Os donos das vagas

Mercado de estacionamento em BH atrai investidores nacionais, inclusive bancos, de olho nos preços médios cada vez mais caros das vagas. PBH prepara edital para estabelecimentos subterrâneos

por João Pombo Barile 13/09/2013 16:09

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Eugênio Gurgel
Avenida Pasteur, na área hospitalar de Belo Horizonte: região, uma das mais disputadas para vagas na cidade, pode ter estacionamento subterrâneo (foto: Eugênio Gurgel)

Quem precisa estacionar carro em Belo Horizonte sabe: os preços estão cada vez mais salgados. Com reajustes muito acima da inflação, nos últimos cinco anos os valores dispararam. Recente pesquisa do Procon da Assembleia Legislativa de Minas Gerais mostrou que o preço médio diário nos estabelecimentos da capital mineira é um dos maiores do país: R$ 31,11. Na capital paulista, o valor médio é um pouco menor: R$ 30. Dependendo da região, estacionar aqui pode sair mais caro do que arranjar uma vaga próximo da avenida Faria Lima, um dos endereços mais nobres da capital paulista.
 
Se em parte o aumento se explica como questão de ajuste de mercado (nos últimos 10 anos, a frota de veículos da cidade aumentou 105% e o número de vagas praticamente não se alterou), outro movimento parece explicar esses reajustes: a concentração do mercado. Na mão de poucas empresas (as principais e mais conhecidas são a Minas Park e a Autopark), a rentabilidade do setor não para de crescer.

Eugênio Gurgel
Rua Tomé de Souza, na Savassi: local também deve entrar no edital da PBH para abertura de vagas subterrâneas (foto: Eugênio Gurgel)
  
O movimento mais recente nesse sentido ocorreu no fim do ano passado, quando a Estapar, a maior rede da América Latina, adquiriu a Minas Park. Sediada em São Paulo, a Estapar é controlada, desde 2009, pelo banco de investimentos BTG Pactual, do banqueiro André Esteves. A compra da Minas Park, de origem familiar e que operava aqui e no Rio de Janeiro, foi cercada de mistérios. Os detalhes do negócio não foram revelados. "A Estapar tem como política não divulgar números e valores", limita-se a dizer a empresa. Mas a aquisição mostra que os players do setor estão mudando. E que até o setor financeiro, acostumado a grandes rentabilidades, já se interessa pelo negócio.

"Os preços realmente aumentaram de maneira exorbitante nos últimos tempos", afirma o diretor executivo do site Mercado Mineiro, Feliciano de Abreu. Para o economista, que coordena regularmente pesquisas que monitoram os preços de vários produtos, ser dono de um estacionamento na capital pode ser um excelente negócio. "A hora, que em 2012 custava em média R$ 8,04, em abril deste ano já chegou a R$ 9,16. Em um ano, tivemos um aumento de quase 14%. É por isso que muitas casas, na região central, estão sendo demolidas e virando estacionamento. Embora os empresários do setor reclamem muito, não dá para negar: estacionamento virou o negócio do momento", afirma. O curioso nessa história é que as empresas não falam em números (nem quantas vagas possuem, nem em faturamento) – e sequer a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) sabe dizer quantas vagas existem na cidade. Resultado: com o sistema de transporte público falho e caro, o belo-horizontino acaba virando refém do carro. E, por efeito, do estacionamento. Até mesmo para assistir a um espetáculo no Palácio das Artes, região central da cidade, muitas vezes os moradores da cidade são obrigados a usar o carro. "Adoro ouvir a Filarmônica todas as quintas-feiras", afirma um engenheiro, morador do bairro do Buritis, que prefere não se identificar. "Mas, sinceramente, estou pensando em desistir: pelo ingresso eu pago R$ 26. De estacionamento, R$ 30. É um absurdo", afirma, indignado.
 
Cristina Horta/D.A. Press
Custódio Mattos, secretário de Desenvolvimento Econômico de Belo Horizonte: "Já que o edital publicado em setembro do ano passado não despertou interesse, redimensionamos a licitação" (foto: Cristina Horta/D.A. Press)
 
 
Um dos principais empresários do segmento em Minas, Rogério Lima, da Autopark, relativiza os ganhos do setor. Para ele, existe muita desinformação quando o assunto é estacionamento. "Muita gente acha que o nosso setor é uma mina de dinheiro, mas não é bem assim", explica o executivo. “Posso garantir que o setor tem uma rentabilidade normal e, em alguns meses, é até baixa”, afirma.

Para tentar solucionar o problema das vagas, a PBH abriu, no início do ano, a consulta pública para a licitação de estacionamentos subterrâneos. A ideia é restringir, ao máximo, o número de carros estacionados nas ruas e melhorar o caótico trânsito belo-horizontino. E, por tabela, tentar diminuir um pouco os preços. Numa primeira etapa, serão 2.354 vagas a serem criadas em cinco locais centrais (ver arte). Se esses estacionamentos vingarem e a prefeitura encontrar algum grupo econômico interessado no negócio, serão criados, então, num segundo momento, mais quatro estacionamentos, com 1.541 vagas.

"Já que o edital publicado em setembro do ano passado não despertou interesse em nenhum empresário, redimensionamos a licitação", admite o secretário de Desenvolvimento Econômico de Belo Horizonte, Custódio Mattos. "Sabemos que esse é um tipo de negócio que ainda não existe na cidade e, por isso, decidimos fazer um edital mais realista. Acreditamos que, agora, a coisa vai finalmente sair do papel", afirma, otimista. Custódio esclarece que, com os novos estacionamentos, a prefeitura quer acabar com várias áreas de faixa azul existentes na cidade. Mais espaço na rua, segundo ele, significa um trânsito menos congestionado.
 
Geraldo Goulart
Rogério Lima, da Autopark: "Muita gente acha que o nosso setor é uma mina de dinheiro, mas não é bem assim" (foto: Geraldo Goulart)
 

O valor do novo contrato proposto pela PBH será de R$ 1,08 bilhão. Com a nova licitação, a prefeitura quer tornar o projeto mais adequado à realidade da cidade. Para isso, alguns ajustes técnicos foram feitos para o novo edital: redução de oito para cinco o número de estacionamentos que devem ser construídos na primeira etapa e uma forma mais racional de cobrança da hora estacionada. "Acho importante que a prefeitura tente regular um pouco esse mercado", afirma Feliciano Abreu. Segundo ele, já passou da hora de o poder público tomar alguma atitude em relação aos preços de estacionamento. "Como acontece em outras metrópoles brasileiras, faltam vagas. Mas, nos últimos meses, os proprietários de estacionamento estão abusando da boa vontade do consumidor. Hoje em dia, já custa tão caro estacionar no centro da cidade que, muitas vezes, é melhor pegar um táxi. Fica mais barato", diz.

Rogério Lima vê com bons olhos o novo edital. "Não dá para negar que a prefeitura agora está propondo algo mais possível de sair do papel. Vamos aguardar os próximos meses", afirma o empresário, que poderá ser um dos possíveis interessados no projeto. O mesmo interesse é manifestado pela Estapar. "Quando o novo edital for publicado, caso tenha viabilidade econômico, teremos todo o interesse em avaliar", afirma a empresa, em nota enviada à Encontro. 
 
 
Com mais de duas décadas de experiência no ramo, um importante empresário do setor, que não quis se identificar, demonstra ceticismo em relação ao novo edital. "Este é um investimento alto. E, para que ele possa realmente acontecer, tem de ser bom tanto para o consumidor quanto para o empresário que gerenciará o negócio. Embora o novo projeto seja melhor, mais realista, não acredito que muitas empresas vão se interessar pelo negócio. Quem pode entrar na concorrência? Muito pouca gente", conta. Na prática, isso significa que, mesmo se o projeto for adiante, as vagas permanecerão concentradas nas mãos de pouquíssima gente.

Para o professor do Departamento de Engenharia de Trânsito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ronaldo Guimarães Gouvêa, construir estacionamentos subterrâneos pode ser, pelo menos temporariamente, uma boa solução para melhorar o trânsito frenético da cidade. “Há mais de 25 anos deveríamos estar investindo diretamente em transporte público. Mas o transporte sempre foi visto como uma atividade econômica e não como política pública essencial para o desenvolvimento da sociedade”, afirma o especialista.

Últimas notícias

Comentários