Faça-se a luz!

Projeto quer transformar Ouro Preto na primeira cidade-luz do Brasil, elevando-a ao mesmo status de grandes e famosos pontos turísticos mundiais, como Paris, Viena, Praga e Las Vegas

por João Paulo Martins 26/07/2013 14:23

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Eduardo Tropia/Ouropress/Divulgação
Em julho de 2010 foi realizado um teste na igreja Nossa Senhora do Rosário, que, junto à de São Francisco de Assis, serão as primeiras a receber a iluminação diferenciada (foto: Eduardo Tropia/Ouropress/Divulgação)
Quando, no primeiro dia do Gênesis, Deus, segundo a Bíblia, teria dito “faça-se a luz”, teve início o que viria a ser o mais importante dos sentidos humanos: a visão. Com ela é possível admirar paisagens naturais e a grandiosidade da produção artística do homem. É justamente este elemento, que dá “vida” às coisas, que faz com que 60 cidades pelo mundo tenham o título de cidades-luz, emitido pela organização Ligthing Urban Community International (Luci). E quem quer se juntar a Paris, Las Vegas, Viena, Praga e outras é a mineira Ouro Preto, que deve ser a primeira cidade do Brasil a receber esse título, com o projeto de iluminação urbana, arquitetônica e monumental de importantes igrejas, museus, casarões e ruas.

Criado em 2008, o plano diretor de iluminação de Ouro Preto deve custar R$ 30 milhões e foi divido em cinco módulos. O primeiro, que contempla seis igrejas e tem custo estimado em R$ 10 milhões, já está em andamento, com a finalização do projeto de iluminação das igrejas Nossa Senhora do Rosário e São Francisco de Assis. Falta, agora, a sua implantação, e a previsão é de que seja feita nos próximos quatro meses. “A gente pretende que, assim que essa primeira etapa estiver pronta, consigamos o título de cidade-luz”, diz José Alberto Pinheiro, secretário de Cultura e Patrimônio de Ouro Preto. O plano diretor é uma iniciativa da prefeitura, mas seu gerenciamento e captação de recursos está a cargo da Agência de Desenvolvimento Econômico e Social de Ouro Preto (Adop).

Apesar de o país abrigar grandes nomes da arquitetura, para elaboração do projeto luminotécnico foi escolhido o escritório do light designer Gustavo Avilés, do México, que desde 1984 trabalha com esse tipo de obra. Ele é o responsável, aliás, pela iluminação da cidade mexicana de San Luis Potosí, que foi a primeira da América Latina a obter o título de cidade-luz. No caso da cidade histórica mineira, Gustavo Avilés contou com a ajuda de professores da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e da arquiteta Norah Turchetti, de Belo Horizonte, para adaptação dos padrões mexicanos aos nossos. “É um projeto muito importante, se levarmos em conta os aspectos cultural e socioeconômico. Ou seja, com a iluminação adequada, que valoriza o patrimônio, conseguiremos manter o turista por mais tempo na cidade”, explica Vandeir Assis, gestor do núcleo de projetos da Adop. A intenção é de que, ao contrário do que se vê hoje, em que o turismo se dá quase exclusivamente durante o dia, com o projeto de iluminação urbana, arquitetônica e monumental, as pessoas passem a visitar os pontos turísticos durante a noite. “Queremos que os empresários, possíveis doadores, entendam que este é um projeto perene, e não um patrocínio de um show”, diz o gestor.

Tal como ocorreu em Paris e nas demais cidades-luz, o projeto de iluminação leva em conta a riqueza visual da cidade. Em Ouro Preto, onde se concentra grande parte das obras do mestre Aleijadinho, isso não seria diferente. De acordo com a arquiteta Talina Águila, do escritório de Gustavo Avilés, o projeto considera a interação do barroco das construções históricas com a paisagem montanhosa e sinuosa da região. “Nossa intenção foi tirar vantagem da topografia desigual da cidade, levando o público a uma visão mais definida do conjunto arquitetônico”, diz. Com relação ao título de cidade-luz, a arquiteta explica que o pedido enviado a Luci mostra o “uso da luz como principal ferramenta urbanística e de desenvolvimento socioeconômico, além de se manter uma preocupação ambiental”. Por isso foi escolhido o LED, que tem baixo consumo de energia e quase nenhuma emissão de calor.

Quando tudo estiver funcionando, por ter-se utilizado o LED, que é uma fonte de luz digital – que pode ser controlada por computador –, será possível criar iluminações temáticas, inclusive de acordo com a época do ano. Por exemplo, as igrejas podem receber tons roxos durante a quaresma. A ideia é que em dois anos, o módulo 1, com a iluminação de seis igrejas, esteja totalmente implantado. “Conseguiremos fazer com que os patrimônios iluminados conversem entre si”, explica Vandeir Assis. O próximo passo, segundo ele, é fazer o casamento entre as luzes e os toques dos sinos, que já são uma atração à parte.

Juarez Rodrigues/EM/DA Press
Vista da fachada da igreja de Nossa Senhora da Conceição, cujo telhado corre o risco de desabar (foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
Patrimônio que se apaga

Apesar do clima de euforia gerado pelo projeto de iluminação, nem tudo reluz em Ouro Preto. Em fevereiro, os mineiros receberam a notícia do fechamento da igreja de Nossa Senhora da Conceição, construída no século XVIII e que guarda os restos mortais de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Lá também se encontra um museu em homenagem ao grande mestre do barroco. Segundo o cônego Luiz Carlos Carneiro, responsável pela igreja, a decisão radical se deve a um problema no telhado, que está com as quatro estruturas, chamadas tesouras, comprometidas e em risco de desabamento.

O religioso tomou a decisão sem consultar o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável pela manutenção do bem, que é tombado na esfera federal. “Após análise de uma empresa de arquitetura e engenharia, a recomendação foi de fechamento imediato”, explica o cônego. As peças do Museu do Aleijadinho, que funcionava na antiga sacristia, foram levadas para a igreja de São Francisco de Assis, que fica próxima à praça Tiradentes.

A diretora do Iphan, Jurema Machado, determinou que sejam feitas obras emergenciais: “O museu não corre risco, e vamos usar recurso do nosso orçamento ordinário para as intervenções de urgência”.  O escoramento do telhado já foi providenciado e a igreja aguarda, agora, investimento de R$ 6,5 milhões provenientes do PAC Cidades Históricas. O valor será liberado assim que o projeto de restauração for aprovado pelo Iphan. Ele está em análise no órgão federal.

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