Acessório eterno

Ninguém se surpreende mais em ver tatuagens em pessoas de vários estilos e idades. Em comum, o que todos querem é marcar o corpo com cores e desenhos que tenham um significado pessoal. O problema é que sempre existe o risco de se arrepender

por Marina Dias 26/07/2013 14:30

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Samuel Gê/Encontro
O chef Henrique Ferrari orgulha-se de todas as tattoos, mesmo as mais antigas, feitas na juventude: "Queria ser como os meus ídolos do rock' n'roll: cheio de atitude e de tatuagens" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Quando o chef de cozinha Henrique Ferrari veste o dolmã (uniforme característico dos chefs), para começar sua jornada de trabalho em um restaurante no bairro de Lourdes, só algumas das 26 tatuagens espalhadas pelo seu corpo ficam cobertas. Sobram cores e desenhos nos braços, pescoço e até no rosto. Dos 18 anos, quando fez a primeira (uma carapaça de espinhos no braço esquerdo), até hoje, ele já registrou diferentes símbolos e vivências em sua pele. O mais recente, nas costas, é um buda gigante no meio de uma cidade em chamas, que representa “o domínio sobre os desejos que arruínam o homem”, explica.

As tattoos de Henrique têm origem no gosto que já tinha, desde a infância, pelo desenho e o mundo criativo. Mas o desejo cresceu mesmo na pré-adolescência. “Foi quando descobri o bom e velho rock’ n’ roll. Aí eu queria ser como os meus ídolos: cheio de atitude e de tatuagens”, diz.

Duduas' Profeta/Encontro
A estudante Luiza Maximo precisou da presença da mãe para fazer a tattoo no ano passado, aos 16: "Ela não quis a princípio, mas me deu um tempo para ter certeza de que eu queria" (foto: Duduas' Profeta/Encontro)


Mas, ao contrário dos tempos de juventude, quando as tattoos eram sinônimo de ousadia, hoje elas já não são mais símbolo de subversão ou associadas a grupos marginalizados da sociedade. É difícil, aliás, encontrar alguém que não tenha alguma, mesmo que pequena e escondida. Segundo o presidente da Associação dos Tatuadores e Piercer de Minas Gerais (Atap-MG), André Matosinhos, essa simbologia ligada à tattoo se relacionava, entre outros motivos, ao modo como o ofício chegou ao Brasil: foi pelo porto de Santos, no final da década de 1950, quando o primeiro tatuador profissional atuou no país, o dinamarquês Lucky Tattoo. “E quem andava no porto? Marinheiros, mercadantes, prostitutas, alcoólatras... Eram pessoas que sofriam muita discriminação”, explica Matosinhos. “Depois, passou a ser coisa de grupos específicos, como surfistas, hippies e roqueiros e, de lá para cá, está em todo lugar”, diz.

Para Denise Pirani, professora de antropologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), a maior aceitação e popularidade da tatuagem nos dias de hoje tem a ver com o fato de essa prática estar mais relacionada à estética do que à identidade ou pertencimento a um grupo. “Hoje, poucos grupos ainda a usam com um sentido coletivo, de identidade. No geral, ela tem sido pensada como um acessório, assim como um brinco, um colar, um piercing. Está mais ligada ao lado estético, o que tem a ver com nossa sociedade atual, que é uma sociedade da imagem e do culto ao corpo”, afirma.

Para André, outro fator importante na popularização da tatuagem é a profissionalização dos artistas, que antigamente podiam atuar na rua, não tinham registro ou cuidado com questões sanitárias. Hoje, já existem associações, portarias que obrigam à fiscalização dos estúdios e registro dos materiais na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em BH, esse processo também ocorreu. “Hoje, há muita procura, as pessoas estão cada vez mais conscientes e interessadas”, diz. Para Junnio Nunes, um dos muito atuantes em BH, a tatuagem está cada vez mais em evidência na capital mineira. “O público daqui é exigente, e vejo isso como um ponto positivo”, diz.

Pedro Nicoli/Encontro
A maquiadora Eliza Mendes tem 13 tatuagens, entre elas uma imagem do batismo de Jesus, que fez junto com o namorado, Adriano, mas acha que não corre o risco de não se arrepender: "Mesmo se terminássemos, seria uma lembrança de nossa história" (foto: Pedro Nicoli/Encontro)


Uma novidade nos últimos tempos é que as mulheres têm sido maioria entre os clientes, diz o tatuador Leo Lobinho. Entre o público adepto é possível encontrar pessoas de todas as idades, profissões e classes sociais. “Até mesmo pelo status que a tatuagem tem ganhado nos últimos anos”, diz Lobinho. A estudante Luiza Maximo ainda nem atingiu a maioridade, mas já é uma das mulheres fãs de tattoos. Quando decidiu fazer a sua, no ano passado, aos 16 anos, ela precisou convencer a mãe a acompanhá-la, já que menores de idade precisam da autorização dos pais. “Ela não quis a princípio, mas me deu um tempo para ter certeza de que eu queria, e a convenci, pois queria fazer um desenho de minha autoria. Aí visitamos o estúdio, para ver as condições, e ela me acompanhou”, conta Luiza. “Acho muito autêntica essa ideia de fazer do seu corpo uma tela, e essa tatuagem representa uma época da minha vida e da minha arte. Mesmo que meu estilo mude no futuro, ela será um símbolo disso.”

Em algumas pessoas, a vontade de tatuar chega mais tarde, como é o caso da dentista Josete Soares, de 57 anos. Quando estave prestes a comemorar os 50 anos, ela fez a primeira e única tatuagem, uma tribal na nuca, para marcar as mudanças pessoais e profissionais pelas quais estava passando. Apesar de alguns amigos e familiares terem estranhado a decisão, ela considera que a sociedade está mais aberta e tolerante. “Mesmo os que acharam estranho, no início, aprenderam a conviver e a respeitar”, diz ela, que pretende fazer outro desenho — um passarinho voando “livre, leve e solto”. Isso quando se aposentar, em dois anos.

Thiago Mamede/Encontro
A dentista Josete Soares fez uma tribal aos 50 anos e pretende fazer outro desenho em dois anos: "Apesar de alguns amigos e familiares estranharem, aprenderam a conviver e a respeitar minha escolha" (foto: Thiago Mamede/Encontro)


Fugindo do conselho geral, que é evitar fazer tatuagens relacionadas, de alguma forma, a namorados, a maquiadora Eliza Mendes, de 23 anos, fez uma de suas 13 tattoos junto com o parceiro, Adriano. A imagem, na perna de ambos, é do batismo de Jesus. Ela nem pensa em se arrepender: “Mesmo que a gente termine, fica como uma lembrança de nossa história que, assim, como a tattoo, não pode ser apagada”, diz.

Já a arquiteta Deise Eleutério, de 29 anos, não morre de amores pela lua e estrela cadente que fez aos 14 anos, em Itabira, onde morava. “Foi coisa de gente completamente sem juízo. Todo mundo estava fazendo e eu fui também. O tatuador era um hipppie e nem pediu a autorização dos pais”, conta ela, que não gosta do desenho e já pesquisou formas de apagá-lo ou de fazer outro por cima, mas tem medo de que fique pior. “Enquanto não resolvo o que fazer, quando alguém pergunta sobre a tatuagem, eu explico essa história”, diz.  

No caso de Deise, a tattoo não é um problema em termos profissionais, já que arquitetura é um ramo menos formal. Mas, para outras pessoas, o mercado de trabalho é uma questão a se levar em conta antes de se fazer uma tatuagem. Segundo Virgínia Gherard, diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos de Minas Gerais, ainda há preconceitos em algumas empresas, principalmente as mais tradicionais e de setores formais. “Se a tatuagem é discreta, é mais bem aceita. Quando se tatua o corpo todo ou uma parte muito visível, ainda existe choque em determinadas empresas, principalmente se envolvem atendimento ao cliente, pois existe um impacto da primeira impressão”, explica.

Geraldo Goulart
Reinaldo Palhares tampa os braços tatuados para trabalhar: "Ainda há gente preconceituosa" (foto: Geraldo Goulart)


Profissional do ramo de aviação executiva, Reinaldo Palhares, de 36 anos, tem os dois braços cobertos com tatuagens orientais, que esconde diariamente com a camisa social. Segundo ele, o fator “mercado de trabalho” foi levado em conta quando começou a fazer as tattoos, tanto que a primeira foi bem perto do ombro e conseguia cobrir até com uma blusa de manga curta. Hoje, precisa de mangas longas, mas isso não o impediu de continuar fazendo os desenhos: ele está no processo de fechar as costas com mais tinta — lugar também fácil de esconder. “Ainda há gente preconceituosa e não quero passar a impressão errada no trabalho. Mas gosto delas, e é só no trabalho que as escondo.”

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