Falta respeito

Áreas destinadas à prática de atividades físicas viram dor de cabeça para pedestres, ciclistas e motoristas na capital, que não conseguem se entender sobre os espaços reservados para cada finalidade

por Rafael Campos - Revista do Correio 21/08/2013 16:09

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Leo Araújo/Encontro
Ciclovia construída na avenida Otacílio Negrão de Lima, orla da Pampulha, é ocupada por carros: em BH, a convivência entre veículos, ciclistas, pedestres e corredores é tumultuada (foto: Leo Araújo/Encontro)
A professora de português Raquel Tanus Cesário, de 31 anos, trabalha ao lado da Lagoa Seca, no bairro Belvedere, região Centro-Sul de Belo Horizonte. Todos os dias, por volta das 8h, é a mesma história. Antes de estacionar, ela tem de desviar de caminhantes e corredores que insistem em tomar a rua Juvenal Melo Senra como pista de atletismo. “Certas pessoas só pensam no conforto delas. Nós, motoristas, é que temos de desviar delas”, afirma a professora. Não é difícil flagrar situações semelhantes ou de falta de respeito em áreas que, em tese, deveriam ser destinadas ao relaxamento e à prática de atividade física na capital.

As amigas Adriana Martins, de 36 anos, Daniela Diniz, de 34, e Juliana Brant, de 37, têm o costume de correr pela orla da Lagoa Seca bem cedo, antes de irem para o trabalho. O trio não só confirma o problema no local como reconhece que, às vezes, a rua é o melhor lugar para se correr, devido à falta de espaço na calçada. “Não existe aqui uma pista separada para a prática de atividade física. Por isso, às vezes, temos de conciliar o espaço com os carros”, afirma a fonoaudióloga Adriana. Ela lembra que já presenciou corredores esbarrando em retrovisores, chegando a danificar as peças. “Aí vira briga”, diz. Daniela conta que, mesmo aos domingos, quando é reservado um espaço para os corredores, há quem prefira dividir a via com os veículos.

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As amigas Juliana, Adriana e Daniela, na orla da Lagoa Seca: "Não existe aqui pista para a prática de atividade física, por isso, às vezes, temos de conciliar o espaço com os carros", diz Adriana (foto: Leo Araújo/Encontro)


Ainda na região Centro-Sul, na rua Professor Morais, no Funcionários, a reclamação é feita pelos ciclistas. A ciclovia, implantada em 2011, não está sendo frequentada apenas pelas “magrelas”. Encontro flagrou um homem descendo a rua tranquilamente pela faixa, empurrando um carrinho de compras vazio. Mais à frente, na avenida Bernardo Monteiro, o festival de desrespeito continua. Bem ao lado da feira de artesanato, outro carrinho de compras solitário aguarda o dono encostado na ciclovia. Caminhantes e corredores também fazem da área uma pista de cooper. A ciclovia é utilizada até para um passeio matinal com o cachorrinho de estimação. Questionada sobre o risco de ser atropelada por um ciclista ou por transitar em local destinado às bikes, a moça, que preferiu não se identificar, disse: “Não vejo problema algum”.

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Área reservada para as bikes vira pista de cooper na av. Bernardo Monteiro (foto: Leo Araújo/Encontro)


O ciclista Lucas Miranda Correia, de 26 anos, utiliza a bike como meio de transporte para ir ao trabalho. Por isso, diariamente, pedala pela ciclovia da avenida Bernardo Monteiro, ou pelo menos tenta. “É muita falta de respeito. Aqui, é sempre assim. Nós é que temos de desviar ou frear em cima da pessoa”, afirma o empresário, que vai do bairro Santa Efigênia, região Leste, para o Cruzeiro, na região Centro-Sul. Lucas comemora a implantação de mais ciclovias na cidade, contudo, reclama que algumas necessitam de manutenção. “Há pistas em que as raízes das árvores estão causando ondulações no asfalto”, diz.

Eveline Trevisan, assessora da diretoria de planejamento da BHTrans, empresa que gerencia o trânsito na capital mineira, afirma que os problemas levantados já foram registrados pela empresa. Segundo a assessora, a cultura da ciclovia em BH ainda é algo novo, tanto que alguns motoristas e pedestres não direcionaram seu olhar para os ciclistas. Por isso, o trabalho será de conscientização durante um seminário que será realizado neste semestre em BH. “Vamos trabalhar com os pedestres, motoristas, ciclistas, motoristas de ônibus e taxistas, ou seja, os diferentes usuários da via”, afirma. Eveline ressalta ainda que as ciclovias que existem estão descontínuas – contudo, até 2020, cerca de 380 km de pistas estarão interligadas na cidade.

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Lucas Miranda na pista da avenida Bernardo Monteiro: "É muita falta de respeito" (foto: Leo Araújo/Encontro)


Mas na avenida Otacílio Negrão de Lima, na Pampulha, um dos principais lugares para a prática de atividade física de BH, o problema é outro. A mais nova preocupação dos ciclistas tem a ver com a ciclovia que está sendo implantada no local. Serão 7,56 km de pista, que se somarão aos 11,5 km já existentes. Acontece que o novo traçado parece estreitar a avenida, principalmente nos trechos onde a via de trânsito se torna mão dupla. Assim, a invasão de veículos à pista – como foi flagrado por Encontro – é praticamente inevitável.

Segundo Eveline Trevisan, na Pampulha, a implantação da pista para os ciclistas foi analisada em parceria com grupos de bikers da capital . Ficou acertado que 7 km de pista seriam implantados na própria via, e não na calçada, como alguns moradores da região pensavam. “A construção do espaço ainda não terminou. Vamos colocar prismas de concreto para impedir a invasão de veículos”, diz a assessora, que garante que não haverá prejuízos para os motoristas. “São 3,5 m de faixa para cada lado e os carros podem trafegar tranquilamente”, afirma. Resta esperar o resultado final para ver se, dessa vez, vai dar certo.

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Homem ignora sinalização e empurra um carrinho de compras em plena ciclovia da rua Professor Morais (foto: Leo Araújo/Encontro)

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