O leite no divã

por Pabline Félix 13/09/2013 15:18

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Roberto Rocha
A advogada Roberta Rolletti: "Desde que cortei o leite, tive uma única crise de sinusite, que está mais ligada ao momento de estresse" (foto: Roberto Rocha)

Desde criança, a advogada Roberta Hygino Roletti, de 32 anos, sofria com sinusite, doença respiratória que provoca dor na região central da face, entupimento nasal, espirros, coriza e até febre. Procurou diversos alergistas, passou por inúmeros tratamentos, mas era chegar o inverno que as crises voltavam. Aí não tinha jeito: precisava apelar para antibióticos e remédios de alívio imediato em busca de algum conforto. "Evitei tudo que levantava alguma suspeita como ponto de partida para o processo alérgico: água gelada, ar condicionado, tempo seco, vento frio. Até simpatia eu fiz! A única coisa que não cogitei foi que o leite de vaca, que consumi em abundância durante toda a vida, era a causa do meu problema", afirma. Orientada por uma nutricionista, resolveu cortar o produto da rotina e a doença desapareceu. “Desde então, tive uma única crise de sinusite, que está mais ligada ao momento de estresse pelo qual eu passava que a todo o resto”, complementa a advogada. 

O caso de Roberta é um dos exemplos de que o consumo de leite, um dos alimentos mais antigos da dieta humana, nem sempre é benéfico. Estudos da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, apontam uma relação estreita entre o seu consumo e o câncer de próstata e de ovário e o aumento no índice insulínico, dificultando o controle dos pacientes de diabetes e a perda de peso. Outra dúvida importante decorrente desse estudo refere-se à capacidade de o corpo absorver o cálcio e a vitamina D presentes nesse alimento, que parece não ser a melhor fonte. "Não é porque tem muito cálcio que ele será absorvido. Há diversas pesquisas que mostram que o cálcio presente nas verduras de folhas verde-escuras, como o brócolis, a mostarda e a couve, é melhor aproveitado que o do leite", explica a nutricionista funcional Bruna Donatti, diretora de uma clínica especializada em nutrição.

Essa diversidade de opiniões em torno do leite, especialmente do de vaca, o tipo mais consumido, é consequência da variedade de reações possíveis a partir da sua ingestão. Há quem consuma o alimento e não perceba qualquer reação direta, mas ela existe e pode vir de diversas formas, como doenças respiratórias, acnes ou mesmo variações de humor; e há quem consuma e sinta imediatamente a reação do corpo à presença do leite ou de seus derivados, como fechamento de glote ou diarreia. 
 
Samuel Gê
Ázula Narayama, nutricionista esportiva: "O diagnóstico é sempre muito individual, por isso a dificuldade de fazer indicações gerais" (foto: Samuel Gê)
 
 
"O diagnóstico é sempre muito individual, por isso a dificuldade de fazer indicações gerais. Quando há intolerância completa, é fácil diagnosticar. O complexo são os 'meios-termos'", diz Ázula Narayama, nutricionista esportiva e mestre em ciência de alimentos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo a especialista, há pesquisas que apontam a relação entre doenças das vias aéreas superiores e o consumo de leite, já que a presença das suas proteínas no organismo parece favorecer a produção de muco nasal e de processos alérgicos. "Não é uma ligação direta, como 'se a pessoa tem sinusite ou rinite, deve ser por causa do leite' ou "o leite sempre causa algum mal", mas, no caso de alguns pacientes, essa suspeita pode se confirmar", explica a nutricionista, que acompanhou Roberta no processo de cura e de reeducação alimentar. Hoje, a advogada evita o consumo dos laticínios e adota uma dieta balanceada. "A sensação é de leveza. Não há aquele entupimento que o leite causava", diz. 

O fisioterapeuta Ivan Ervilha também desfruta, no dia a dia, dos benefícios de uma dieta com porções reduzidas de derivados de leite. Mas eles ainda existem, ele garante: "Tinha dor lombar e sensação de inchaço constantes, aliado ao mau funcionamento do meu intestino. Procurei orientação especializada, porque já desconfiava dessa intolerância ao leite. Quando cortei da dieta, na fase de teste, foi impressionante: em duas semanas a produção de gases diminuiu muito e percebi a melhora da função intestinal. Até o fim do primeiro mês, já estava tudo regularizado. Hoje, não sinto mais dor nas costas", afirma. A reeducação alimentar ainda permitiu que ele perdesse seis quilos e contornasse as crises alérgicas mensais, que, apesar de moderadas, eram persistentes. 
Depois da melhora da condição de saúde, Ivan decidiu que era hora de voltar progressivamente com os laticínios. "Hoje, não tomo mais leite, mas não deixo de comer alimentos que contenham derivados, como pizza ou coisas assim. O que eu faço é regular a quantidade. Por exemplo: se tem opções de molho branco e molho ao sugo, eu prefiro a opção sem creme de leite. Mas, se só tiver molho branco, eu como. Isso não me restringe em nada. Hoje, o equilíbrio do meu corpo está restabelecido", diz. 

Apesar de cerca de 40% dos brasileiros manifestarem algum tipo de desconforto ao ingerir leite ou derivados, de acordo com pesquisa publicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a maioria da população ainda pode recorrer a esse tipo de alimento, que é rico em vitaminas A e D e sais mineirais. "O importante é perceber como seu corpo reage à presença do alimento e, no caso de ser necessário substituí-lo, fazê-lo sob orientação de um profissional", recomenda Bruna, que completa: "Nem sempre é necessária a exclusão total do leite. Diminuir o seu consumo, reduzindo a ingestão do leite puro, por exemplo, já traz muitos benefícios".
 
Quem confirma o desconforto frente à presença dos laticínios e está determinado a diminuir seu consumo conta com diversas alternativas para garantir a reposição de cálcio, fósforo e vitamina D no organismo. "Folhas verde-escuras, especialmente do brócolis e da couve, gergelim, sardinha e amêndoa são excelentes fontes desses nutrientes. O ideal, no entanto, não é sair cortando todos os derivados de leite da dieta e substituindo por verduras, mas fazer a substituição orientada por um profissional", afirma Bruna. 
 
Pedro Nicoli
O fisioterapeuta Ivan Ervilha: melhora imediata na região intestinal (foto: Pedro Nicoli)
 
 
Para acompanhar o café da manhã, existem várias opções de bebidas que simulam a aparência do leite, mas são substratos vegetais, como os leite de arroz, de quinoa e de amêndoa, com um custo bem acima do leite de vaca. O leite de soja é uma alternativa mais barata, mas há contraindicação para pacientes com predisposição ao câncer de mama e há suspeitas de que a soja também possa despertar sintomas alergênicos.

Quando o assunto são os queijos, apesar de as possibilidades não serem tão várias, Bruna explica que dá para rearranjar seu uso no dia a dia. "O tofu, o queijo de soja, é uma excelente fonte de proteína, cálcio, vitamina D e ferro, e pode servir para quem gosta de consumir o queijo puro. Mas para acompanhar o pão e fazer um sanduíche, é possível adotar a pasta de grão de bico ou uma geleia de fruta. A manteiga também pode ser substituída pela manteiga de azeite, que é fácil de ser produzida: basta colocar algumas ervas com o azeite em um pote e levar ao congelador. Ela fica com a mesma consistência da manteiga tradicional." 

Para prover a porção diária de proteína, Ázula aponta que são opções as carnes, preferencialmente as de frango e peixes, além de ovos e as leguminosas, como soja, feijão, lentilha e grão de bico. "É possível adequar a alimentação às quantidades de nutrientes diários necessários, mas não é fácil e exige comprometimento", diz.

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