"As pessoas tornaram-se prisioneiras das redes sociais"

Especialista em distúrbios causados pelo excesso de uso da internet diz que pessoas podem desenvolver problemas graves, como depressão, angústia e medo de ficar desconectado do mundo virtual

12/09/2013 12:11

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Paulo Márcio
(foto: Paulo Márcio)
No ônibus, no boteco, no saguão do aeroporto e até no sinal fechado. Para onde se olha, os smartphones estão lá, quase como uma extensão do corpo de quem usa. Na tela, as redes sociais são as páginas preferidas. Ávidas por informações sobre a vida alheia, cada vez mais pessoas mergulham nas atualizações dos “amigos” à espera de novidades. O que começa como ferramenta para romper as barreiras da distância pode se tornar verdadeira prisão para usuários que colocam o Facebook e o Twitter acima da própria existência na vida real. Distúrbios provocados pelo medo de ficar por fora dos acontecimentos (FOMO, Fear of Missing Out, na sigla em inglês), como depressão e angústia, já começam a ser estudados. Diante do aumento de casos, a psiquiatra Gilda
 
Paoliello fala, nesta entrevista a Encontro, sobre as causas desse vício e as consequências sociais e psicológicas que pode trazer. E acredite: são graves.

ENCONTRO – A senhora já percebe um aumento no número de casos de pessoas com problemas provenientes do uso excessivo das redes sociais?
 
GILDA PAOLIELLO – Essa situação vem crescendo atualmente tanto em quantidade como na gravidade dos sintomas. As pessoas procuram ajuda por estarem se sentindo deprimidas, mal-humoradas e angustiadas. Quando começam a falar sobre suas rotinas de vida, é possível detectar que elas de fato não têm uma vida real e estão se refugiando nesse tipo de recurso (redes sociais), com a ilusão de que as relações são mais possíveis, mais fáceis, mas de forma completamente alienada e compulsiva. Uma pesquisa conduzida recentemente pelo Ibope mostra que os brasileiros são os que ficam mais tempo conectados à internet – e que 10% desses usuários desenvolvem dependência. Essas pessoas não conseguem limitar o uso da internet, o que provoca os sintomas de mal-estar emocional descritos antes. O acesso irrestrito à internet pelo celular vem contribuindo muito para o crescimento desse abuso. A ilusão é ter o mundo ao alcance das mãos; a realidade é ser prisioneiro das redes virtuais.

É uma escapatória?

Sim. As pessoas têm dificuldades em suportar as angústias habituais do dia a dia e vão atrás de uma solução mágica. As redes sociais se apresentam como uma alternativa muito atraente, já que são capazes de disfarçar essas angústias e a solidão e dificuldades de relacionamentos tão comuns em nossos dias. Ali, nas redes, uma pessoa mantém contato com dezenas de outras. Mas, quando se percebe que essas relações são, em sua grande maioria, fictícias, apenas virtuais, essas pessoas caem em um grande vazio e a situação se inverte – isto é, o que seria uma solução torna-se uma armadilha. 
 
Foto: Paulo Márcio
(foto: Foto: Paulo Márcio)
 

Por que as pessoas se sentem tão atraídas por ferramentas como Facebook e Twitter?

Há vários pontos de estímulos, sem precedentes. Além de anular as distâncias, colocando-nos próximos de quem tem interesses comuns conosco, mas mora do outro lado do mundo, eu citaria três deles como os principais. O primeiro seria o anonimato. As pessoas conseguem se desinibir e falar muito mais de suas fantasias nesse ambiente e, com isso, criam verdadeiros personagens, refugiando-se neles. Outro ponto seria a não necessidade de uma confrontação visual e física, como ocorre nas relações reais. Isso possibilita que indivíduos mais frágeis e tímidos, ou seja, aqueles com mais dificuldade de relacionamento, efetivamente se relacionem. O terceiro ponto é que as redes sociais são muito democráticas. São horizontais, não têm uma hierarquia ou um líder, permitindo que todos sejam iguais. Em síntese, a grande  atração, e ao mesmo tempo risco, é que a rede permite à pessoa substituir-se a si mesma, podendo exercer todas as suas fantasias, especialmente as sexuais, adotando outras identidades e criando realidades alternativas sem as barreiras do contato interpessoal direto, que pode ser ameaçador a essas pessoas.

Quando essas ferramentas passam de benéficas para prejudiciais à rotina das pessoas?

Originalmente, são ferramentas vantajosas e, atualmente,  essenciais à vida contemporânea, uma vez que permitem adquirir e compartilhar conhecimentos, anulam as distâncias e possibilitam contatos e relacionamentos em tempo real. O ser humano é social por natureza, e a internet permite, de forma excepcional, potencializar essa característica. Mas, à medida que a pessoa fica presa somente na vida virtual, permitindo que esta substitua a vida real,  acaba se alienando e sendo aprisionada nas malhas da rede. E não é apenas isso. Como esses relacionamentos correm o risco de serem construídos em um alicerce imaginário, uma fantasia, a partir do momento em que essa ficção começa a falhar, surge a angústia. Assim, a rede torna-se uma faca de dois gumes. 

Como é possível identificar que esse processo já está em andamento?

A vida começa a mostrar sinais de comprometimento: as pessoas começam a se afastar dos relacionamentos reais e da vida social e passam a ter necessidade absoluta de se manterem conectadas o tempo todo. O estímulo é muito grande e, com isso, elas vão se prendendo cada vez mais. É a partir desse momento que começa a haver um desgaste. Em primeiro lugar, porque a pessoa conectada se consome  muito, já que não é fácil absorver informações o tempo todo. Aí começam a aparecer os sintomas, que seriam os efeitos colaterais da rede. Os primeiros são cansaço, irritabilidade, mau humor, insônia. Pouco a pouco, os outros vão surgindo. Afastamento da família, dos amigos, confinamento no quarto, comprometimento dos estudos e da vida  profissional.

Hoje, vemos, principalmente em bares e restaurantes, grupos de amigos reunidos nos quais vários estão com seus smartphones na mão e alheios ao que está acontecendo na mesa. Este já pode ser considerado um sinal de que as redes sociais estão começando a aprisionar o indivíduo?

Sim. É a impossibilidade de se desconectar, como se a pessoa deixasse de existir se isso acontecesse. Mesmo quando há possibilidade de um encontro, um relacionamento próximo, real, ainda assim ocorre a substituição pelo virtual. 

Muitos estão, inclusive, contando para amigos nas redes sociais que estão naquele bar, por meio de um check-in ou até pela postagem de fotos...

Exatamente. A intenção seria mostrar que a pessoa está  gozando a vida. Parafraseando Descartes, um imperativo que se adéqua muito a esta situação atual seria: “Sou visto, logo existo”. As pessoas têm necessidade dessa visibilidade. Já não basta mais estar ali desfrutando. É preciso compartilhar seu gozo, mostrar para todos que aquele momento está acontecendo. Então as pessoas se desvelam, revelando os momentos e sentimentos mais íntimos; a vida se torna pública e se perde a noção do que seria privado. E, mais do que postar, espera-se que o outro documente o que está vendo: que “curta” e comente. Essa resposta tem de existir, caso contrário, é mais uma fonte de frustração. Se isso não acontece, se o outro não acusa seu reconhecimento, começam as interpretações imaginárias: “Será que ele está com inveja?”. Ou “Não tenho mais importância para ele?”. Aí, a pessoa se sente invisível. Esses questionamentos podem, inclusive, evoluir, dependendo da estrutura psíquica da pessoa, para uma forma mais grave, para uma paranoia, que tem como mecanismo principal a projeção, ou seja, colocar no outro o que você próprio está pensando ou sentindo. 

Ao abrir sua vida e registrar todos os momentos – principalmente os mais agradáveis –, o indivíduo estimula no outro um sentimento de que não pertence àquela realidade. Isso também pode trazer consequências?

Não só pode, como já existe uma expressão conhecida como fomofobia, proveniente da sigla Fomo (Fear of Missing Out, em inglês), que seria o medo de estar de fora, perdendo algum acontecimento. Não chega a ser considerada uma doença, e acredito que seria um erro classificar dessa forma, pois seria um indicativo de que a pessoa não tem responsabilidades sobre aquilo que escolhe para si. Porém, mesmo não sendo uma doença, essa necessidade imperativa de reconhecimento pode levar a outros quadros, como depressão e angústia. A atual necessidade de reconhecimento é tão grande que já há sites que vendem pacotes de seguidores no Twitter e de “curtidas” no Facebook. 
 
Foto: Paulo Márcio
(foto: Foto: Paulo Márcio)
 

Por que algumas pessoas desenvolvem esse distúrbio e passam a imaginar que o outro sempre está em lugares mais interessantes, comendo as melhores comidas e na presença das melhores companhias, enquanto sua vida é vista como sem graça e sem interesse?

Nossa sociedade contemporânea é regida pelo capital, dirigida para o ter. E nunca se tem o suficiente. Isso porque, quando é preciso ter para ser, nada basta, a demanda é sem limites. As pessoas tendem a acreditar que o outro sempre está numa situação mais privilegiada e querem se colocar em seu lugar. A verdade é que essa comparação sempre existiu, mas ganhou projeção infinitamente maior por meio das redes sociais, que multiplicam seu alcance.

Isso tem relação com a instantaneidade com que as pessoas tomam conhecimento da vida e das atividades do outro?

A questão de ser captado no momento, no real, sem qualquer intervalo de tempo, contribui muito. Entre saber sobre o outro, por relatos, depois de algum tempo, ou no exato momento em que o fato acontece, há diferença. Os sentimentos são, em geral, ambivalentes nas duas partes: pelo lado de quem se expõe, a necessidade de ser visto e reconhecido; por parte de quem assiste, a sensação de um espectador da própria vida, mas, também, a fantasia de que detém controle sobre a vida alheia. Uma certeza de saber sobre o outro. Um precisa mostrar e o outro necessita ter controle, numa relação de exibicionismo e voyeurismo às vezes obscena. E, com isso, muitas pessoas vivem a vida do outro, deixando de viver a própria vida.  

Existe um perfil de quem desenvolve a fomofobia?

Trata-se de um problema que atinge uma quantidade razoável de pessoas, em geral, frágeis e insatisfeitas com a própria vida. Isso pode ser interpretado como se houvesse um vazio no mundo interno do indivíduo. A questão vem de dentro para fora. Enquanto  alguns podem achar um privilégio estar em casa almoçando com a família em um momento íntimo e agradável, outros veem isso como uma limitação quando confrontado com situações mais sofisticadas vividas por seus amigos das redes sociais. Trata-se de uma insatisfação interna.

Como isso pode ser revertido?

É necessário encarar as angústias  e elaborá-las de uma forma menos fantasiosa. E, também, aprender a lidar de maneira mais adequada e saudável com esse fantástico recurso das redes sociais, sem se deixar aprisionar. Talvez, em um determinado momento, seja necessário, inclusive, um corte. Se não se consegue fazer isso sozinho, é preciso buscar ajuda. Há casos de pessoas que tentam recuar, mas já estão dominadas por essa verdadeira droga, um vício, que denominamos compulsão. Fisgadas, quando se afastam, os sintomas de abstinência começam a aparecer, como o aumento da angústia, irritabilidade e insônia, para citar alguns.

Esse processo de compulsão se assemelha ao que ocorre com as drogas ilícitas?

O mecanismo do vício é o mesmo e, nesse sentido, a pessoa está substituindo a droga pela compulsão pelas redes sociais. Há um perfil de pessoas mais susceptíveis, que têm tendência a desenvolver de forma mais acentuada esse processo. São aquelas que têm uma fragilidade psíquica, dificuldade de relacionamento, timidez muito grande e um tipo de estrutura que tem muita facilidade para dependências.
Como a psicanálise trabalha casos como esses? 
De forma geral, a direção do tratamento seria permitir que a pessoa coloque sua angústia em palavras, para que possa se ouvir e ressignificar essa angústia, direcionando-a de outra forma, não destrutiva. Às vezes, é importante ficar a sós consigo mesmo. Se isso não está sendo possível, é porque alguma coisa no mundo interno anda mal, e não é no mundo virtual que isto será resolvido. 
 
Foto: Paulo Márcio
(foto: Foto: Paulo Márcio)
 

Qual seria o papel da família e dos amigos no processo de recuperação?

Em geral, quem percebe primeiro o abuso é a família. A primeira ação seria alertar a pessoa. Quanto mais precoce este processo acontecer, maior a possibilidade de se evitar um dano de grandes proporções. Esta abordagem, porém, deve ser sutil e delicada e não virar um  policiamento. Denunciar  os pequenos sinais de que o exagero existe e que se está perdendo os limites. Alertar, inclusive, que o humor está alterado, pois, muitas vezes, a pessoa vai do mau humor para a irritabilidade e até para a agressividade em poucos minutos. Se esses alertas iniciais não surtirem efeito e a família notar que o parente está se alienando, mudando os hábitos e comprometendo sua vida pessoal e até profissional, deve atuar de forma mais ativa. Se ainda assim não tiver resultado, deve ser buscado acompanhamento profissional. Nessas situações, os amigos têm mais possibilidade, e até mais força, para exercer influência. Os pais muitas vezes podem ser considerados intrometidos ou ultrapassados, então os amigos mais próximos têm um papel importante.

O que seria considerada uma boa utilização das redes sociais?

Aquela que possibilite a aproximação das pessoas, e não a alienação nesse mundo virtual. A questão não é o tempo que se passa nas redes sociais, mas o que se está fazendo ali. Vários profissionais ficam 12 horas na rede, mas com um objetivo claro. Um dos pontos é ter um objetivo. É ter um norte que poderia ser, sim, encontrar pessoas, facilitar a aproximação, mas que não aliene a pessoa da vida real.

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