De filho para pai

Pais que sempre foram referência para os filhos revelam, orgulhosos, que também aprendem com seus rebentos, numa relação de amor na qual todos saem ganhando

por Pabline Félix 13/08/2013 13:59

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Cláudio Cunha
Raquete mágica - Foi por causa do gosto do pai, Paulo Ernane de Melo, pelo tênis, que a família começou a envolver-se com o esporte. O caçula, Marcelo Melo, cresceu na quadra. Gostou tanto das raquetes que se tornou o primeiro brasileiro a disputar a final de duplas do tradicional torneio de Wimbledon. "Foi mágico! Saber que seu filho entrou para a história do esporte é, sem dúvida, uma alegria sem tamanho. Eu, sendo tenista também, me sinto realizado nas conquistas dele. É graças a sua obstinação e persistência, que são características dele, que pode chegar tão longe. Já passou por lesão, já passou por derrotas em momentos importantes, mas nunca desistiu. Ele nos ensinou que paciência e calma para analisar as diferentes situações são a chave para tornar-se um vencedor", afirma. (foto: Cláudio Cunha)
É inegável a importância dos pais na vida dos filhos, mas os rebentos também podem ensinar aos mais velhos. “Só aprendi o que é o amor verdadeiramente quando meus filhos nasceram”, diz o engenheiro e empresário Emir Cadar, sem rodeios, para definir o maior ensinamento proporcionado pela paternidade em sua vida. Mas as lições não se limitam àquelas aprendidas no papel de pai e aperfeiçoadas dia a dia. Com suas posturas pessoais e decisões profissionais, a nova geração é capaz de deixar uma lição e encher – ainda mais – de orgulho seus genitores.

Emir Cadar enumera motivos de alegria quando o assunto é o herdeiro, que, por ser xará do pai, é carinhosamente chamado de Emirzinho: “Ele seguiu meu exemplo na profissão, no sindicato e na nossa ‘religião’, que é o Galo. Sinto-me plenamente realizado como pai, pois acredito que a maior alegria é saber que o seu menino o admira e está realizado em suas escolhas, e isso eu vejo nele”, diz. O “menino” já tem 39 anos e, hoje, ocupa o cargo de diretor na empresa fundada pelo pai e pelo tio, Lycio Cadar, a Cadar Engenharia, nome importante entre as grandes construtoras da capital mineira. Segundo o pai, desde que o filho entrou na empresa, imprimiu força à área comercial graças a sua facilidade de relacionamento, característica definidora de sua personalidade. “Ele é um agregador e é bem quisto aonde chega. Acho que o amor que demos a ele foi tanto que se tornou essa pessoa reconhecida por ser amorosa. E ele conseguiu mostrar para mim e para todo mundo que tratar as pessoas com respeito e carinho é um diferencial. Essa é a principal lição do seu comportamento”, conta o pai.

Cláudio Cunha
Amor para dar e vencer - Desde pequeno, Emir Cadar Filho acompanhava o pai, Emir Cadar, em tudo o que ele fazia: nas obras da Cadar Engenharia, empresa da família; nas conversas sobre as reuniões no Sindicato da Construção Pesada, onde o pai era presidente; e nos jogos do Galo, para os quais era levado antes mesmo de completar três anos. Não deu outra: além do nome, o filho passou a dividir com o pai a profissão, o envolvimento na classe profissional e a paixão pelo time alvinegro. O carinho recebido em tantos momentos juntos acabaram mudando a forma como o pai via a vida: "A personalidade amorosa e alegre dele mudou, a mim e à mãe dele, e nos ajudou a superar momentos difíceis, como a perda da minha filha, em 1986". (foto: Cláudio Cunha)


No Sindicato da Construção Pesada, instituição que foi presidida por Emir nos anos 1990, o posto de vice-presidente de Obras Rodoviárias é de Emir Cadar Filho. No Clube Atlético Mineiro, os dois têm lugar no Conselho do time: o pai como presidente e o filho como membro benemérito. Além disso, Emirzinho é o maior colecionador de camisas de jogos. “Meu pai sempre disse que eu poderia seguir o caminho que quisesse, na profissão ou no esporte, desde que vestisse a camisa preto e branca. Fiz o que achei melhor”, brinca.

À frente da Tracbel, uma das maiores distribuidoras de equipamentos pesados do Brasil, também está uma dupla que partilha de nome e carreira similares. O pai, Luiz Gonzaga, que dirige a empresa há mais de 45 anos, conta hoje com o suporte total do filho, Luiz Gustavo, atual vice-presidente. “Ele foi estagiário de todos os setores, do básico ao mais avançado. Achei importante que ele conhecesse a empresa como a palma de sua mão e crescesse por mérito próprio para que, se chegasse à direção da empresa, não tivesse sua autoridade questionada”, diz o pai, sistemático e meticuloso, mas entregue às habilidades do filho. “Confio inteiramente na capacidade dele. Como pai, sei que ele tem os seus defeitos, mas é de uma competência e uma responsabilidade admiráveis. Acredito especialmente que o ensinei a gostar de trabalhar, e isso é o principal”, afirma.

João Carlos Martins/Encontro
Orgulho do sucessor - Luiz Gustavo cresceu em meio aos tratores e às máquinas agrícolas da empresa do pai, a Tracbel, uma das principais distribuidoras de equipamentos pesados do Brasil. Depois de formado, escolheu continuar entre eles e hoje é vice-presidente da companhia, já em vias de ocupar a presidência no lugar do pai, Luiz Gonzaga, que se diz tranquilo com a sucessão. "Sei que fui um bom pai porque criei um bom filho. Ele gosta de trabalhar, é competente e sabe dar valor às pessoas, que é o mais importante. Tenho orgulho dobrado por ele ter decidido seguir o mesmo caminho que o meu", diz o pai. Apesar de ser %u2018filho do dono%u2019, Luiz Gustavo não teve privilégios e precisou mostrar trabalho duro: estagiou em todos os setores da companhia, batalhou em diversos níveis e cursou especializações dentro e fora do país. (foto: João Carlos Martins/Encontro)


Não são só qualidades que habilitam o sucessor para o cargo de presidente da Tracbel, o que deve-se tornar oficial em breve. Luiz Gustavo pôde complementar sua formação de administrador com cursos de pós-graduação dentro e fora do Brasil, alternativa inviável para o pai, e, com isso, tornar o sistema de gestão da empresa mais moderno. “Isso agregou muito. Acho que a principal contribuição do [Luiz] Gustavo foram essas novas estratégias que ele apresentou a nossa equipe”, diz Luiz Gonzaga, que entrega: “Sou o pai mais feliz do mundo, nunca tive uma decepção!”.

Francisco Maia e Rodrigo Maia, pai e filho,  também compartilham a profissão. Rodrigo conta que decidiu tornar-se médico dermatologista por admirar a forma como o pai levava a vida. “Ele sempre teve uma rotina tranquila, e eu queria isso para mim também. Outra coisa marcante é que, quando criança, eu via ele sendo reconhecido pelas pessoas na rua e achava aquilo o máximo! Não me arrependo de ter trilhado o mesmo caminho”, diz. A faculdade escolhida foi a mesma do pai, e a residência médica também foi no mesmo hospital. Os dois chegaram a trabalhar juntos durante algum tempo, mas, segundo Francisco, o filho conseguiu levar além a caminhada. “Por essa distância de gerações, conhecemos medicinas diferentes. Eu era muito desconfiado em relação às novas técnicas usadas na área de dermatologia estética, e o Rodrigo me mostrou que elas eram confiáveis e não comprometiam a relação médico-paciente, o que considero primordial no exercício do ofício”, explica Francisco. Hoje, Rodrigo é um médico de destaque em sua área.

Cláudio Cunha
Aliança entre medicina e engenharia - O engenheiro e empresário Paulo Henrique Vasconcelos, diretor da PHV Engenharia, tem no pai, o cirurgião plástico Paulo Henrique, o principal parceiro de negócios. Apesar de seguirem profissões diferentes, são sócios em todas as empresas do grupo. "Sempre acreditei na educação do Paulo Henrique e na sua competência como profissional. Logo no início da PHV, ouvi de um empreiteiro: 'Seu filho tem um defeito, que é ser honesto demais'. Isso alegra demais um pai. Ele também tem um olhar sempre voltado para o futuro, uma coisa de empreendedor que é dele. Isso mudou muito minha forma de olhar para os negócios. Hoje fico mais aqui que no consultório", afirma. (foto: Cláudio Cunha)


Apesar de médico, dr. Paulo Henrique Carvalho de Vasconcelos tem uma sala na sede da PHV Engenharia, grupo empresarial que reúne iniciativas nos ramos de construção de empreendimentos comerciais e residenciais, e locação de máquinas, entre outras. É que, além de cirurgião plástico, ele é sócio e fã declarado do filho, o diretor Paulo Henrique Pinheiro de Vasconcelos. “A PHV começou numa salinha lá de casa e, desde o início, eu sempre acreditei muito no seu potencial, por saber como o Ique [apelido e artíficio usado pela família para diferenciar os dois, já que são xarás] é: determinado, sério, responsável. O sucesso não é fruto da sorte, mas do trabalho duro dele”, diz, coruja, o pai, que também é o vice-presidente da empresa.

Antes de decidir-se pela engenharia, o pequeno Paulo Henrique pensou em seguir os passos do pai na medicina, mas o gosto por desenhos e projetos pesou mais. Acabou prestando vestibular para engenharia sem que ninguém soubesse. “Ele tem muito dessa característica mineira: ir lá e fazer quietinho. Lembro-me com clareza do orgulho que senti quando meu pai (avô de Paulo Henrique) ligou e contou que ele havia sido aprovado no vestibular”, lembra. A discrição, no entanto, não é sinônimo de conformação com o sucesso alcançado. “O Paulo Henrique tem um olhar de empreendedor natural. Ele me ensinou muito sobre saber aproveitar as oportunidades, mas mantendo os pés no chão. E ele sabe criar uma rede de parceiros muito sólida também, tanto interna quanto externa. Fico feliz em ver que aquilo que ensinei – respeito, educação, honestidade – foi aperfeiçoado por ele”, afirma.

Arquivo Pessoal/Reprodução
Sorriso fácil - À frente do cargo máximo da cultura no estado, a secretária Eliane Parreiras enche seu pai de orgulho, o ex-promotor de Justiça Marco Aurélio de Oliveira. Principalmente quando credita a ele o mérito por ter despertado o gosto pela área que, hoje, ela representa. "Mas o mérito é todo dela. Ela não só assimilou os valores que ensinamos, como os aprimorou e agregou inúmeros outros. Sempre me orgulhei de minhas filhas. Da Eliane, destaco em especial sua segurança, seu lado pragmático, seu sorriso sempre aberto. Aprendi muito com sua competência, determinação e discernimento". (foto: Arquivo Pessoal/Reprodução)


Foi graças ao gosto de Marco Aurélio de Oliveira, ex-promotor de Justiça, por programas culturais que Eliane Parreiras é atualmente a secretária de Estado de Cultura. “Sempre que viajávamos, meus pais incluíam visitas a museus, cinemas e peças de teatro no nosso roteiro. Se esse ‘apetite’ não tivesse sido despertado por eles, eu não teria me envolvido tão profundamente na área cultural e, por consequência, sido escolhida para esse cargo tão importante. É ‘culpa’ dele”, diz Eliane, com humor. Mas, segundo o pai, o sucesso da filha não pode ser posto em sua conta. “Criamos Eliane e sua irmã com os mesmos valores: respeito, ética e responsabilidade no cumprimento dos deveres, entre outros. Ela não só assimilou esses valores, como os aprimorou e agregou inúmeros outros. Foram sua competência, determinação e discernimento que a levaram à escalada do cargo de mais alta projeção de gestão da cultura em nosso estado. A família apenas teve o papel de oferecer o apoio necessário”, afirma Marco, que destaca ser o sorriso fácil e a conduta exemplar as qualidades que mais admira na filha. “Eliane me ensinou que ter sensibilidade, mesmo no cumprimento de serviços burocráticos, é muito importante. E, ao mesmo tempo, é preciso ter segurança, mesmo lidando com material cultural”, diz o orgulhoso pai.

Cláudio Cunha
Ele superou limites - Quando chegou a hora de decidir sua trajetória profissional, Rodrigo Maia quis para si a vida que o pai, o dermatologista Francisco Maia, tinha. "Ele sempre foi uma pessoa com rotina calma. Hoje, ainda faz questão de encontrar os amigos aos sábados de manhã nas feirinhas do Colégio Arnaldo", conta. Mas, segundo o pai, o filho foi além: "O Rodrigo soube aproveitar as oportunidades e, por isso, destacou-se na área de dermatologia estética. Ele abraçou essa área, que é relativamente nova, foi se aperfeiçoando e construiu seu caminho. Eu orientei, dei apoio, mas o mérito é todo dele. Hoje, ele fala de técnicas avançadas que eu desconheço. Sei um pouco mais sobre a área por causa dele", afirma. (foto: Cláudio Cunha)


Na família do tenista Marcelo Melo, são muitos os amantes do tênis. O pai, Paulo Ernane de Melo, influenciou a esposa, Roxane, a começar no esporte. Logo, ela passou a levar os três filhos para as quadras: Ernane, Daniel e o caçula, Marcelo, e todos tornaram-se jogadores. O mais bem-sucedido costumava andar de velotrol em torno da quadra enquanto os pais jogavam com amigos. “Ele cresceu já na sua ‘praia’”, define, com alegria estampada no rosto, o pai do primeiro brasileiro a chegar à final de duplas do torneio de Wimbledom, disputado na Inglaterra (o feito foi conquistado neste ano). “Para nós, que somos tenistas, foi a maior alegria do mundo! Ele entrou para a história do esporte nacional”, afirma. Com isso, Marcelo subiu de 19º para 14º no ranking da ATP (Associação de Tenistas Profissionais), tornando-se o segundo brasileiro na lista, atrás apenas do também mineiro Bruno Soares, em oitavo. “Esse bom resultado é fruto do seu esforço e da sua capacidade de renovação. Ensinei que devemos buscar ser melhores sempre e ele nunca se conformou, buscou mais, mas com consciência, sabendo dos seus limites. Aprendi a ter muita paciência com o Marcelo, que é um cara sábio, que faz o seu caminho sem se preocupar com as conversas paralelas”, diz, reconhecendo que também passou por momentos de ansiedade em relação ao futuro do filho, sentimento típico dos pais. Mas a caminhada sólida do atleta acalmou as preocupações paternas. “Ele sempre me passou muita tranquilidade e correu atrás do que queria. Quando vi que ele estava satisfeito com o que acontecia, me tranquilizei.”

Cláudio Cunha
Terceira geração - Sérgio Leonardo seguiu o caminho do pai, Marcelo Leonardo, que havia seguido o caminho do pai, Jair Leonardo: tornou-se advogado criminal e ingressou no tradicional escritório da família, fundado em 1949. Mas a sua entrada trouxe mudanças importantes: "Foi graças ao esforço do Sérgio que passamos a aceitar profissionais de fora da família. Hoje já são seis, que complementam o time e tornam possível atender a mais clientes. É do Sérgio também a iniciativa arrojada de ampliar as unidades do escritório, e hoje já temos um endereço consolidado em São Paulo e estamos abrindo outro em Brasília. Ele tem um lado bem mais dinâmico que o meu, que sou conservador, e me ensinou a aceitar melhor as mudanças", afirma o pai. (foto: Cláudio Cunha)


O advogado criminalista Sérgio Leonardo também cresceu com “professores” da profissão: dedica-se à mesma atividade das duas irmãs, da mãe e do pai, o advogado Marcelo Leonardo, que batiza o escritório fundado há mais de 60 anos por seu pai, o professor de direito da UFMG Jair Leonardo Lopes. A chegada da terceira geração à equipe trouxe muitas mudanças, de acordo com Marcelo Leonardo. “Sempre achamos que era importante mesclar profissionais mais jovens, que são mais dinâmicos, com outros mais experientes. Por isso, a importância do envolvimento dos meus filhos com o escritório. Mas o Sérgio propôs uma coisa diferente, que foi a abertura para outros profissionais, o que viabilizou o atendimento de um número maior de clientes de forma mais versátil. Hoje, contamos com seis pessoas que não são da família no nosso time”, explica.

Fora da rotina de processos e tribunais, Marcelo conta que Sérgio lhe apresentou outros gostos. “Ele é um apreciador de vinhos e, hoje, equilibro o meu gosto pelo uísque e pelo vinho graças a ele”, conta, reforçando que admira o gosto do filho pelo que considera “as coisas boas da vida”: viajar, frequentar bons restaurantes, degustar bons vinhos e estar com a família.

Paulo Márcio/Encontro
Tecendo o futuro - Para Jayro Lessa, a principal preocupação na criação dos filhos era mostrar a importância e o valor do trabalho. Conseguiu: desde os 17 anos, Pollyanne Lessa Boczar, hoje com 38, envolve-se em alguma empresa do Grupo VDL, da família. À frente da Horizonte Têxtil há 10 anos, ela "enche os olhos" do pai. "Felizmente, meus três filhos têm grande apreço pelo que fazem e isso me deixa extremamente feliz. A Pollyanne sempre valorizou os estudos, especializou-se na Inglaterra e sempre teve muita vontade de 'fazer acontecer'. Mas acho que a sua principal característica é a capacidade de planejar, que é exemplar." (foto: Paulo Márcio/Encontro)


Pollyanne Lessa Boczar também começou sua carreira profissional na empresa da família. Assumiu o cargo de diretora da Horizonte Têxtil e, há mais de 15 anos, desenvolve um trabalho “de encher os olhos”, segundo seu pai, o deputado Jayro Lessa. “Sempre ensinei que o sucesso é fruto do trabalho duro, o que considero uma aliança entre criatividade, inteligência e dedicação. A Polly tem tudo e mais: seu ponto forte é o planejamento, coisa que para mim é uma dificuldade. Ela traça um objetivo e vai atrás. É um exemplo”, afirma. A dedicação aos estudos e a formação fora do Brasil convergiram com o espírito trabalhador e formaram o que Jayro considera ideal para um cargo de liderança. “Admiro todos os meus filhos. Cada um tem sua personalidade, e fico feliz em ver que eles conseguiram descobrir, cada um na sua área, como se realizar. É vendo o filho feliz que o pai é feliz”, resume.

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