Para eles, eu entrego meus filhos

Pediatras reconhecidos de BH dão lição de convicção e amor pela especialidade médica, que volta a fascinar estudantes, depois de perder prestígio nas últimas décadas. O vínculo com o paciente é tamanho que eles são considerados quase membros da família

04/11/2013 16:13

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.


"Se você não ama profundamente, não seja pediatra", vai logo avisando Filomena Camilo do Vale, a quem interrogamos sobre a profissão. E ela sabe o que diz. Filó, como é carinhosamente chamada, em seus mais de 20 anos de carreira já viveu experiências suficientes para advertir que a especialidade é uma vida de doação. E brinca: "Não basta gostar – se você só gostar, corre o risco de jogar a mãe e os filhos pela janela". Ela atua há mais de 20 anos no centro de terapia intensiva infantil da Santa Casa e no consultório particular. "Vejo meu trabalho como uma missão: de aliviar a dor, de ajudar a construir as crianças como pessoas inteiras e de auxiliar os pais nesse caminho", diz.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

Para a médica, a maior responsabilidade do pediatra é exatamente fazer parte da construção de futuros homens e mulheres e, para tal, conseguir ver o que é preciso ao longo da trajetória deles. "A linguagem da criança é outra. Quantas vezes meus pacientes vêm ao consultório para me contar, de alguma maneira, que há problemas em casa, que estão até mesmo sofrendo algum tipo de abuso! Se nós podemos fazer alguma coisa, é nessa hora", afirma.
 
Apaixonada pelo trabalho e totalmente envolvida com os pacientes, Filó não para e, muito menos, desliga o seu celular. Durante a entrevista de 40 min, foram mais de dez chamadas para seu número, todas devidamente retornadas. "Fico preocupada. Estou sempre disponível, com o telefone ligado 24 horas por dia. Se não posso atender, retorno depois, ou eu mesma me adianto para saber como a criança está. Um telefonema pode salvar uma vida", diz.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

Pediatra há quase 50 anos, Nelson Ribeiro Lobo Martins sabe bem a importância de um telefonema. Entre os casos marcantes de sua carreira, ele conta que, uma vez, a mãe de uma paciente ligou do aeroporto, pouco antes de embarcar com a família de Detroit para Las Vegas (EUA), porque percebeu manchas roxas na perna da filha. Conversando pelo telefone e dando orientações para a mãe sobre quais evidências procurar, Nelson desconfiou que a pequena estava com púrpura trombocitopênica idiopática, doença caracterizada pela baixa de plaquetas. "Falei com a mãe que ela não poderia embarcar e deveria ir direto a um hospital. Lá, o diagnóstico foi confirmado. A garotinha poderia ter tido hemorragia no avião", conta.
 
Nelson Ribeiro e seu filho, Nelson Conde, também pediatra, têm consultórios lado a lado, na mesma casa. Eles dividem, ainda, o amor pela prática de consultório, aquela tradicional, em que o médico se faz 100% disponível para o paciente e para os pais e pode abrir as portas para recebê-los até nos fins de semana, se preciso. "A primeira conexão do pediatra é com os pais, que são os intermediários da relação, principalmente quando a criança ainda não consegue descrever o que sente. Sabemos dessa demanda familiar e que os pais não gostam de ver o filho sofrer nem um pouquinho. Se o filho sofre, os pais sofrem junto", diz Nelson Conde. 'O pediatra acaba sendo também da mãe, do pai, um médico de família", completa.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

É impossível negar que uma ida ao pediatra é diferente da visita a qualquer outro médico. A puericultura, que é o acompanhamento holístico do desenvolvimento da criança, demanda consultas longas e completas, que não se prendem apenas ao sintoma, envolvendo também a orientação alimentar, prevenção de doenças, acompanhamento da vacinação e até conversas sobre sexualidade, quando é o caso. E a responsabilidade do pediatra nessa caminhada da criança só aumenta, à medida que a expectativa de vida cresce. “Estamos preparando uma geração que vai viver 100 anos. Nosso papel é não só que eles cheguem a essa idade, mas que o façam com qualidade de vida”, diz o neonatologista Marcos Vasconcellos. "Não adianta chegar aos 70 com doenças degenerativas e ficar dependente dos outros. Nosso papel é preparar essa criança para ser um adulto sadio aos 100 anos."

Outra peculiaridade da pediatria é a convivência com os pacientes, muito mais intensa do que em outros ramos da medicina. A começar pela frequência com que profissional e cliente se encontram: no primeiro ano de vida da criança, o número de consultas de rotina é uma por mês; até os 3 anos, uma criança adoece em média oito vezes por ano. Além disso, a duração desse vínculo é extensa, podendo ir do nascimento até os 19 anos. Dá para entender como, depois de certo tempo, fica difícil abandonar o profissional em quem se deposita tamanha confiança.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)
 
A estudante de economia Laura Carvalho, de 19 anos, está em processo de mudança de médico. Paciente desde os 7 da pediatra Raquel Pitchon, especialista em alergia e imunologia, ela brinca que só deixará o consultório quando a doutora mandá-la embora. "Tenho até outra médica que a Raquel me indicou, mas ainda não me soltei dela totalmente", conta a garota, que, em razão de alergias, frequenta o consultório cerca de três ou quatro vezes por ano. 'É uma pessoa que já me conhece e em quem confio. Ela pergunta sobre minha vida, quer saber como estou na faculdade... Não será nada fácil mudar para outra", diz Laura.

Esse cenário ideal de puericultura, em que a pessoa é acompanhada por um só médico ao longo da infância e adolescência, não tem sido, contudo, possível para todos, principalmente nos últimos 15 anos, quando a saúde suplementar se popularizou no país (hoje, já cobre 25% da população brasileira e 54% da mineira). Devido à má remuneração da consulta básica pelos convênios – o que obriga os profissionais a atender mais pacientes e de forma mais rápida – e à exigência de disponibilidade total característica da especialidade, a pediatria tem passado por uma crise. Faltam pediatras de consultório e, à medida que os pronto atendimentos foram ficando sobrecarregados, também neles diminuiu o número de profissionais.

Pedro Nicoli
(foto: Pedro Nicoli)
  
Segundo pesquisa do Conselho Federal de Medicina, são 40.425 médicos em Minas Gerais, dos quais 3.345 pediatras. Considerando que a população de zero a 19 anos no estado é de 6.113.063, conforme o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção médico/habitante nessa faixa etária é de 1 para cada 1.827, quase o dobro do que Organização Mundial da Saúde recomenda para a população geral. Também é possível notar a baixa popularidade da pediatria em termos de procura do título: em 2000, 148 médicos se inscreveram no Setor de Títulos e Certificados da Sociedade Brasileira de Pediatria para fazer a prova que confere o título ao médico. Em 2011, a procura caiu para 73. "O número é insatisfatório, e sabemos que vários municípios mineiros não têm especialistas em pediatria", diz Raquel Pitchon, que é presidente da Sociedade Mineira de Pediatria.
 
Além de médicos, faltam locais de atendimento, pois a especialidade também não dá lucro aos hospitais. Nos últimos cinco anos, 18 instituições de BH desativaram, total ou parcialmente, seus serviços de pediatria. Atualmente, apenas cinco mantêm atendimento 24h nessa especialidade. "Os hospitais têm optado por modelos de alta complexidade, que dão mais dinheiro em comparação a consultas e procedimentos simples, com uso de pouco material e medicamentos, como é o caso da pediatria", explica o pediatra José Guerra Lages, diretor administrativo-financeiro do Hospital Infantil São Camilo, um dos cinco a se manterem de portas abertas ininterruptamente na cidade e o hospital com maior número de atendimentos pediátricos ambulatoriais por mês do país. "O São Camilo continua vivendo porque esse era um sonho nosso, e não dá para simplesmente acordar e desistir", diz ele, que fundou a instituição há 33 anos, com outros oito pediatras.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)
 
O fechamento em cascata de serviços pediátricos na cidade mobilizou mães que se sentiram desamparadas em relação à saúde dos filhos. O grupo Padecendo no Paraíso, criado no Facebook para discutir questões relativas à maternidade, fez um abaixo-assinado virtual, com cerca de duas mil assinaturas, quando o Vila da Serra anunciou que fecharia seu pronto atendimento infantil, no início deste ano – decisão depois adiada pela instituição. "Resolvemos nos movimentar, pois não podíamos ficar sem mais um pronto atendimento", diz a criadora do grupo, a arquiteta Bebel Soares, mãe de um filho de 4 anos.
 
A boa notícia é que, após a escassez de pediatras pela qual o país tem passado há quase duas décadas, os médicos notaram a volta do interesse pela profissão dos recém-formados nos últimos dois anos. Segundo esses profissionais, o modelo continua desfavorável para a especialidade, mas algumas saídas têm atraído os estudantes: atendimento em CTI, especializações dentro da própria pediatria e atendimento em consultórios sem convênio ou limitando os dias em que aceitam planos de saúde — já que, pela baixa no mercado, tem sido mais fácil conseguir pacientes fora da saúde suplementar. "De dois anos para cá, temos percebido esse aumento do interesse. O número de recém-formados inscritos para fazer o concurso de residência pediátrica e neonatologia este ano na maternidade é duas vezes maior que o do ano passado", afirma a neonatologista Helayne Terezinha Alves Santos, diretora técnica da Maternidade Unimed BH. 

Pedro Nicoli
(foto: Pedro Nicoli)

O neonatologista Cláudio Pacheco concorda. "Tenho visto, sim, uma volta de procura pela pediatria geral; mas é preciso entender que o processo não é imediato, é gradual", aponta ele, que vive a realidade de consultório, mas também a do hospital, pois coordena a equipe de neonatologia do Mater Dei.

Cláudio faz parte do time de pediatras que tiveram a influência familiar na escolha da profissão. Seu pai, Fausto Pacheco, também é pediatra, e o zelo dele com os pacientes o encantou. Por isso, já no curso sabia que especialidade escolheria. "Sempre acompanhei essa vida do meu pai e o via muito feliz e realizado", conta Cláudio. Quem também faz parte desse grupo é o neonatologista Navantino Alves Filho, cujo pai foi o primeiro pediatra de BH. Assim como Cláudio, a convivência de Navantino com a profissão se deu desde pequenino: quando criança, acompanhava o pai nas visitas domiciliares e permanecia no carro esperando que ele voltasse com notícias do paciente. "Ele foi uma grande inspiração", diz Navantino Filho, que desde 1974 atende no mesmo local, onde era também o consultório do pai, ativo na profissão até os 82 anos.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

Para o pediatra, os recém-nascidos são a faixa etária mais desafiadora, mas também trazem grande gratificação quando passam saudáveis para outras fases da vida. Um dos casos mais marcantes em sua carreira é o de uma menina que nasceu com 900 g, na década de 1970. Numa época em que menos de 1% dos bebês com esse peso sobreviviam, houve uma mobilização para mantê-la viva. "Fizemos uma UTI na casa dela, pois, se ficasse no hospital, não sobreviveria. Levamos uma incubadora emprestada, contratamos enfermeira e sua alimentação era toda feita por sonda. Eu passava lá duas vezes ao dia para checar seu estado, e, no fim, ela resistiu", conta ele, com orgulho. "Ela cresceu e, hoje, seus filhos são meus pacientes. Ela foi uma mascotezinha na minha vida", completa.

"Gratificante", aliás, é uma palavra comum no vocabulário dos pediatras entrevistados. Desde acompanhar pacientes em quadros graves que conseguem se recuperar até ver uma criança crescer saudável, formar-se e convidar o médico para o casamento, são muitas as situações de orgulho pelas quais esses especialistas passam rotineiramente. 

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

O alergista e pneumologista Wilson Rocha Filho – também filho de pediatra – tem pequenas explosões de felicidade sempre que identifica uma alergia alimentar mal diagnosticada (segundo ele, 80% das crianças cujos pais o procuram falando que os filhos são alérgicos a algum alimento, após investigação, não têm alergia). "Não raro, fazemos exames no pequeno, damos leite para a criança e ela aceita sem problemas. Os pais têm choro de alegria! Vemos familiares trazerem sorvete para o paciente tomar. É uma situação relativamente comum, mas não deixa de ser emocionante", diz.

A postura e a atuação do pediatra podem marcar fortemente os pacientes, que, não raro, depois de adultos, retornam com os filhos. A dentista Ana Carolina Reis Vilela, de 39 anos, foi paciente de Nelson Ribeiro e não cogitou outro pediatra quando nasceu sua filha, Ana Luiza, hoje com 2 anos, o que se repetiu após o nascimento de Rafael, de 7 meses. "Quando cheguei do hospital, já liguei para ele para tirar uma dúvida. Nem pensei em outra pessoa", diz ela, que tem liberdade de procurá-lo até mesmo em casa, se sentir necessidade. "Eu cheguei à primeira consulta da Ana Luiza e ele puxou a minha ficha para resgatar o histórico! Essa familiaridade e confiança não têm preço", conta ela, que frequentou o consultório de Nelson até os 19 anos. "Ele me chamava, brincando, de bebezona, em comparação aos bebezinhos que estavam na sala de espera", lembra, com carinho.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)
  
Mas essa influência do médico pode ir além da relação com o paciente. A admiração pelo bom pediatra reverbera no mundo e se desdobra de outras formas positivas. O neonatologista Paulo Poggiali, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, emociona-se ao se lembrar do ortopedista Daniel Gonzalez. As duas famílias eram amigas e Poggiali se desdobrou para cuidar do irmão de Daniel, que para tristeza de todos morreu de um câncer cerebral em 1994, aos 13 anos. Pela assistência que o pediatra deu ao garoto doente e pelo apoio que proporcionou aos familiares, Daniel lhe disse que seria médico, por causa dele. "E isso compensa a profissão, não é mesmo?", diz Poggiali, com lágrimas nos olhos.

O ortopedista conta que foi a forma como Poggiali deu assistência ao irmão e aos pais de Daniel, confortando-os e ajudando-os a aceitar o diagnóstico, que o marcou profundamente. "Percebi a diferença entre o médico que nos deu a notícia, de forma fria e impessoal, e o Paulo, que foi extremamente atencioso o tempo todo, mesmo não sendo o médico do meu irmão. Aquela atitude dele foi uma das coisas que me motivaram a querer ser médico", diz o ortopedista Daniel Gonzalez. "Ele é um exemplo do que aprendemos na escola e procuro seguir na minha carreira: a medicina não é um negócio; seu objetivo primeiro deve ser servir à sociedade."

Últimas notícias

Comentários