Cadê a árvore que estava aqui?

Belo Horizonte, que antes era considerada cidade jardim, há anos vem perdendo o título devido ao grande número de áreas verdes devastadas. Movimentos da sociedade tentam impedir um desastre maior

por Simone Dutra 26/07/2013 13:53

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Samuel Gê
Miramar Jordá Poblet, do Movimento Fica Fícus: "Antes da poda, a prefeitura deveria ter ampliado a discussão com a sociedade. Se continuar assim, possivelmente as árvores vão desaparecer da cidade" (foto: Samuel Gê)
Belo Horizonte conquistou o título de cidade jardim na década de 1950 por seus belos canteiros e suas árvores frondosas que ladeavam as avenidas e praças da cidade. Porém, hoje, o que vemos é a mais pura degradação das áreas verdes em toda região urbana da capital, o que tem deixado boa parte da população indignada. O estopim foi a poda de árvores centenárias nas avenidas Bernardo Monteiro. Os frondosos fícus estavam infestados pela praga conhecidas como mosca branca dos fícus e, como – segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente – havia o risco de queda sobre as pessoas que transitavam por ali, tiveram de ser cortados drasticamente.

No entanto, a capital mineira vem perdendo suas belas árvores há muito tempo. Em 2011, por exemplo, o Parque Municipal Américo Renné Giannetti ficou temporariamente fechado depois que um pé de jatobá, de cerca de 30 metros de altura, caiu sobre uma mulher e a matou. Após o episódio, várias espécies passaram por análise e ficou constatado que muitas estavam infestadas por cupins. As mais de 3 mil árvores existentes no local foram marcadas: algumas com fitas brancas, indicando que estavam saudáveis; amarelas, que necessitavam de vistoria complementar; e outras de vermelho, mostrando que deveriam ser retiradas. Mais de 250 foram cortadas.



Para agravar ainda mais a situação das árvores, no início do ano passado, a Prefeitura Belo Horizonte (PBH) percebeu alguns focos do fungo Lasiodiplodia theobromae, que estavam ressecando galhos dos fícus nas avenidas Bernardo Monteiro e Barbacena. Meses depois, na mesma espécie, foi constatado o surto das moscas-brancas. Além disso, o mesmo problema também foi verificado nas árvores do complexo da Catedral da Boa Viagem e no parque Lagoa do Nado, localizado na região da Pampulha.

Criou-se um plano de gestão para combater os insetos. “Temos quatro prioridades: salvar as árvores, combater as moscas, proteger as pessoas e fazer a comunicação social”, afirma o engenheiro agrônomo da Secretaria de Meio Ambiente, Dany Silvio. Com base em pesquisas realizadas, a secretaria planejou a primeira poda em janeiro deste ano, na avenida Bernardo Monteiro. “Avaliamos que os galhos estavam muito ressecados e que, provavelmente, haveria risco de queda”, afirma. Depois, foi a vez das podas na avenida Barbacena, em abril deste ano. Mas o que mais deixou a população enfurecida foi a segunda poda na Bernardo Monteiro.

Samuel Gê
Evento realizado pelo Movimento Fica Fícus, na avenida Bernardo Monteiro: reunião de pessoas que apoiam a conservação das árvores na cidade (foto: Samuel Gê)
Para o biólogo Sérvio Pontes Ribeiro, a técnica de combate da praga não foi convincente: “Questionamos as ações da prefeitura, porém eles não souberam contra-argumentar”, revela. Ele afirma que, quando as árvores são podadas da forma como aconteceu, parte do ecossistema é perdida e toda a cadeia alimentar é afetada, pois os animais que ali viviam são obrigados a se instalar em outro ambiente. “Negligência é a causa da morte dessas árvores. Nenhum galho estava doente como disseram os agentes da prefeitura”, revela o biólogo.

De acordo com o técnico da prefeitura, essa foi a única solução para aquelas árvores. Nas outras, que não apresentam risco de queda, a PBH está utilizando placas adesivas nos galhos, para que as moscas fiquem presas a ela e morram. Além disso, está sendo aplicado outro fungo, para entrar no inseto e matá-lo. Outro recurso é a aplicação do óleo chamado Neem (lê-se nim)  “Ele está previsto para ser aplicado nas duas regiões até o fim de agosto. A partir daí, começaremos a adubar as árvores, para que elas possam florescer novamente”, revela Silvio.   

O problema é que muitos acharam abusivos os cortes e se reuniram, criando o Movimento Fica Fícus Florestas Urbanas. Desde então, participam das reuniões com os técnicos da Secretaria do Meio Ambiente e, regularmente, fazem protestos nos locais atingidos. “Estamos perdendo a identidade cultural da cidade”, revela, indignada, a arquiteta e urbanista Miramar Jordá Poblet. De acordo com a urbanista, a prefeitura deveria fazer trabalhos preventivos para não chegar ao extremo como aconteceu com os fícus e com as árvores do Parque Municipal. “Antes da poda, a prefeitura deveria ter ampliado a discussão com a sociedade. O que não aconteceu. E, se continuar assim, possivelmente as árvores vão desaparecer da cidade”, revela Miramar, que afirma ainda que, na Índia e no Tibete, os fícus têm importância religiosa, porque buda os considerava sagrados.

Para reverter o quadro, a prefeitura vem investindo no programa BH Mais Verde, que prevê, até 2014, o plantio de 54 mil mudas pela cidade: 6 mil para cada uma das nove regiões da capital – Centro-Sul, Barreiro, Pampulha, Norte, Leste, Oeste, Nordeste, Noroeste e Venda Nova. Mais de 33.500 árvores já foram plantadas. Desde outubro de 2011, a PBH prepara um inventário com as espécies existentes na cidade.

Arquivo EM
(foto: Arquivo EM)
Era uma vez...

A avenida Afonso Pena de hoje não é a mesma da década de 1950, quando era tomada pelas frondosas árvores que embelezavam os canteiros centrais em toda sua extensão. A paisagem da rua era exuberante e contrastava com as curvas montanhosas da serra do Curral. O conjunto constituía um verdadeiro cartão-postal da novíssima capital de Minas, encomendada em 1893. Alguns anos depois, a cidade ainda mantinha várias concentrações de áreas verdes e, por isso, recebeu o título de cidade jardim. Porém, com a chegada do progresso e da modernidade, o aumento da população e do número de veículos, a cidade verde ficou cinza, cor do asfalto e do cimento. Aos poucos, suas majestosas árvores deram espaço para ruas, avenidas, prédios, entre outras coisas. Como aconteceu no dia 19 de novembro de 1963, quando o prefeito Jorge Carone Filho, temendo a revolta da população, mandou as máquinas trabalharem de madrugada e cortar centenas de antigos fícus. Naqueles anos, muitas outras vias também tiveram suas árvores derrubadas, visando ao alargamento para receber a grande frota de carros particulares que crescia assustadoramente na cidade e em todo o país. Mas, na Afonso Pena, a população, perplexa, criticou a prefeitura pela atitude arbitrária. O problema é que, no início da década de 1960, uma praga infestou as árvores –  o Gynaikothrips ficorum, ou amintinha, como ficaram conhecidos os insetos que incomodavam quem passava debaixo dela, em homenagem ao prefeito da época, Amintas de Barros.

Lei para podar

Segundo a Secretaria de Meio Ambiente da PBH, poda, corte, transplantio e plantio de árvores são regulamentados, na cidade, por legislação municipal específica. Qualquer iniciativa que danifique árvores de passeio, praças ou parques, como aquelas plantadas dentro dos terrenos particulares, exigem autorização da prefeitura. Ela deve ser providenciada junto à Secretaria Municipal Regional (SMR). Após solicitação, um engenheiro vai até o endereço onde se encontra a árvore e realiza uma vistoria, indicando o melhor procedimento a ser feito. Logo em seguida, o requerente recebe um documento da PBH, que pode ser pelo indeferimento ou pela autorização total ou parcial ao requerimento. No caso de árvores localizadas em ruas, a solicitação pode ser feita pela internet, por telefone ou diretamente na SMR. Após o procedimento, o engenheiro vai ao local e emite um laudo, que é encaminhado à Gerência de Parques e Jardins, responsável pela execução do serviço recomendado. Se não autorizado e ainda assim a pessoa podar a árvore, ela pode ser multada. As infrações variam entre leve, grave ou gravíssima. No caso de corte, além da multa, o infrator é responsável pela reposição de espécimes em número equivalente ao critério de espécie suprimida – localização, raridade, antiguidade, seu interesse histórico, científico ou paisagístico, ou, ainda, sua condição de porta-sementes.

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