Os campeões dos livros

Olimpíada deixou de ser evento voltado apenas para a educação física. Hoje, há competições em praticamente todas as áreas do conhecimento, o que leva várias escolas de BH a criar estruturas específicas para seus alunos entrarem na disputa para vencer. Saiba como se preparam e o que pensam alguns desses verdadeiros atletas do saber

10/09/2013 16:39

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Marcelo Freitas

 

Isabella Braz Rosseti, aluna do Colégio Sagrado Coração de Jesus, foi uma das participantes da 15ª Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, no ano passado, promovida desde 1998 pela Sociedade Astronômica Brasileira (SBA) e que em 2012 contou com a participação de milhares de estudantes de todo o país. Eventos como esses estão presentes, cada vez mais, nos dias de hoje, na rotina dos alunos dos níveis fundamental e médio, tanto de escolas privadas quanto das públicas. O mais antigo e tradicional é a Olimpíada Brasileira de Matemática. Mas há certames voltados para praticamente todas as outras áreas do conhecimento humano: língua portuguesa, física, química, história, geografia, biologia, informática e robótica, apenas para citar alguns exemplos

 

Todas seguem mais ou menos o mesmo ritual. As primeiras etapas são realizadas nas próprias escolas e apenas a etapa final, a mais difícil, ocorre na cidade onde está a sede da entidade promotora da competição. Em alguns casos, como o das olimpíadas de astronomia e de matemática, a competição brasileira integra uma disputa internacional. Assim, os estudantes melhor classificados no evento brasileiro competem com alunos de outros países.

 

Samuel Gê
Danielle Passagli, gerente pedagógica da rede Colleguium, com alunas do colégio: "São os professores que despertam nos estudantes o gostinho de querer aprender mais" (foto: Samuel Gê)
 

 

Esse é o modelo, por exemplo, da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), promovida desde 1979 pela Sociedade Brasileira de Matemática e pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa). O concurso cresceu tanto que se desdobrou em dois, com a realização, desde 2005, de uma competição voltada apenas para as escolas públicas – a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas públicas (Obmep), em termos de alunos participantes maior até mesmo que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

 

Este ano, participaram da Obmep 45 mil instituições de 99% dos municípios brasileiros. Entre as instituições está a Escola Municipal Marconi, de Belo Horizonte. Lá, todos os alunos fizeram a prova, mas apenas 20% deles – os que alcançaram os melhores resultados – tiveram seus nomes enviados à organização da competição, que, a partir das indicações das escolas de todo o país, fará a escolha daqueles que passarão para a segunda etapa. Para Nádia Helena Braga, professora de matemática do Marconi, a participação na Olimpíada Brasileira de Matemática é importante porque valoriza os alunos e a própria escola, contribuindo para a descoberta do que ela define como "pérolas".

 

Pedro Nicoli
Nádia Braga, professora de matemática da Escola Municipal Marconi, com o aluno Marlon Amorim: a olimpíada valoriza os alunos e a própria escola e contribui para a descoberta de "pérolas" (foto: Pedro Nicoli)
 

 

Esse é o objetivo também da rede particular de escolas Coleguium, de Belo Horizonte, que, para isso, montou uma estrutura à parte destinada a dar suporte extra aos alunos que pretendem participar das competições. Os frutos foram colhidos neste ano mesmo. Os alunos do Coleguium chegaram às finais das olimpíadas de história, astronomia, matemática (brasileira e mineira) e da Kanguru, também de matemática. Em física e química, receberam diplomas de honra ao mérito.

 

Para Danielle Passagli, gerente pedagógica da rede, o sucesso de qualquer escola em eventos desse tipo depende de um trabalho em equipe, no qual os professores são peça-chave. "Eles são os verdadeiros motivadores da participação dos alunos. São eles que despertam nos estudantes o gostinho de querer aprender mais", afirma Danielle. Segundo ela, a experiência adquirida até o momento pelo Coleguium em competições desse tipo tem mostrado que, do ponto de vista pedagógico, há ganhos para o aluno e também para os colegas, na medida em que esse aluno age como um incentivador. “O aluno que participa motiva a turma a pensar um pouco mais dentro do conteúdo. É uma espécie de detonador de um processo dentro de sala de aula, pois estimula a turma a pensar um pouco mais”, diz.

 

João Carlos Martins
Maria Geralda Leão Macedo, do Colégio Sagrado Coração de Jesus, com grupo de estudantes que se prepara para as concursos: participar das competições aumenta a autoestima dos alunos (foto: João Carlos Martins)
 

 

Esta também é a opinião do professor José Márcio Santana, coordenador de matemática do Colégio Santo Agostinho, instituição de ensino que participa regularmente de várias olimpíadas, não apenas a da disciplina. "Acreditamos que é um diferencial, pois o aluno começa tomar mais gosto e a se esforçar para conseguir, cada vez mais, melhores resultados". Na olimpíada de matemática, a mais antiga da qual o Santo Agostinho participa, um dos alunos chegou, quatro anos atrás, a conseguir medalha de ouro na competição.

 

Os alunos do Colégio Nossa Senhora das Dores participam de várias competições, entre elas a Olimpíada Nacional em História do Brasil. Para Marco Aurélio Ferreira Alves, professor de história e coordenador pedagógico da escola, a competição de história tem um diferencial em relação às outras. "Trata-se de uma disputa aberta que obriga os alunos a uma discussão sobre o tema proposto, em vez de se ter uma resposta fechada – na linha do certo ou errado", diz. Para ele, as competições são importantes porque agregam conhecimento e obrigam os alunos a uma reflexão sobre a realidade que os cerca.

 

Samuel Gê
(foto: Samuel Gê)
 

 

No Loyola, a participação em olimpíadas do conhecimento é uma rotina nas áreas de matemática, astronomia, física, química e história, embora a escola não faça nenhum trabalho de reforço com o objetivo de melhorar o desempenho dos alunos, como afirma Luiz Carlos Figueiredo Guerra, assessor de matemática da instituição. Segundo ele, o objetivo da participação nestas competições é o de permitir que novos talentos sejam descobertos, como Paula Passos Campos. O  Santo Antônio também tem tradição em participar de olimpíadas do conhecimento, eventos que, a partir deste ano, ganharam atenção especial da direção do colégio.

 

Os alunos que decidiram participar das competições têm o apoio de monitores, que desenvolvem com eles um trabalho focado nas provas dadas nos anos anteriores. O objetivo é fazer com que um número maior de alunos seja classificado para a terceira fase das disputas, que são as mais difíceis. Neste ano, os alunos estão participando das competições de biologia, astronomia, física, química, matemática, informática e, pela primeira fez, filosofia. "Queremos acabar com o conceito de que olimpíada é só para as atividades físicas", ressalta Jorge Luiz Cascardo, coordenador das Olimpíadas do Conhecimento do Santo Antônio.

 

Samuel Gê
(foto: Samuel Gê)
 

 

O professor não concorda com os que dizem que esse tipo de evento gera uma distorção pedagógica, na medida em que valorizaria mais a competição do que o aprendizado, além de desviar a atenção dos alunos para uma área específica, reduzindo o aprendizado de outras disciplinas. Para Cascardo, é natural que todo aluno acabe buscando uma área de interesse, da mesma forma que isso também ocorre nos esportes físicos. "Cada um fez uma busca maior por aquilo de que gosta. O importante é criar um espaço para alunos que querem estudar mais", diz.

 

Maria Geralda Leão Macedo, coordenadora de ensino fundamental do Colégio Sagrado Coração de Jesus, concorda com ele. Segundo ela, as provas acontecem somente em um determinado período do ano letivo, razão pela qual não interferem no andamento das disciplinas, além de, como ela faz questão de ressaltar, contribuírem para a melhoria da autoestima dos alunos.

 

Júnia Garrido
(foto: Júnia Garrido)
 

 

Em Minas, a OBM e a Obmep são coordenadas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Seme Gebara Neto, professor do Departamento de Matemática da universidade e coordenador dos dois eventos no estado, diz que competições como as olimpíadas do conhecimento são importantes porque constituem uma ponte entre o ensino médio e a universidade. E tem mais: no caso da matemática, os alunos melhor classificados nas olimpíadas recebem bolsas de iniciação científica de um ano sob orientação de professores das universidades. 

 

Do ponto de vista pedagógico, esse tipo de concurso é positivo porque, na opinião de Gebara, "coloca o mérito acadêmico em pé de igualdade com os eventos voltados para a educação física".

 

 

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