A família vai também

Viagens ao exterior para estudos estão cada vez mais comuns entre os mineiros, que também aderem à onda de intercâmbios em família, unindo o útil ao agradável: além de conhecer lugares novos e aprender ou aprimorar idiomas, os pais ficam mais perto dos filhos

por Juliana Cipriani 11/09/2013 12:10

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Foi-se o tempo em que intercâmbio era coisa de adolescente. Aquela cena no aeroporto dos pais se despedindo do filho com lágrimas nos olhos já não é mais tão comum. A moda agora é viajar em família, não importa a idade. Foi esta a opção da juíza Maura Angélica de Oliveira Ferreira, de 66 anos, e da professora Karina Rodrigues Ferreira, de 37. Em busca de um título de doutorado em ciências jurídicas e sociais, mãe e filha fizeram as malas e partiram para Buenos Aires, Argentina. Durante dois anos, voaram para o país vizinho nos meses de janeiro e julho para um período mínimo de 20 dias em sala de aula. O curso acabou, mas a experiência ainda está viva na memória delas. “Nós nos aproximamos muito. A rotina era pesada e ficávamos juntas o dia inteiro. Isso intensificou a nossa relação de mãe e filha”, conta Maura. "Lá ficávamos mais juntas que aqui, onde temos, cada uma, uma rotina diferente", completa Karina, que é formada em psicologia e seguiu os passos da mãe, ao se formar também em direito.
 
Assim como Maura e Karina, é cada vez maior o número de familiares mineiros viajando juntos para fora do país – seja para estudar línguas, seja para completar a grade curricular, ou seja para experimentar uma vivência internacional. No Student Travel Bureau (STB), a procura pelo intercâmbio familiar cresceu 60% nos últimos dois anos, especialmente para aqueles pais com filhos entre 8 e 15 anos. "A família mineira é muito tradicional e, quando o filho manifesta o desejo de viajar, os pais têm receio de eles irem sozinhos", explica Fernanda Bicalho, gestora do STB em BH. Segundo ela, o intercâmbio em família é também boa chance para os pais na faixa etária entre 40 e 50 anos, que possivelmente não foram intercambistas na juventude. “Nesse momento eles veem a oportunidade de também viverem essa experiência e melhorarem na fluência da língua estrangeira”, diz Fernanda.
 
João Carlos Martins
Karina e a mãe, Maura Ferreira, viajaram juntas para Buenos Aires e gostaram da experiência: ambas fizeram doutorado em ciências jurídicas e sociais na Argentina (foto: João Carlos Martins)

O estudo do inglês ainda é o mais procurado nas agências de viagens, com destinos principalmente para o Canadá, Estados Unidos e Inglaterra. Há aqueles que preferem alugar um apartamento ou flat, mas as próprias escolas oferecem a opção de hospedagem em casas de família ou residência estudantil. Esta foi a modalidade escolhida pela farmacêutica mineira Nelma Lourenço Matos Cruz, de 49 anos, a filha Mariana Lourenço de Matos Cruz, de 22, e o genro Rafael Krettolys, de 21. Os três passaram o mês de fevereiro em Nova York, nos Estados Unidos, para aprimorar a língua. "Eu faço curso de inglês, mas sempre tive dificuldade de falar, sou bem inibida. Para não ir sozinha, a Mariana, que tem o inglês fluente, foi junto e fez um curso avançado", explica Nelma, que se sentiu mais à vontade tendo a filha ao lado. Em níveis diferentes de aprendizado, cada um dos três ficou em uma turma, o que possibilitou conviver com maior número de pessoas. 
 
O intercâmbio nos EUA foi o terceiro de Mariana. Ela já havia estudado espanhol no Chile e na Espanha, para onde voltará no ano que vem e terminará o estudo da língua. A experiência familiar foi tão boa que a mãe já pensa em fazer algum curso quando for visitar a filha na Espanha. A estudante de gestão pública também aprovou a viagem com a mãe e o namorado: "Dá um pouco mais de trabalho para conciliar as agendas, mas é muito gostoso, porque sentimos menos saudade de casa. Além disso, nos aproxima, porque passamos pelas experiências juntos", diz.
 
 
 
As viagens de férias também foram influenciadas pelo intercâmbio familiar. Muitos pais têm optado por aproveitar o recesso escolar dos filhos para levá-los para estudar no exterior. "É uma moda que está pegando. Os pais tiram férias junto com os filhos e unem o útil ao agradável", afirma a diretora da Intervip, Paula Starling, onde a procura por esse tipo de viagem também está crescendo. Os programas de intercâmbio mais breves são conhecidos como summer (verão) ou winter (inverno) e o período de duração geralmente é de quatro semanas. Geralmente, envolvem atividades específicas para cada membro da família. 
 
No caso dos que preferem ir sozinhos, tem crescido a procura pelo intercâmbio para melhorar o currículo profissional. É o caso do estudante de economia Rafael Menezes Goulart, de 23 anos, que partiu em julho para Vancouver, no Canadá, e só volta de lá em dezembro. Inspirado por um amigo que passou pela experiência, Rafael decidiu seguir o mesmo caminho: "O mercado hoje está extremamente exigente e, em alguns processos seletivos para estágios dos quais participei, uma gama representativa de pessoas considerou o intercâmbio uma experiência muito interessante e importante", conta. Apesar do interesse na língua, o choque cultural não deixa de chamar a atenção do futuro economista, que destaca o sistema de transporte coletivo como ponto forte da cidade.
 
Leo Araújo
Arthur Coelho, de 16 anos, que estuda inglês desde os 9 e vai morar no frio Canadá por um ano, com apoio da mãe, Luciana Coelho: hora de realizar um sonho (foto: Leo Araújo)
 
 
Para os mais jovens, continua forte a alternativa do high school (ensino médio), em que eles ficam de seis meses a um ano para completar o ensino médio no exterior, como fará o estudante Arthur Coelho, de 16 anos. Ele estuda inglês desde os 9 anos e vai fazer o 2ª série do ensino médio morando em uma casa de família em Winnipeg, no Canadá. A vontade partiu dele, mas o apoio e incentivo da mãe, Luciana Coelho, de 45 anos, que é educadora, foi total. "Escolhemos o Canadá pela qualidade do ensino, que é um dos melhores do mundo, e por ser um país que respeita e acolhe a diversidade cultural. O objetivo é, em primeiro lugar, a educação. O inglês virá junto por imersão", afirma Luciana, que diz já sentir saudade antecipada do filho. 

Para Arthur, é hora de realizar o sonho de viver uma experiência cultural diferente. “Sempre quis morar fora, conviver com outra cultura. Vai ser uma forma nova de ver o mundo. Quero fazer o que eles fazem, comer o que comem e ver o mundo de outro jeito. Espero que me acolham”, diz o jovem. Além da preparação psicológica e os encontros e dinâmicas com outros intercambistas, Arthur ganhou mais confiança depois que convenceu quatro amigos a irem junto. "É muito importante ter uma amizade, porque acaba que no início a gente se sente sozinho, e é bom dar força um ao outro", diz. Luciana embarcou o filho em 31 de agosto e o espera só em julho do ano que vem. "Já estou sofrendo, mas é um sonho dele", afirma. Resta saber se ele volta, pois Arthur já adianta que seu desejo é fazer faculdade e morar fora. "Pretendo voltar para visitar, mas temos de ver como vai ser", diz. Provavelmente, o filho voltará bem mais amadurecido. 
 
Samuel Gê
Para o diretor da Greenwich Tour, André Vasconcelos, os estudantes ganham muito com a oportunidade de morar fora do Brasil: mais responsabilidade, maturidade e independência (foto: Samuel Gê)
 

Esse é um ganho que, invariavelmente, segundo o diretor da Greenwich Tour, André Vasconcelos, os estudantes obtêm nos intercâmbios culturais. "Há um aumento da maturidade e da independência, porque eles não vivem com os pais e terão mais responsabilidades", avalia. Segundo Vasconcelos, para o intercâmbio cultural, os destinos mais procurados pelos mineiros são os países de língua inglesa, como Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia e Irlanda. Ultimamente, também a Itália, Alemanha e França têm entrado no circuito.
 
Para a fundadora do Greensystem Intercâmbio e Idiomas, Ana Maria Fulgêncio, que trabalha há 40 anos com o envio de pessoas ao exterior para estudos, está havendo uma revolução no setor. O que antes era experiência possível somente para alunos da faixa dos 15 aos 18 anos agora se estendeu para todas as idades e formas. Para programas de férias, a Greensystem envia cerca de 600 alunos ao ano para países como Espanha, Canadá e Inglaterra. Para o high school, que caiu um pouco pelo aumento do custo, são cerca de 100. Já para os cursos de inglês em qualquer tempo também são cerca de 500 a 600 intercambistas anuais. De acordo com ela, o preço do intercâmbio subiu porque antes os jovens eram recebidos por voluntários. Hoje, há todo um sistema em que as famílias são pagas para hospedar ou a opção é o boarding school, quando os estudantes moram nas escolas.
 
Arquivo pessoal
A estudante Mariana Cruz e o namorado, Rafael Krettolys, ladeiam a mãe dela, a farmacêutica Nelma Cruz: os três fizeram intercâmbio nos Estados Unidos para estudar inglês (foto: Arquivo pessoal)
 
 
Segundo Ana Maria Fulgêncio, o intercâmbio em família também vem crescendo na Greensystem e é muito indicado, mas é preciso um planejamento, em função dos custos. "As pessoas estão acreditam que quanto mais cedo se começa a aprender melhor, e estão levando as crianças", diz. De acordo com ela, as escolas que antes introduziam o inglês aos 9 anos de idade, agora, colocam a língua na grade curricular aos 3 ou 4 anos. Por isso, a tendência para o intercâmbio familiar é de crescimento. "As famílias percebem essa necessidade, mas é uma experiência ainda não tão divulgada e cara, porque tem de pagar cada curso e ainda a hospedagem. Então é preciso juntar um dinheiro: é um projeto e um investimento mais alto", explica.
 
 

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