E agora, Antônio?

Um dos principais corredores de trânsito da cidade, a avenida Antônio Carlos foi uma das que mais sofreu com as quebradeiras nos protestos de junho. Os lojistas atingidos tentam se reerguer enquanto aguardam novas promessas

por Simone de Castro 21/08/2013 16:31

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Paulo Márcio/Encontro
Vista panorâmica da avenida Antônio Carlos, na região da Pampulha: manifestações e quebradeiras de junho trouxeram insegurança em relação ao futuro do comércio local (foto: Paulo Márcio/Encontro)
A avenida Presidente Antônio Carlos não é mais a mesma. Em junho deste ano, ela foi a rota escolhida por quase 200 mil pessoas que participaram das três manifestações ocorridas durante a Copa das Confederações. O que era para ser uma passeata pacífica de reivindicações feita pela população belo-horizontina terminou com a maior quebradeira dos últimos tempos. A maioria das grandes lojas da via foram brutalmente danificadas. Para piorar a situação, os vândalos não tiveram dificuldades em encontrar ferramentas para atacar os estabelecimentos e a polícia, pois a avenida está em obras desde 2011 para a implantação do BRT (sigla em inglês para transporte rápido por ônibus). Segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), o prejuízo com os atos de vandalismo pode chegar a R$ 80 milhões. Hoje, o cenário é de incerteza: algumas empresas ainda não sabem se vão reabrir as portas no local e outras prometem inauguração ainda neste ano. O fato é que o futuro do comércio na região está, neste momento, tão nublado quanto nos dias de bombas de gás lacrimogênio.

A concessionária Automark, da Kia, não confirma se vai reabrir. A loja, uma das mais atacadas, teve o 1º andar tomado pelos vândalos. De lá, eles arrancaram boa parte do mobiliário, computadores, documentos, quebraram vidraças e atearam fogo dentro do espaço e no meio da avenida. “Danificaram três carros nossos e três de clientes. O prejuízo passou de R$ 3 milhões”, afirma o gerente geral Edgard Speziali de Carvalho. O estabelecimento foi atacado nos três dias de manifestações e, do segundo para o terceiro, os proprietários até tentaram proteger a empresa reforçando a fachada com tapumes de metal – mas nem isso impediu as pessoas de entrarem no local. “O sindicato dos concessionários solicitou reforços à Polícia Militar (PM), mas isso, definitivamente, não aconteceu. O que vimos foi uma hora e meia de pura depredação”, diz. Carvalho revela que os 60 funcionários da empresa que trabalhavam na loja da avenida foram realocados para outras unidades. “E, se a concessionária não reabrir, possivelmente boa parte será demitida.”

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Fachada da concessionária Kia na avenida, já sem a logo da montadora: empresa ainda não confirma (foto: Paulo Márcio/Encontro)


Outra que também foi duramente atingida é a revendedora de veículos Caoa Hyundai, localizada na esquina das avenidas Antônio Carlos e Antônio Abrahão Caram. Procurada para falar sobre o ocorrido, a empresa não se manifestou. Mas, segundo a CDL/BH, a concessionária afirmou que não continuará no local.

De acordo com o presidente do Sindicato de Concessionários e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv-MG), Mauro Pinto de Moraes Filho, as empresas realizaram reunião com a secretária de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, Dorothea Werneck, para resolver a questão dos danos. “Nada ficou acertado. Mas ela ficou de averiguar o que realmente aconteceu naqueles dias em relação à segurança. Queremos a isenção de impostos, porque nosso prejuízo está estimado em R$ 16 milhões. Estamos discutindo a possibilidade de tomar providências judiciais”, afirma.
A Mila, concessionária mais antiga da cidade, com 65 anos de existência, também foi muito agredida. O diretor das duas unidades – Antônio Carlos e Pampulha –, Antônio João Teixeira, afirma com firmeza que não existe a possibilidade de sair do local: “Se uma empresa não tiver segurança para trabalhar, o Brasil vai parar”, desabafa. Como estava prevendo o caos no terceiro dia de manifestação, ele colocou 80 vigilantes armados na loja da Pampulha, na avenida Professor Magalhães Penido. “Tive 50 metros de vidros quebrados e o prejuízo foi maior do que R$ 400 mil. Sem contar o dano comercial”, afirma Teixeira.

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Antônio João Teixeira, da Mila: "Se uma empresa não tiver segurança para trabalhar, o Brasil vai parar" (foto: Paulo Márcio/Encontro)


Várias outras lojas também sofrem com o vandalismo. O recém-inaugurado Plaza Antônio Carlos teve o muro de vidro blindado completamente quebrado. “No ponto de ônibus em frente tinha uma placa apoiada em bloco de concreto, que foi usada para quebrar os vidros. O prejuízo foi de R$ 100 mil”, revela o administrador Camilo Anselmo de Oliveira. Os vidros já foram repostos, mas a confiança ainda não. Ele afirma que, durante a Copa de 2014, a empresa pretende colocar placas de metal como medida de segurança. “Não queremos passar por isso novamente.”

Segundo o presidente da CDL/BH, Bruno Falci, o que a instituição conseguiu para os lojistas da avenida foi a prorrogação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e Imposto sobre Serviços (ISS) junto aos governos estadual e municipal. “O prejuízo pode chegar a R$ 80 milhões. Estamos vivendo um momento de total insegurança.” Ainda de acordo com Falci, o vandalismo pode, inclusive, prejudicar o setor imobiliário na região. “Infelizmente, os imóveis podem sofrer desvalorização por causa dos maus manifestantes”. Isso já está acontecendo. Pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead) mostrou que, de maio a junho deste ano, o aluguel do metro quadrado de imóveis comerciais tipo loja de frente, na região da Pampulha, variou de R$ 31,06 para R$ 26,84, queda de R$ 4,22.

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Concessionária Hyundai, totalmente depredada: segundo a CDL/BH, a empresa já afirmou que não reabrirá a loja (foto: Paulo Márcio/Encontro)


O proprietário da concessionária Nissan, Luiz Soeiro, que teve prejuízo de R$ 200 mil, não perde as esperanças. “Não é por causa de alguns vidros quebrados que vou sair daqui, até porque a Antônio Carlos é a melhor avenida de BH. Ela liga o centro da cidade à Linha Verde, além de ter ótimas opções de revendedoras de carros.” Ele aposta tanto na via e no comércio da região que, daqui a alguns meses, vai inaugurar uma Citroën ao lado da Nissan. Quem também acredita no comércio da avenida é o diretor da Nova Banzai, Camilo Gomes. Com previsão de inauguração para setembro deste ano, só não abriram antes por questões administrativas. “Era para ter sido aberta em abril, mas por sorte não deu certo, senão possivelmente estaríamos nas estatísticas de prejuízo”, diz.

Mas não só o setor privado teve estragos. Radares também foram destruídos e alguns ainda estão desligados. Segundo a BHTrans, os equipamentos de fiscalização eletrônica estão sendo reparados e, em algumas semanas, estarão aptos ao funcionamento. E, de acordo com a Regional Pampulha, o viaduto José de Alencar, no bairro São Luiz, que teve muros e pilastras pichados, já recebeu pintura nova nos locais. O esqueleto das estações do BRT também foi pichado, mas não sofreu depredações. As obras continuam a todo vapor, com previsão para ser entregue até dezembro deste ano. E assim caminha a avenida Antônio Carlos, tentando se erguer dos prejuízos e, ao mesmo tempo, se modernizando.

Editoria de Arte
(foto: Editoria de Arte)

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