Do caderno para o tablet

A tecnologia digital já chegou à sala de aula, mas especialistas afirmam que professores devem se preparar para o novo cenário

por Rafael Campos - Revista do Correio 11/09/2013 15:22

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Em vez de lousa e pincel, uma TV interativa touch screen. Além dos tradicionais livros, cada aluno vai contar com o poderoso auxílio de um computador ou tablet, que estarão em rede e prontos para compartilhar conteúdos, lançar discussões e interagir com o professor. A onda digital invadiu o cotidiano, aperfeiçoou os telefones celulares, fez surgir aparelhos cada vez mais modernos e multifuncionais como os tablets e, agora, chega ao ambiente da sala de aula. Ao visitar algumas faculdades e centros universitários de Belo Horizonte, é possível descobrir que há instituições que já usam e abusam das inúmeras possibilidades das novas tecnologias. É um caminho sem volta, afirmam especialistas. Resta saber se os professores e diretores de ensino estão preparados para surfar nessa onda.
 
Samuel Gê
Lucas Miranda, estudante de engenharia mecânica da Newton Paiva: oportunidade de aprender utilizando equipamentos modernos que simulam operações reais (foto: Samuel Gê)
 
  
A Faculdade Estácio, que mantém duas unidades (Floresta e Prado) em Belo Horizonte, passou a oferecer tablets há pouco mais de um ano para alunos dos cursos de gastronomia, direito e das engenharias civil e de produção. Não se trata de brinde, como diz o diretor da Estácio BH, Eduardo Penna. “O aparelho vem com material didático e o aluno pode, entre outras ações, fazer anotações e enviá-las aos professores e a outros alunos”, explica o diretor. A instituição tem cerca de 10 mil alunos na capital mineira, e a ideia é expandir o projeto dos dispositivos para todos os cursos. A faculdade está em vias de ser transformada em centro universitário, o que significa que ganhará autonomia para abrir novos cursos, e a terceira unidade deve ser inaugurada na região Norte da cidade, segundo Penna.
 
Eugênio Gurgel
Célia Ramos, coordenadora de novas tecnologias da pós-graduação da UNA, e alunas do curso: "A ideia é sair do marasmo e reinventar a sala de aula" (foto: Eugênio Gurgel)
 
 
A professora Luciana Berlini, coordenadora-adjunta do curso de direito da Estácio, afirma que os professores foram receptivos à proposta de introduzir o aparelho na sala de aula. “Nós temos uma legislação muito vasta, e o aluno pode manter todo o conteúdo a ser estudado no tablet”, diz. Receptividade que também vem dos alunos: a estudante Flávia Carolina Lima, de 20 anos, está no terceiro período do curso de direito e afirma que a vantagem do aparelho está na instantaneidade da informação. “Em qualquer lugar que eu esteja, posso tirar dúvidas com os professores. Além disso, a aula fica mais dinâmica e interessante”, diz a jovem.
 
Samuel Gê
Dalton Leal, coordenador da Comissão de Educação a Distância da Fumec: "Estamos implantando a web-conferência, na qual os professores poderão interagir com os alunos em casa" (foto: Samuel Gê)
 
 
O professor Dalton Reis Leal, coordenador da Comissão de Educação a Distância da Fumec, afirma que, hoje, os professores já preparam as aulas tendo como base alguns recursos da web como a rede social Facebook e o canal de vídeos Youtube. “É interessante pensar nisso, porque há menos de 10 anos as salas nem tinham projetores”, afirma. A educação a distância, por exemplo, segundo ele, é uma das provas de que cada vez mais as instituições estão andando de mãos dadas com o mundo virtual. No próximo ano, 10 novos cursos serão oferecidos virtualmente na Fumec. “Estamos implantando também a web-conferência, na qual os professores poderão interagir com os alunos em casa”, diz. Dalton Leal, que há 15 anos é professor no ensino superior e já trabalhou na implantação de tecnologia em escolas particulares de ensino médio de BH, acredita que as aulas expositivas tradicionais estão passando por uma transformação. “Elas serão constituídas de seções de aprendizagem, com espaço para o debate e a pesquisa, que será mais interativa”, afirma.
 
Pedro Nicoli
Eduardo Penna, diretor da Estácio BH, explica a importância da tecnologia em sala de aula: "O nosso tablet não é um brinde, vem com material didático e o aluno pode fazer anotações e enviá-las aos professores" (foto: Pedro Nicoli)
 
    
Foi também pensando nessa demanda que o Centro Universitário UNA entrou no cenário da tecnologia digital. A professora Célia Ramos, coordenadora de educação a distância e de novas tecnologias da pós-graduação da instituição, está à frente de um projeto-piloto que utiliza o iPad (tablet da Apple) como metodologia de ensino. “Não é apenas colocar apostilas no iPad. A proposta é de que professores e alunos utilizem o mesmo material didático para que a interação possa acontecer; saiam do marasmo e reiventem a sala de aula”, diz. Ela afirma que aquela imagem do professor como fonte única de saber dentro da sala de aula está caindo por terra, o que é motivado por instrumentos responsáveis por expandir o acesso à informação. “Sai o tablado e entra o jogador. O professor passou de técnico para jogar junto”, afirma Célia.
 
Pedro Nicoli
Flávia Lima, estudante de direito da Estácio: "Em qualquer lugar que eu esteja, posso tirar dúvidas com os professores. Além disso, a aula fica mais dinâmica e interessante" (foto: Pedro Nicoli)
 
   
Nos cursos de engenharia, os alunos têm a oportunidade de aprender utilizando equipamentos modernos que simulam operações reais. Isso graças à possibilidade de contar com equipamentos ultramodernos em laboratórios, como acontece no Centro Universitário Newton Paiva. Lucas Miranda, de 22 anos, está no terceiro período do curso de engenharia mecânica. Ele também atua em um dos laboratórios do curso, onde está o Centro de Usinagem (CNC), que produz peças planas e de grande complexidade. “É excelente para nós contarmos com laboratórios onde podemos simular fielmente o que acontece lá fora”, afirma o estudante. “Os alunos já estão chegando aqui com algum conhecimento técnico e o desenvolvimento da microeletrônica possibilitou oferecer avançados meios auxiliares de aprendizagem”, afirma o professor Ricardo Martins Ramos, coordenador do curso de engenharia elétrica da Newton Paiva.
 
Fim das aulas enfadonhas?
 
O professor Ronaldo Mota, pesquisador formado pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor na University of British Columbia, é um dos principais críticos do modelo atual de ensino, seja ele fundamental, médio ou superior. Ele acredita que as tecnologias digitais estão protagonizando a terceira revolução educacional, que começou com o surgimento da escola e depois do livro. "As aulas atuais são horríveis, verdadeiros momentos de tortura e muito enfadonhas. Podemos transformar essas atividades em algo extremamente interessante. Não dá para pensar em transformação educacional sem as novas tecnologias", afirmou, durante um congresso de docentes de ensino superior no Rio de Janeiro (RJ), no mês passado.
 
O professor também acredita que as ferramentas devem vir acompanhadas de estratégias para fisgar o estudante, num cenário inundado de informações. Essa também é a preocupação de Juliane Corrêa, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que trabalha na elaboração de metodologias para inserir a tecnologia na educação. "O grande desafio é processar as informações para que elas se tornem conhecimento", afirma a professora, que chama a atenção para o fato de os estudantes estarem cada vez mais dispersos em sala.
 
Para o professor José Wilson, do curso de sistemas de informação e do programa de pós-graduação em educação da PUC Minas, os professores devem acompanhar esse avanço tecnológico para saber utilizá-lo da melhor maneira na sala de aula: "Muitas escolas ainda estão longe de lidar com tais ferramentas", afirma. Outro problema apontado pelo pesquisador é o fato de a rede de internet disponível no país ser ainda muito instável, especialmente com relação à velocidade de transmissão de dados e aos demais serviços prestadas pelas operadoras. 
 
 

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