faço uma comprinha. Há vários tipos de pães, bolos e massas sem glúten" (foto: Paulo Márcio)


Estabelecimentos que vendem alimentos especiais confirmam o aumento da demanda. No Super Nosso, por exemplo, já existem 150 produtos do tipo, e houve um aumento de mais de 30% no valor de venda do setor sem glúten e orgânico do supermercado no primeiro trimestre de 2013 em relação ao mesmo período de 2012. No Empório Nutri, loja especializada em produtos isentos de glúten, a estimativa é de que apenas 20% do público seja composto de celíacos. “Não são eles que sustentam a loja. O aumento da procura por não celíacos tem sido perceptível nos últimos anos”, afirma a proprietária, Daniela Resende Lara.

Fora dos produtos especiais, um dos grandes aliados dos adeptos da dieta é o pão de queijo. Há dois meses em um regime com restrição da proteína, a professora Natália Maranha, de 25 anos, substituiu o pãozinho de todo dia pelo pão de queijo e complementa a ingestão de carboidratos com biscoitos de polvilho. “Estou tentando expandir a ideia para a família, mas as pessoas da minha casa comem muito pão. Consegui expandir para o meu namorado, que também parou de comer glúten após se consultar com a mesma nutricionista”, conta ela, que ainda está com dificuldade de se adaptar à dieta. “Ainda não recorri aos alimentos especiais, mas, em algum momento, vou ter de fazer isso para variar o cardápio”, diz.

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