O Brasil nos bilhetes de Jânio Quadros

Cartas e recados do ex-presidente, que renunciou ao cargo há exatos 52 anos, integram o acervo do Arquivo Público Mineiro e revelam que os problemas estruturais do país no século passado pouco mudaram em relação a hoje

por João Pombo Barile 13/08/2013 14:40

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Reprodução/Cláudio Cunha
Jânio Quadros e Magalhães Pinto no palanque durante a campanha presidencial de 1960: mote contra a corrupção, recados, brigas e renúncia (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)
Preocupação com portos e aeroportos, inquietação com os militares, venda de jogadores para clubes estrangeiros, debate sobre remessa de lucros para o exterior e broncas no ministro da Fazenda. Essas e outras preocupações, que fizeram parte da curta e conturbada passagem do líder populista Jânio Quadros pela Presidência da República (eleito em 1960 com o mote de combate à corrupção, simbolizado por uma vassoura, ele renunciou ao cargo em agosto de 1961 – há 52 anos, portanto), foram registradas em dezenas de bilhetes datilografados ou escritos de próprio punho pelo ex-presidente, e mostram um Brasil bem parecido com o atual. A boa notícia é que parte desse material (os famosos bilhetinhos de Jânio) está disponível em Belo Horizonte. O pequeno tesouro, guardado pelo Arquivo Público Mineiro, já está aberto para qualquer pesquisador que se dispuser a ler as quase 30 caixas com os preciosos documentos.

A maneira como esse arquivo veio parar em Minas é, como tudo que sempre cercou a vida de Jânio, inusitada: depois da morte do ex-presidente, sua filha, Tutu Quadros, entregou a documentação a José Aparecido de Oliveira, um dos mais atuantes políticos mineiros do século passado. Ex-secretário particular e o mais importante colaborador de Jânio, José Aparecido (ou simplesmente Zé, como gostava de ser chamado) pretendia fazer um memorial sobre o ex-presidente. A ideia, contudo, não avançou – e, com a morte de Aparecido, em 2007, seus herdeiros acabaram doando o arquivo ao governo mineiro.

“Meu pai e o Jânio foram apresentados pelo Magalhães Pinto (ex-governador de Minas) e se transformariam em grandes amigos até o fim da vida”, conta José Fernando Aparecido de Oliveira, filho do político mineiro. “Acho muito importante que esses documentos sejam analisados e estudados mais profundamente. Ainda hoje se tem uma visão muito caricaturada de quem foi Jânio: ele é sempre apresentado como um maluco, o presidente que vivia bêbado. E isto, meu pai sempre dizia, nunca foi verdade: Jânio foi um tipo de político muito raro entre nós: tinha um grande espírito público. E noção muito clara de todos os problemas nacionais”, conta José Fernando.

Vilma Moreira Santos, atual superintendente do Arquivo Público Mineiro, explica que os documentos de Jânio são apenas uma pequena parte do acervo de José Aparecido de Oliveira – e que cobre toda a vida pública do tradicional político mineiro. “Os primeiros documentos são de novembro de 1945 e os últimos, de setembro de 1995”, explica. “E, entre eles, estão os célebres bilhetinhos que o ex-presidente escrevia para os ministros”, conta Vilma.

Era antiga a mania de Jânio governar através de bilhetes. E que começou ainda quando foi governador de São Paulo, nos anos 1950. O político herdara uma máquina administrativa viciada, emperrada, cheia de defeitos e totalmente corroída pela burocracia e corrupção. Nada funcionava. Na tentativa de renovar os costumes do funcionalismo e tentar buscar eficiência, começou então a escrever memorandos, ou seja, despachos feitos diretamente não só aos secretários, mas a diretores, chefes de seção e, às vezes, a simples funcionários. A ideia era tentar acabar com a burocracia.

A inspiração de Jânio para os bilhetinhos veio do estadista inglês Winston Churchill. Para vencer a insana burocracia da Inglaterra, o mítico líder começou a escrever bilhetes com ordens curtas e incisivas, e com o menor número de palavras, ordenava que suas determinações fossem rigorosamente cumpridas. Jânio, que tinha verdadeira obsessão pela terra da rainha Vitória e chegava a passar grandes temporadas em Londres – além de só fazer seus ternos lá –, começou então a copiar Churchill.

Mas o que talvez seja o mais curioso nos bilhetes escritos pelo populista brasileiro é como os problemas brasileiros mudaram tão pouco nestes últimos 50 anos: questões como privatização de aeroportos, modernização de portos, seca no Nordeste e ineficiência do funcionalismo público ainda hoje castigam o país. Dando palpites em praticamente tudo, o então presidente tentou colocar a máquina pública brasileira para funcionar. Em vão: 204 dias depois de assumir o mais alto cargo da República, Jânio renunciaria do cargo motivado por “forças terríveis”, como ele mesmo definiu. Confira aqui alguns desses bilhetes – e como continuam ligados ao Brasil de hoje.

Reprodução/Cláudio Cunha
Portos ineficientes - Nos últimos anos, o país se acostumou a conviver com filas quilométricas de caminhões esperando para descarregarem nos portos brasileiros. Nossa infraestrutura de transporte e portuária simplesmente infartou e está inviabilizando a economia brasileira. Quem acompanhou a luta do governo federal na tentativa da melhor a eficiência dos nossos portos, e que culminou com a aprovação da Lei dos Portos, sancionada pela presidente Dilma Rousseff no mês de junho, vai ficar impressionado com este bilhete: o problema é muito mais antigo do que se pode imaginar. No documento, Jânio cobra uma posição do Ministério da Viação sobre a construção dos portos da Barra do Itapemirim e de Conceição Barra, no Espírito Santo. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)


Reprodução/Cláudio Cunha
Dois pesos, duas medidas - Um antigo ensinamento da política brasileira serve bem para explicar como nossos governantes sempre se portaram e, aliás, continuam se portando: aos amigos, tudo; aos inimigos. a lei. Com Jânio, isto não era nem um pouco diferente. Basta compararmos os dois bilhetes selecionados abaixo: num deles, o presidente é rigoroso e ameaça punir os maquinistas que participarem da greve. Num outro, o tom é paternal: ele pede providências para que um amigo consiga ser transferido para o Rio de Janeiro imediatamente. Dois pesos, duas medidas. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)


Reprodução/Cláudio Cunha
Não podemos perder o Pelé - A venda do mais importante jogador do Santos desta década, o centroavante Neymar, para o todo-poderoso Barcelona, da Espanha, mobilizou a imprensa brasileira nos últimos dias. Foi vendido? Não foi? O assunto foi tema da roda de muito boleiros em todo o país. Novidade? Pelo que se pode ver no bilhete acima, não. Dando palpite em rigorosamente tudo, Jânio não poderia ficar de fora quando o assunto era o futebol. "A exportação de nossos atletas não nos interessa. Aguardo providências", escreve o ex-presidente num trecho da carta, referindo-se a Pelé. Diferentemente do jovem craque e garoto-propaganda Neymar, Pelé só atuaria fora do Brasil no fim de sua carreira, nos anos 1970. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)


Reprodução/Cláudio Cunha
Lei antitruste e remessa de lucros - Para muitos estudiosos do período, um dos motivos centrais da queda do presidente Jango, anos depois da renúncia de Jânio, teria sido mesmo a discussão, de maneira concreta e objetiva, da lei antitruste e da de remessa de lucros de empresas multinacionais. O presidente contrariava interesses grandes. Para outros estudiosos, as tais "forças terríveis", alegadas por Jânio quando ele renunciou ao cargo, poderiam ser mesmo estes dois pontos. De concreto, documentos como o destacado acima que mostram claramente que Jânio queria discutir essa questão com os donos do poder. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)


Reprodução/Cláudio Cunha
A tensa relação com os militares - Passados quase 50 anos do movimento que derrubou o presidente eleito João Goulart (Jango) em março de 1964, começam a surgir, em vários arquivos espalhados pelo Brasil e Estados Unidos, provas irrefutáveis da maneira como os militares organizaram a derrubada do poder civil legitimamente constituído. E os bilhetes de Jânio, que tinha como vice o gaúcho Jango, são um importante capítulo para quem quiser encaixar esse quebra-cabeça. Neles, já é possível vislumbrar a tensa relação que o presidente mantinha com os quartéis. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)


Reprodução/Cláudio Cunha
A criação da Loteria Esportiva - Quem cresceu durante a ditadura se lembra bem da Zebrinha que aparecia na televisão, todo domingo à noite, dando os resultados da Loteria Esportiva. Durante décadas, esse era o jogo mais popular entre os brasileiros, que paravam para ouvir os resultados proferidos pela simpática Zebrinha. A ideia do jogo surgiu já durante o governo de Jânio, como se pode ver pelo bilhete ao lado. O líder populista, que adorava reprimir qualquer tipo de jogo de azar, parece não ter se interessado muito pelo assunto. Afinal, o jogo só seria criado mesmo em abril de 1970, com os militares já mandando no país. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)


Reprodução/Cláudio Cunha
Tensão com o ministro da Fazenda - Este talvez seja o bilhete mais importante a que Encontro teve acesso. Escrito a mão, um dos poucos da coleção, Jânio descarrega sua raiva no seu ministro da Fazenda, Clemente Mariani. Uma onda de descontentamento varria o país, a economia não andava bem, e ele procurava então um bode expiatório. Por que o ministro da Fazenda? Mariani tinha relações de parentesco com o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, um dos grandes inimigos políticos de Jânio %u2013 e que mais tarde se envolveria na derrubada de João Goulart. Como se pode ver, culpar ministro da Fazenda não é mesmo nenhuma novidade. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)


Reprodução/Cláudio Cunha
Melhoria de aeroportos - Quem frequenta os aeroportos brasileiros, sempre lotados e com péssimos serviços, sabe: andar de avião no Brasil se transformou num verdadeiro pesadelo. Se o problema é novo, e só passou a existir com a popularização do setor nos últimos anos, a ineficiência do setor, porém, é antiga. Basta lermos este bilhete de Jânio, no qual ele pede melhorias no aeroporto de Araxá. As melhorias? Nunca vieram. Como tudo o que depende do governo no Brasil, a novela se arrastaria por anos. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)


Reprodução/Cláudio Cunha
Não às mordomias - O bilhete abaixo é mais um capítulo da tensa relação entre Jânio e os militares. Nele, o presidente proíbe os militares de aceitarem "qualquer tipo de banquetes ou homenagens". O líder supremo da nação, com o tom sempre enfático e autoritário, ainda ameaça no fim da ordem, datada de 19 de julho de 1961: %u201CNa hipótese de já haver festividades desta natureza programadas, cancele-as%u201D. Jânio renunciaria um mês depois. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)


Reprodução/Cláudio Cunha
Moedas em BH - O bilhete acima é mais um daqueles sobre o qual o leitor pode, ao final da leitura, se perguntar: mas como um presidente da República tinha tempo para este tipo de preocupação? Irritado com a falta de moedas para o troco em Belo Horizonte, Jânio Quadros determina a seu ministro que mais pratinhas sejam enviadas para a capital dos mineiros. Sem foco, Jânio metia mesmo o bedelho em tudo. (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)

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