O homem que virou menino

Autor de O Encontro Marcado, o cronista e escritor mineiro Fernando Sabino completaria 90 anos em 12 outubro, Dia das Crianças. Sua obra, preservada e divulgada pelo filho Bernardo, marcou gerações de brasileiros

por João Pombo Barile 16/09/2013 14:52

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Arquivo pessoal
O escritor na companhia do filho Bernardo, que hoje cuida da obra do pai (foto: Arquivo pessoal)
Um dos maiores cronistas brasileiros. Grande romancista e refinado jornalista. Difícil resumir em poucas palavras às gerações criadas na internet e bombardeadas o tempo todo com notícias tolas de celebridades, a grandeza de Fernando Sabino. Talvez a frase que tenha chegado mais perto é a que está em seu epitáfio: "Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino". Autor do imprescindível O Encontro Marcado, Sabino, que em outubro completaria 90 anos, é desses escritores que, com sua obra, conseguem mudar a vida da gente. Numa época que a literatura deixou de ter o status que um dia teve, como explicar, aos que estão chegando agora, a importância de sua obra? Como explicar o impacto causado por O Encontro Marcado na conservadora sociedade brasileira da década de 1950?
 
"O impacto foi grande", afirma o escritor mineiro Silviano Santiago. "Era nítida a familiaridade que Fernando Sabino tinha com os romancistas da chamada geração perdida, sobretudo Ernest Hemingway e John Steinbeck." A ligação com a literatura escrita em língua inglesa era incomum para a época, já que a elite brasileira era ainda mais ligada às fortes referências culturais europeias, sobretudo as francesas. "Seu livro era muito próximo da temática de Este Lado do Paraíso, de F. Scott Fitzgerald. Nós, que amávamos o cinema, tínhamos finalmente à disposição um estilo cinematográfico na literatura brasileira", afirma Santiago, que era vizinho do escritor no Rio de Janeiro.
 
Fotos: Arquivo pessoal
(foto: Fotos: Arquivo pessoal)
 

"Lembro-me até hoje de quando li O Encontro Marcado pela primeira vez, ainda moleque, aqui em Belo Horizonte. Minha turma gostava tanto do livro que até se reunia para conversar sobre ele. Foi um dos livros que mudaram a minha vida", rememora o jornalista Lucas Mendes. Há mais de quatro décadas morando nos Estados Unidos, Lucas se tornaria amigo de Sabino, que, sempre que viajava para a terra do Tio Sam, o visitava. "Ele tinha mesmo uma ligação muito forte com a cultura norte-americana. Morou, nos anos 1950, em Nova Iorque. Quando viajava para os EUA, ele adorava ir a alguns bares para escutar jazz", conta.

Mas a revolução causada pelo livro não se deu apenas no campo literário. Também nos costumes a obra causou uma grande mudança. E, claro, muito mal-estar. Alguns se reconheciam naquele Eduardo Marciano, o narrador e personagem central do livro. Outros ainda se escandalizavam com a vida libertina dos personagens e sua moral "existencialista". "Outro dia, escutei uma história sobre o livro que me deixou até assustado", conta Bernardo Sabino, filho de Fernando. "Uma amiga minha me contou que, quando o livro foi lançado, sua tia teve de ler escondido, sem que ninguém soubesse. Pegava mal para uma moça católica ler o livro", conta Bernardo, que há anos se dedica a preservar a obra do pai com projetos em todo o estado.
 
"A gente queria escrever daquele jeito, queria viver aquelas aventuras adolescentes, subir nos arcos do viaduto de Santa Tereza, aprontar bagunças divertidas e inteligentes na pasmaceira belo-horizontina", afirma o jornalista e escritor Humberto Werneck, que era amigo de Fernando. Mineiro radicado em São Paulo desde o início de 1970, ele é também um dos grandes admiradores da obra. Segundo Werneck, o encontro com a obra de Sabino e com, sobretudo, O Encontro Marcado, foi mesmo um alumbramento. "Aos 12 anos, para nós, O Encontro Marcado tinha sacanagem. Aos 15, citações, aos montes, de autores, pistas que saíamos procurando, meio às cegas: Pessoa, Neruda, Knut Hansum, Drummond, Garcia Lorca, Vinicius e tantos outros", conta.
 
 
  
Escritor exigente, Sabino trabalharia durante 15 anos na história da geração de Eduardo Marciano. Depois de quatro livros publicados, lançou O Encontro Marcado em 1956, o mais importante livro de sua carreira.  "Ele deu certo azar com o ano em que escolheu para publicar o livro", afirma um crítico que prefere não se identificar. "Afinal, no mesmo ano, foi publicado Grande Sertão: Veredas. O livro de Guimarães Rosa se transformaria num marco da literatura ocidental. Faria muito barulho e, inegavelmente, sombra sobre qualquer outro lançamento literário daquele ano."
  
Com o grande sucesso alcançado pelo livro, Sabino seria pressionado para escrever outro. O artista, porém, jamais cederia a pressões comerciais. E só voltaria ao romance em 1979 com a publicação de O Grande Mentecapto. As aventuras de Geraldo Viramundo, espécie de Dom Quixote brasileiro que percorre Minas vivendo muitas histórias, não alcançaria o mesmo sucesso do livro de 1956. Werneck, no entanto, relativiza estas discussão. "Nenhum escritor tem a obrigação de escrever mais de um bom livro. Se todo romancista brasileiro fizesse um romance da envergadura de O Encontro Marcado, teríamos a maior literatura do mundo", finaliza.
 
Leo Araujo
Bernardo Sabino, filho de Fernando, e parte da exposição com o legado do pai: "Tenho certeza de que vamos manter o sucesso" (foto: Leo Araujo)
 

Evento celebra os 90 anos

Se estivesse vivo, Fernando Sabino completaria, no próximo dia 12 de outubro, 90 anos. Para comemorar a data, Bernardo Sabino, filho do escritor e um dos mais importantes divulgadores de sua obra, organizou a exposição Encontro Marcado com Fernando Sabino. A mostra, que esteve durante todo o mês de agosto no Boulevard Shopping e que segue agora para o Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), na praça da Liberdade, conta com dois módulos. No primeiro, o espectador visita um vagão de trem multimídia. No cine vagão, seis telas e um telão exibem materiais em vídeo e que conta com o depoimento de amigos do escritor, como Carlos Heitor Cony e Luis Fernando Verissimo. No vagão, é possível ainda assistir aos curtas feitos pelo próprio Sabino. Já no segundo módulo, Labirinto, o visitante toma contato com a obra do escritor mineiro num divertido espaço de mais de 300 m². "Tenho certeza de que vamos repetir o grande sucesso que já tivemos em agosto, agora no CCBB", afirma Bernardo que, desde 2005, está engajado em projetos de difusão do legado do pai em escolas públicas. A exposição no CCBB fica em cartaz de 17 de setembro a 4 de novembro.

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