Os piscinões vêm aí

PBH pretende construir bacias de controle de água da chuva como solução para evitar enchentes. Especialistas afirmam que a medida isolada não é suficiente e moradores pedem debate

por Simone Dutra e Marcelo Freitas 07/10/2013 14:16

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Thiago Mamede
A lagoa da Pampulha é a maior e mais conhecida bacia de contenção de águas de BH: atualmente, assoreada e poluída, está em processo de revitalização (foto: Thiago Mamede)
 
 
O período chuvoso está aí. Basta cair água para Belo Horizonte virar um verdadeiro caos. Como a cidade é cortada por muitos córregos e grande parte deles está canalizada, ruas e avenidas transformam-se em grandes corredores de água, causando destruição e transtorno para os moradores da cidade. Para amenizar a situação, alguns pontos mais críticos e passíveis de inundações vão receber as chamadas bacias, que podem ser de contenção (quando existe o espelho d’água) e de detenção, que não armazenam água – uma espécie de piscinão, que funciona como controle de cheia, onde as águas das chuvas são retidas.
  
Hoje, a cidade conta com 12 bacias. As mais conhecidas são a lagoa da Pampulha (a maior), barragem de Santa Lúcia, lagoa Seca e o Parque Lagoa do Nado. Até o final de 2016, BH terá mais quatro. Entre elas, a bacia do Calafate, obra que será iniciada no começo de 2014. As intervenções vão acontecer às margens da Via Expressa e das avenidas Tereza Cristina e Silva Lobo, importantes vias da cidade. A avenida Presidente Juscelino Kubitschek, que liga as duas últimas, desaparecerá com a construção da barragem. Porém,, com a polêmica do projeto de implantação de uma rodoviária no local, que não foi para frente, a futura bacia também pode passar por turbulências, pois a obra enfrenta grande resistência por parte dos moradores diante do grande impacto na região. Mais: a solução já é encarada com desconfiança por especialistas. 
 
Thiago Mamede
Lagoa Seca, no Belvedere: exemplo de bacia de detenção, cuja função é reter as águas das chuvas (foto: Thiago Mamede)
 

Seis vezes maior do que a barragem Santa Lúcia, na região Centro-Sul, a bacia do Calafate será a segunda maior da cidade e receberá 600 milhões de litros de água. O investimento, vindo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), está orçado em mais de R$ 300 milhões. Parte dele também será destinada às obras da bacia de detenção do bairro das Indústrias, em Contagem. Segundo o coordenador executivo do Programa de Recuperação Ambiental de Belo Horizonte (Drenurbs) da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), Ricardo Aroeira, as duas bacias, implantadas simultaneamente, formarão um sistema de proteção para a calha de detenção do ribeirão Arrudas, reduzindo o risco de inundação naquela região, que é bastante conhecida por tragédias na época das chuvas. "Elaboramos um estudo e identificamos as cabeceiras da bacia do ribeirão Arrudas até chegar à altura da avenida Francisco Sá. E constatamos o que todo mundo já sabe: que ela é vulnerável a inundações", afirma Aroeira.

A intervenção no Calafate será realizada em uma área que, apesar de ocupada, ainda reserva espaços passíveis à construção da bacia. Outro fator que contribui para a obra é que o córrego ainda permanece a céu aberto. Entretanto o coordenador ressalta: "As inundações são fenômenos naturais. E, dependendo da quantidade de chuva, haverá risco de a água transbordar". Aroeira afirma que, antes de qualquer obra que tenha o objetivo de evitar enchentes, é realizada uma série de diagnósticos: características e histórico da região, volume de chuva, riscos e possíveis prejuízos materiais decorrentes de inundações. "Se as margens estão vazias, a água é drenada, o que não acontece quando existe a urbanização em volta do curso d’água." Para que tenha aspecto agradável aos moradores da região, Aroeira afirma que o local contará com área de lazer. "Serão construídos pista de caminhada e espaço de convivência para os moradores e frequentadores da região."   
As avenidas Prudente de Morais e Francisco Sá são regiões que tradicionalmente inundam em períodos de chuva.  Como estão numa área bastante ocupada, não podem receber projeto semelhante ao Calafate. A alternativa, segundo Aroeira, é a construção de um canal subterrâneo paralelo ao já existente. Contudo, tal medida tem caráter menos eficaz do que as bacias de detenção ao ar livre. "Em algumas situações, optamos pela solução subterrânea, quando temos urbanização já consolidada, como é o caso do bairro Prado, já que a desapropriação da população de uma região com alto custo imobiliário é inviável", afirma.
 
 

O projeto das bacias que controlam as águas é alvo de críticas entre os especialistas da área. De acordo com o coordenador geral do projeto Manuelzão, Marcus Vinicius Polignano, o problema das bacias é que, com o passar do tempo, elas vão sendo assoreadas. "Com isso, perdem a capacidade de absorção de água e as enchentes são inevitáveis. Se houvesse manutenção contínua, isso não aconteceria.” Para ele, a lagoa da Pampulha é um bom exemplo: "um terço de sua área física está ocupada com resíduos", diz. Outro problema destacado por Polignano é a canalização dos rios. "Eles encaixotam os cursos d’água e esperam que não transborde. Impossível", revela.
 
Thiago Mamede
Vila da Amizade, no bairro Calafate: local pode desaparecer com a construção do piscinão na região (foto: Thiago Mamede)
 

Os moradores do Calafate também não estão satisfeitos com a decisão da PBH. A Vila da Amizade, localizada exatamente onde será construída a bacia, desaparecerá por completo. O engenheiro elétrico civil e membro da associação dos moradores do bairro Paulo Roberto Sampaio Santos afirma que a PBH fez apenas duas audiências com os moradores da região e, nelas, apresentou o projeto. "Eles precisam discutir mais. Querem impor a bacia como fizeram com a rodoviária. Não vai dar certo. Não queremos que nossa região seja foco de dengue, como a Pampulha”, desabafa. De acordo com Ricardo Aroeira, as famílias atingidas serão indenizadas, removidas e reassentadas. "Faremos o pagamento em dinheiro ou oferta de nova moradia. Para aqueles que têm escritura, haverá a desapropriação da área, e não indenização, ou seja, tudo feito dentro da lei." Pelo visto, vem uma enxurrada de polêmica por aí.
 
Thiago Mamede
A barragem Santa Lúcia, entre os bairros Santa Lúcia e São Bento: o local é uma das principais bacias da capital (foto: Thiago Mamede)
 

A cidade das águas

Não fosse uma pequena ponte de ferro com corrimão pintado de vermelho, localizada ao lado do prédio do antigo colégio Imaco, ninguém saberia que dentro do Parque Municipal Américo Renné Gianetti, no centro de BH, passa um córrego – o córrego do Acaba Mundo. O curso de água nasce no sopé da serra do Curral, um pouco acima da praça JK, próximo à avenida Bandeirantes, e vem descendo ladeira abaixo, pelas avenidas Uruguai, Nossa Senhora do Carmo, Professor Morais e Afonso Pena, entrando no parque municipal ao lado do Palácio das Artes. Depois de cortar o parque, deságua no também canalizado ribeirão Arrudas. Por todo esse trajeto, suas águas correm integralmente em galerias fechadas de concreto.
 
O Acaba Mundo é apenas um dos córregos que desaparecem da paisagem urbana da capital mineira nos seus mais de 100 anos de existência. Ao Acaba Mundo somam-se, entre outros, os córregos do Leitão, da Serra e dos Pintos. Um a um, todos sucumbiram ao adensamento demográfico de Belo Horizonte, ocorrido ao longo do último século e, mais recentemente, ao aumento da frota de automóveis particulares. A cidade tem, ao todo, cerca de 700 km de córregos.

O próximo curso de água a sumir na região Centro-Sul será o ribeirão Arrudas. Na área central da capital, já está integralmente fechado em dois trechos, que somam 
2,5 km. Em fase final de obras está um terceiro trecho, de 1,6 km, que vai da avenida Barbacena até a rua Aquidabam, no Padre Eustáquio. O encaixotamento do Arrudas tem um nome: Boulevard Arrudas. A prioridade das obras é abrir espaço para mais pistas de circulação, principalmente para os automóveis particulares.
 
O córrego da Serra nasce no parque das Mangabeiras. Apenas em um pequeno trecho, justamente o que está dentro do parque, ele corre em leito natural. Depois de canalizado, ao sair do parque, percorre as ruas Capelinha, Palmira e Américo Scot, iniciando, ao chegar à avenida do Contorno, um trajeto mais “clandestino” ainda, pois passa por debaixo de quintais e fundações de prédios. No bairro Funcionários, sai da “clandestinidade”, percorrendo, sempre em galerias fechadas, as ruas Aimorés, Piauí e Maranhão, até chegar ao Arrudas. Sua foz é ao lado do Boulevard Shopping, em um trecho onde o Arrudas ainda corre a céu aberto. Mas será por pouco tempo, pois a prefeitura já trabalha para encaixotá-lo também naquele trecho.

O córrego do Leitão é o que corre sob a avenida Prudente de Morais e ruas Marília de Dirceu e São Paulo, em Lourdes, até chegar à rua Tupis. Quando esta encontra a rua Mato Grosso, já no centro de Belo Horizonte, o córrego do Leitão faz uma curva de quase 90 graus e segue por mais dois quarteirões até chegar ao Arrudas. O córrego dos Pintos nasce próximo à rua Estácio de Sá, no Gutierrez, e corre quase em linha reta debaixo da avenida Francisco Sá. Ao chegar ao final dela, um ponto tradicional de alagamento em chuvas fortes, o ribeirão passa pelo centro do quarteirão até chegar ao Arrudas, onde deságua.

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