Ai de ti, Santa Tereza

Moradores do tradicional bairro da região Leste de BH temem que projetos viários, expansão imobiliária e a construção de uma escola técnica acabem com a qualidade de vida e se mobilizam para preservar a região

05/11/2013 15:37

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.


João Carlos Martins
O engenheiro agrimensor Ernandes Pereira dos Santos e sua filha Bárbara, de 2 anos: "Vim para cá pela tranquilidade. Não vejo com bons olhos a verticalização, avenidas largas e mudanças nas características marcantes do bairro" (foto: João Carlos Martins)

Se um escritor recebesse, hoje, a tarefa de escrever um livro sobre o tradicional bairro de Santa Tereza, na região Leste de Belo Horizonte, já no prefácio ele poderia pontuar sobre o Clube da Esquina, movimento cultural com raízes na década de 1970, sobre a tão marcante boemia e sobre sua atmosfera interiorana, onde nas manhãs ainda é normal se dar "bom dia" e, ao entardecer, toca-se a Ave Maria. Entretanto, o escritor não poderia iniciar a obra sem o desenrolar de uma série de projetos viários e imobiliários que têm a velha Santê (forma como o bairro é carinhosamente chamado pelos moradores e frequentadores) como alvo. Para os moradores, tais projetos acabariam com o sossego e o ar puro do bairro. Aos 115 anos, completados em outubro, Santa Tereza começa a sentir os efeitos de uma cidade que não tem mais para onde crescer.
  
O imbróglio começou quando veio à tona, no fim de 2012, o projeto de instalar, no mercado distrital do bairro, fechado há seis anos, uma escola automotiva do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), que faz parte do sistema da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Para isso, seria necessário flexibilizar a lei da Área de Diretrizes Especiais (ADE), na qual o bairro está inserido. Além de limitar o tamanho das edificações gerais em 15 metros (um prédio de três andares, por exemplo), a lei, aprovada em 1996, estabelece que uma escola não pode ocupar mais do que 400 m², sendo que o mercado tem cerca de 6 mil m².

A arquiteta e urbanista Karine Gonçalves Carneiro, uma das representantes do Movimento Salve Santa Tereza (criado em 1996 e reeditado agora justamente para preservar o bairro), questiona como o projeto do mercado foi apresentado e votado pelo Conselho Municipal de Políticas Urbanas (Compur), que reúne representantes do poder público e da sociedade civil. "Tudo foi feito sem discussão. Se esse projeto passar, será um grande atentado contra a ADE", afirma Karine. O movimento acredita que o projeto abrirá um precedente para que outros planos que vão de encontro à lei sejam implantados no bairro. Numa única palavra: verticalização.

O secretário de Desenvolvimento de Belo Horizonte e presidente do Compur, Custódio Mattos, afirma que o projeto do mercado foi discutido com os moradores, mas garante que haverá tempo para novos debates. "Não é um projeto isento de polêmica e quem é contra deve se organizar realmente", diz. De acordo com Mattos, não houve desrespeito à ADE. "Tudo foi feito à luz da própria lei e ela permite que o Compur autorize o uso de maneira compatível com as leis", diz. Em outubro, foi iniciado um estudo de impacto ambiental para saber se o projeto é mesmo viável.

João Carlos Martins
Orlando Silva de Siqueira, proprietário de um bar há mais de 30 anos na rua Conselheiro Rocha: "Se de fato houver a expansão, nem sei para onde vou" (foto: João Carlos Martins)

Para Edmar Fernando de Alcântara, gerente de educação profissional do Senai, há muita falta de informação dos moradores sobre o projeto. "Não vamos construir nada lá, há previsão apenas de uma reforma. O estacionamento do mercado será uma grande praça de lazer e cultura, com pista de cooper, academia e outros atrativos para a população. E não serão 4 mil alunos, como vem sendo falado e, sim, cerca de mil estudantes por dia, divididos em três turnos", diz. Edmar declara ainda que está sendo firmado convênio com a Escola Estadual Pedro Américo, que fica ao lado do mercado distrital, na rua São Gotardo, cujas salas de aulas serão utilizadas para cursos teóricos. A maior escola automotiva do Senai no estado fica em Betim, na região metropolitana, com cerca de 1.500 alunos. "Não há plano B. Se o projeto declinar, BH ficará sem uma escola automotiva, sendo que é na capital que temos a maior demanda de estudantes de 16 a 25 anos", diz. A pedido da Fiemg, uma empresa de pesquisa aplicou um questionário para saber a opinião dos moradores sobre o empreendimento.

Marcos Milton Borges, o Yé Borges (irmão do cantor e compositor Lô Borges), de 60 anos, conhece bem a polêmica em torno do mercado distrital. Durante o seu mandato (2004-2008) como presidente da associação dos moradores do bairro, o mercado quase se transformou em sede da Guarda Municipal. O projeto da PBH não foi em frente, depois de um pebliscito no qual 93% dos moradores votaram contra. "Chegamos também a elaborar um projeto autossustentável que transformaria o espaço em Mercado Mineiro, com feirantes e oficinas de cultura e arte, mas também não foi aceito", diz. Para Yé, o mercado tem de continuar sendo um espaço de convivência da comunidade.

As críticas do Movimento Salve Santa Tereza também se voltam para um empreendimento ousado anunciado em 2012. Trata-se de uma torre de 350 metros de altura e 85 andares, próxima às famosas "torres gêmeas", espigões localizados na rua Clorita, também no bairro. Os edifícios, erguidos na década de 1970, não chegaram a ser concluídos, já que as construtoras faliram. Hoje, os prédios estão desocupados e, segundo a proposta do escritório mineiro de arquitetura FarKasVölGyi, responsável pelo projeto, passariam por um retrofit (revitalização) e seriam parte de um grande complexo ao lado da torre gigante. A previsão é de que as obras comecem após a aprovação da Operação Urbana Consorciada (OUC) pela Câmara Municipal.

João Carlos Martins
Yé Borges, irmão de Lô Borge e ex-presidente da associação de moradores: "Chegamos a elaborar um projeto que transformaria o mercado distrital em espaço para feirantes e oficinas de cultura e arte, mas não foi aceito" (foto: João Carlos Martins)
 
A OUC, megaprojeto da PBH que pretende direcionar o crescimento da capital nos próximos 20 anos, tem Santa Tereza como um dos alvos. No projeto, o bairro está inserido numa área chamada "quadra de preservação", no intuito de manter seu patrimônio. Contudo, o potencial construtivo vai dobrar, passando de 1,0 para 2,0. Significa que em um  terreno de 1.000 m², será possível construir até 2.000 m². Entretanto, o assunto deverá ser debatido entre poder público e comunidade, até por que carece de mais informações detalhadas. "Estamos percebendo que o mercado imobiliário no Santa Tereza está mais agressivo. Estamos com medo de que o bairro se transforme em um novo Buritis", diz Karine, referindo-se ao bairro da região Oeste da capital cujas principais características são prédios altos e trânsito permanentemente congestionado.

Somado a isso, o movimento também está de olho num possível alargamento da rua Conselheiro Rocha, que fica entre as avenidas do Contorno e Silviano Brandão. – uma das possíveis consequências da OUC. O projeto ainda não tem data para sair do papel. Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento, a rua Conselheiro Rocha seria utilizada para, caso fosse necessário, melhorar o tráfego na região. Ela se transformaria em mais um corredor para desafogar o trânsito na avenida do Contorno.
 
No local, Encontro apurou que alguns empreendimentos estão sendo construídos obedecendo a uma nova distância da rua. Caso a expansão se concretize, é inevitável que ocorram desapropriações, até porque, em determinados trechos, só passa um veículo por vez. Orlando Silva de Siqueira, de 59 anos, há 33 tem um bar na rua Conselheiro Rocha – o tradicional Bar do Orlando. "Se de fato houver a expansão, nem sei para onde vou e, além disso, será péssimo para o bairro, trazendo muito trânsito e outras demandas que ainda não existem, como os prédios", afirma. O artista plástico Antônio Castelo Branco, de 56 anos, há 15 tem um ateliê na rua. "Gostaria de saber para quem os homens de lá estão governando", diz.
  
O multi-instrumentista Gabriel Guedes, filho do cantor e compositor Beto Guedes, mora em Santa Tereza. "Vamos lutar até a última instância para não deixar esses projetos acontecerem. Isso aqui não é uma empresa. É um desrespeito com os moradores do bairro e com a cidade", diz. O engenheiro agrimensor Ernandes Pereira dos Santos, de 33 anos, também está preocupado com os rumos que o bairro vem tomando. Ele escolheu Santa Tereza para criar a sua filha, Bárbara, de 2 anos, motivado pelo sossego e pelo ar puro da região. "Vim para cá pela tranquilidade. Não vejo com bons olhos projetos que tragam verticalização, avenidas largas e que mudem as características marcantes do bairro", diz.

João Carlos Martins
Arquiteta e urbanista Karine Gonçalves Carneiro, representante do Movimento Salve Santa Tereza: "Tudo foi feito sem discussão. Se esse projeto passar, será um grande atentado contra a lei" (foto: João Carlos Martins)
 
Para a aposentada Sandra Carmo Santos, que acompanhou o filho, o desenhista Lucas Rafael Santos, de 30 anos, durante um dos protestos na praça Duque de Caxias, "o progresso pode ser bem-vindo de outras formas, sem tirar a qualidade de vida das pessoas". A discussão é ampla e passa por uma reflexão sobre o crescimento da cidade. A arquiteta e urbanista Cláudia Pires integrou o Compur e foi um dos votos vencidos na aprovação da mudança de uso do mercado distrital de Santa Tereza. Sobre os projetos viários, Cláudia afirma que deveriam ser melhor discutidos com a população. A especialista lança algumas perguntas sobre o projeto de crescimento da cidade. "De que forma Belo Horioznte quer crescer? Existem soluções regionais ou só locais? Vamos fazer sempre a opção de seguir as premissas do mercado imobiliário? Que cidade queremos?"
 
O arquiteto e urbanista Flávio Carsalade, professor da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), acredita que cortar o bairro com uma avenida não é a melhor solução viária para a região, até porque prejudicaria os moradores. "Há formas de melhorar o entorno e ao mesmo tempo preservar o bairro", diz.
 
Esse, aliás, parece ser o principal desafio das grandes cidades: conciliar crescimento com qualidade de vida. Tomara que, no caso de Santê, a história tenha um final feliz.

João Carlos Martins
José Maria Rocha (o Bolão, sentado) e o irmão Silvio: "Uma história de 52 anos não poderia acabar" (foto: João Carlos Martins)

O Bolão é nosso!

Em meio à desconfiança sobre o futuro do bairro, há uma boa notícia para os moradores e clientes do tradicional restaurante Bolão, há 52 anos localizado na esquina das ruas Mármore e Adamina, na praça Duque de Caxias. O casarão que abriga o estabelecimento, tombado em 2011, foi comprado em 14 de outubro, colocando fim a uma negociação que se arrastava havia dois anos. Os novos donos – um casal de médicos –  já revelaram que gostariam de manter o restaurante no local. Silvio Eustáquio Rocha, de 67 anos, que ao lado de José Maria Rocha, o Bolão, administra a casa, afirma que a família ficou satisfeita com a possibilidade de conservar o restaurante no mesmo endereço, embora tenha outro imóvel na praça. A vontade, tanto da família quanto dos novos proprietários, é de que o imóvel seja reformado. "Já estávamos querendo melhorar a casa, mas com esse impasse tivemos de esperar, pois não sabíamos se continuaríamos aqui", diz Silvio. Contudo, uma coisa que não deve e nem precisa mudar é o tempero do macarrão e do Rochedão (prato bem servido com arroz, tropeiro, carne, fritas e couve), os principais atrativos do restaurante. "Uma história de 52 anos não poderia acabar assim", diz Silvio.

Últimas notícias

Comentários