"É mais fácil demonizar os médicos brasileiros"

Presidente do Conselho de Medicina de MG, que renunciou um dia antes de deixar o cargo, diz que é contra a forma como os profissionais estrangeiros chegam ao país, mas admite que os médicos brasileiros saem das faculdades mal preparados

por João Pombo Barile 07/10/2013 13:57

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Paulo Márcio
(foto: Paulo Márcio)

A novela dos médicos estrangeiros no país parece mesmo que não vai chegar ao fim tão cedo. No enredo, como já bem assinalou o médico Dráuzio Varela, muita irracionalidade, corporativismo, demagogia, esperteza política e agressividade contra os recém-chegados. Na briga do governo com a categoria, quem sofre são os usuários do Sistema único de Saúde (SUS), que até agora não viram nenhuma melhoria nos serviços. Só bate-boca e propaganda política.

Para entender esse drama mexicano e tentar lançar um pouco de luz no debate, Encontro conversou com o ex-presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), o pediatra João Batista Gomes, que renunciou em 30 de setembro, um dia antes de deixar o cargo. "Renunciei porque discordo da forma como esse programa foi proposto e imposto pelo governo federal", afirmou o médico.
 
Ele abriu o jogo: queixou-se da demonização de sua categoria feita pelo governo e da falta de recursos, acusou os políticos de intervirem de maneira errada na área da saúde e foi categórico sobre a questão do registro dos profissionais formados no exterior. "Por questões de foro íntimo, não assino os registros de jeito nenhum", disse. Com a saída de Gomes, Itagiba de Castro assumiu a presidência do CRM.  Na entrevista, Gomes admitiu: grande parte dos médicos brasileiros tem formação deficitária.

Foto: Paulo Márcio
(foto: Foto: Paulo Márcio)
 

ENCONTRO – Até agora, o CRM-MG não assinou nenhum dos 41 pedidos de registro provisório dos profissionais graduados no exterior e foram selecionados pelo programa Mais Médicos, do governo federal. Por que o senhor não assinou os registros?

João Batista Gomes – Por questões de foro íntimo. O próximo presidente, o doutor Itagiba de Castro (que assumiu o cargo dia 1º) revaliará o caso. No nosso entendimento, só assinaremos os registros depois de o Ministério da Saúde informar os locais de trabalho dos bolsistas e os nomes dos tutores e supervisores. Mas repito: eu não assinei e não assinaria.
   
No mês passado, o sr. estampou nas manchetes nacionais ao afirmar que orientaria os médicos mineiros a não socorrer os erros dos médicos importados. Mais tarde, deu outras entrevistas declarando que não teria dito nada daquilo. Afinal, o sr. disse ou não a frase?

Não foi exatamente isso o que eu disse. O que falei é que, quando atendo um caso que vem de outro médico e percebo que o atendimento anterior não foi bem prestado, tenho a obrigação – e isso está no código de ética da nossa profissão – de comunicar ao paciente o que aconteceu antes de eu começar a consultá-lo. Não disse, hora nenhuma, que não deveríamos atender. Disse apenas que é obrigação do médico esclarecer ao paciente em que circunstâncias pegou o caso e as consequências do primeiro atendimento. Nunca afirmei que deveria ser negado atendimento. A minha declaração foi interpretada de forma sensacionalista.

Somos vice-campeões mundiais em escolas de medicina, perdendo apenas para a Índia. Só em Minas Gerais, temos 30 escolas que formam, em média, 2.750 médicos por ano. Por que, então, faltam médicos no país? 

A questão é que não se forma médico de um dia para outro. É uma instrução que demanda tempo. E o custo é alto. Para se formar um médico hoje no Brasil, gastam-se, aproximadamente, R$ 800 mil. A mensalidade de uma escola de medicina em Minas, por exemplo, pode chegar a R$ 6 mil. E o que aconteceu nas últimas décadas? A população adquiriu o direito de ser atendida. Com o SUS, a saúde passou a ser um direito de todo brasileiro. Um dever do Estado. Este, no entanto, não se equipou para dar à população aquilo de que ela precisa. Se compararmos o crescimento da população com a quantidade de médicos formados nas últimas décadas, veremos que o aumento do número de médicos foi muito maior. Mas a demanda reprimida era ainda maior. E, à medida que essa necessidade chegou ao SUS, ele não estava preparado para tanta gente. Hoje, temos no Brasil 400 mil médicos. Estamos chegando a um índice de dois médicos para cada mil habitantes, um número bastante aceitável. Contudo o nosso investimento em saúde ainda é muito pequeno. Muito menor que em vários países da América Latina.

 
Falta então mais investimento do governo em saúde?

Claro. E muito. Nosso SUS tem muitas incongruências. De cada R$ 100 gastos no Brasil com saúde, R$ 55 é feito pelo cidadão – eu ou você, que tiramos do próprio bolso – e só R$ 45 sai do governo. Como garantir direito a todos com essa proporção? Se pegarmos o sistema da Inglaterra ou do Canadá, veremos que lá é completamente diferente. Nesses dois países, o Estado entra com 80% dos gastos. Logo, o plano privado nesses países passa a ser uma opção, e não uma obrigação. Queremos imitar o modelo inglês e canadense, mas temos essa distorção de investimento. Entãos as coisas já começam erradas. E estão erradas há muito tempo. Nos últimos dez anos, foram abertas 70 escolas de medicina no Brasil. E nossas entidades de classe, em todo o país, sempre alertaram que o número de faculdades de medicina públicas é cada vez menor em relação às privadas. E outra: o governo agora descobriu que a maioria dos médicos mora na capital. Há concentração de médicos nos grandes centros? Claro que sim. Porque é aqui que tudo se concentra. No entanto, é mais fácil demonizar a nossa categoria. Há concurso público para controlar médicos? Há plano de cargos e salários para os médicos? A resposta é sempre não. Há condições de trabalho? Novamente, a resposta é não. O SUS tem recursos para contratar profissionais? De novo, não.

O sr. disse que há um viés político no programa Mais Médicos. O que quer dizer exatamente com isso?

Quando propusemos a PEC 29, que fixava um piso de investimento que União, estados e municípios deveriam destinar à saúde, o governo federal se mobilizou contra nossa proposta, que era de investir 10% do PIB na saúde. Ou seja: eles se negaram a investir mais em saúde. Diziam que não havia verba. Com o programa Mais Médicos, 6 mil médicos cubanos serão contratados. Eu não vi o contrato do governo brasileiro com o governo de Cuba, mas sabemos, informalmente, que do salário de R$ 10.700 dos médicos, apenas R$ 700 ficam na mão do profissional e que R$ 10 mil vão direto para o governo de Cuba. E então pergunto: o que o governo de Cuba faz com esse dinheiro? Por que o governo brasileiro está dando dinheiro para Cuba?

 

A importação de médicos cubanos por outros países tem funcionado?

O que temos visto é que um grande número deles deserta. Na Venezuela e na Bolívia, esse tipo de programa não deu certo. Isso nos faz pensar, de forma calma e sem nenhum ressentimento, que existe um viés político por trás disso.
 
Como o sr. avalia a qualidade dos médicos cubanos?

Não sabemos. Nós vamos testar agora. Esse é o grande teste. Por isso é que estamos solicitando o endereço de onde eles trabalharão, além dos nomes do supervisor e do tutor.
 
Falando agora sobre a qualidade dos nossos médicos, em 2012, mais da metade dos estudantes que concluíram o curso de medicina nas universidades de São Paulo demonstrou não ter domínio de áreas básicas para exercer a profissão. O resultado, divulgado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), foi alarmante: 54,5% dos formandos foram reprovados. Porém, como o exame não tem valor legal, esses estudantes receberam o registro e estão atuando. Esse número de reprovação não é muito alto?

A nossa formação, com certeza, perdeu muita qualidade. Por quê? Quando se faz uma pesquisa entre os recém-formados, apenas 10% querem ser professor. Ou seja: está todo mundo desencantado com a carreira do magistério. Se pegarmos hoje quanto ganha um professor catedrático na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é de se assustar. O valor é muito baixo. Para termos profissionais de qualidade, precisamos, antes de tudo, de bons professores. Outro ponto a ser considerado é que o aumento indiscriminado do número de formandos acaba comprometendo a formação de novos profissionais. Dou um exemplo da nossa casa: a UFMG. Em 100 anos, formamos 10.500 médicos. Como foi dito inicialmente, só neste ano em Minas, vamos formar 2.750 profissionais. Ou seja: em três anos, o estado vai formar a mesma quantidade que a UFMG formou em um século. É claro que a qualidade acaba comprometida.

 

É impraticável, então, aumentar o número de formandos em tão pouco tempo?

Claro. Recentemente, foi fechada uma escola de medicina em Belo Horizonte, o que é uma coisa rara. Felizmente foi. Porque, quando ela, nós dissemos claramente para o governo que ela não tinha nenhum condição de funcionar.  

Se essas escolas são ruins, por que então não são fechadas?

Há interesse de donos de escola, existe jogo financeiro, há interesse político de deputado. A grande maioria, das 30 escolas que existem em Minas, abriu em razão de algum interesse político. Desde as primeiras, que abriram em Barbacena. Por que abriram? Por interesse político. Quer outro exemplo mais recente? Em Paracatu. E por que lá? Por causa do deputado Aldo Rebelo, que hoje é ministro dos Esportes. Ele prometeu aos evangélicos abrir uma escola lá, desde que conseguisse ser eleito presidente da Câmara. Ele foi eleito e cumpriu a promessa. E assim ocorre em todos os lugares: em Caratinga existe uma escola devido ao interesse de um grupo de comunicação. Quer outro exemplo? Montes Claros. Lá existem três escolas de medicina. Uma é pública, estadual, e tem muito bom nível. As outras duas, não digo que são ruins, mas não têm o mesmo nível da estadual.
 
Aqui em Minas, os sr. pretendem fazer algum exame para avaliar a qualidade dos nossos médicos?

Conversamos com o presidente do Cremesp, doutor Renato, que esteve em BH recentemente. Queríamos, sim, fazer o exame. Só não fizemos ainda porque achamos que não há nenhum respaldo legal. O médico que fez o exame de São Paulo e não passou, por exemplo, tem o CRM do mesmo jeito. E aí o exame torna-se. Mas devo admitir: do jeito que as coisas vão, caminhamos para o exame sim. Temos uma pesquisa feita com os médicos mineiros que já estão atuando a maioria é a favor do exame. Caminhamos para o exame. 

O sr. admite, então, que a questão da qualidade dos nossos médicos é um problema sério?

A qualidade da formação dos médicos é uma questão que temos de enfrentar. Hoje se formam no Brasil, anualmente, em torno de 17 mil médicos. O governo quer chegar a 20 mil nos próximos anos. E 100% dos formandos querem fazer residência médica. Mas só agora, com o programa Mais Médicos, é que o governo descobriu que tem de oferecer residência a todo mundo. E por que todos os estudantes querem fazer residência? Porque percebem que o curso não é bom. Temos ainda outro problema sério: hoje, os médicos que se formam, em vez de optarem por clínica médica, pediatria, cirurgia geral, ginecologia, obstetrícia ou saúde da família, preferem fazer, por exemplo, dermatologia ou cirurgia plástica. Só 7% dos médicos que se formam agora querem fazer urgência/emergência. E o que é o pior: a maioria dos médicos de urgência/emergência fica na mão dos prefeitos. Foi grande a demanda por médicos em vários municípios do estado depois das eleições do ano passado. É sempre assim: muda o prefeito, muda o médico da cidade. Não existe concurso público. Não existe plano de cargos e salários. Se o Estado estiver interessado em corrigir de verdade o nosso sistema de saúde, que corrija pelas bases. Temos de encontrar uma maneira de estimular aquele médico que saiu da sua cidade  para graduar a voltar e exercer a sua profissão ali.
 
Por que as novas gerações de médicos se interessam mais por dermatologia ou cirurgia plástica e menos por outras especialidades?

Primeiro: são especialidades que não têm plantão. Segundo: o atendimento não é urgente e o profissional só atende quando quer. Por fim: a demanda é grande. Hoje, na sociedade brasileira, uma parte importante das pessoas se preocupa muito com a estética. Muita gente gasta mais dinheiro no cabeleireiro do que com o médico. Hoje, alguns planos de saúde pagam R$ 62, ou até menos, por uma consulta. Existem muitos cabeleireiros em BH que cobram muito mais do que isso para um corte, por exemplo. Há ainda outro agravante: se a especialidade escolhida for dermatologia ou cirurgia plástica, o médico terá uma demanda de clientes particulares boa. Então, o seu ganho pode ser maior.

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