Um peixe fora d'água

Fascinado por mar e tubarões, escultor mineiro se prepara para levar sua obra, feita em madeira descartável, para além das fronteiras de Minas Gerais

por Fernanda Nazaré 29/08/2013 13:07

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Eugênio Gurgel
(foto: Eugênio Gurgel)

O escultor mineiro Sérgio Machado, de 55 anos, já tinha fascinação pelo fundo do mar, mas a necessidade de expressá-la começou depois que ele morou em Tiradentes, no interior do estado. "Ali já foi fundo de oceano e, nas pedras do calçamento, às vezes, eu encontrava desenhos de fósseis", conta Machado. Em 2004, tubarões surgiram em desenhos a grafite pelas mãos do artista. Mas a angústia de retratar este peixe chegou ao patamar tátil, virando esculturas em madeira. O trabalho de Machado tomou novas dimensões depois de pesquisar mais sobre o animal  e encontrar uma cena que o chocou: barcos pesqueiros na China pescando tubarões, cortando as barbatanas dos animais e jogando-os de volta ao mar para agonizarem e morrerem. Segundo ele, a barbatana contém substâncias afrodisíacas que são usadas no comércio farmacêutico local.

A partir daí, como maneira de protesto e pensando como essa matança poderia ser interrompida, o escultor começou a entalhar o animal sem a barbatana. "Como eles estão há muito tempo no planeta, os cientistas dizem que pararam de evoluir há 1 milhão de anos. Eles deveriam voltar a evoluir e ter a nova forma sem barbatana para salvar a espécie", explica.

Outra consciência ambiental de Machado está no material utilizado. Ele constrói seus animais apenas com madeira que encontra no lixo. "Eu só trabalho com madeiras jogadas fora. São madeiras extintas. Essas caçambas de construção são ouro para mim, acho muita madeira antiga, resistente", conta. Por encontrar os pedaços de madeira em diversos tamanhos, o artista desenvolveu uma técnica de unir filetes na criação do corpo do tubarão e poli-los com lixa para dar a impressão de um material contínuo.

Eugênio Gurgel
O artista Sérgio Machado em seu ateliê, em BH: tubarões em madeira reciclada e técnica diferenciada. No detalhe, cadeira esculpida diretamente na madeira (foto: Eugênio Gurgel)
 
A exposição com seu trabalho de tubarões em madeiras e cobertos com texturas como couro de vaca, metais e outros materiais pôde ser vista em Belo Horizonte até julho. Agora, o artista pretende levar seu trabalho para fora do estado, por acreditar no grande potencial do consumo de arte em outras metrópoles. "Eu trabalho com muitas galerias em São Paulo, o mercado lá é mais aberto, mas as novas gerações estão se aproximando mais da arte em Belo Horizonte, o cenário aqui pode estar mudando para melhor", acredita.
 
O artista ganhou notoriedade ao esculpir cadeiras em madeira. São formatos e tamanhos diferentes, tudo entalhado na madeira bruta. Em algumas peças, chegou a usar ouro em detalhes. Em seu ateliê, ainda é possível encontrar algumas esculturas de cadeiras de sua última série do objeto. Para tentar explicar sua fixação com esse móvel, ele afirma: "É o artigo mais difícil de executar da marcenaria. E o que seria de nós sem elas?".

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