Brinquedo de gente grande

Com equipamentos modernos, caros e sofisticados, o aeromodelismo ganha cada vez mais adeptos no estado. E exige preparo, tempo e dedicação de quem realmente deseja ser um bom piloto

por Rafael Campos - Revista do Correio 06/11/2013 13:23

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Léo Araújo
Humberto Trindade Ciatti constrói suas aeronaves: "Para quem está começando a voar, o pouso é o mais complicado, porque a pessoa não tem a noção da exata inclinação e da velocidade do avião" (foto: Léo Araújo)

Para leigos, é um brinquedo de gente grande. Para os amantes do hobby, aeromodelismo é sinônimo de paixão e coisa séria. Dominar do chão uma aeronave que pode alcançar a velocidade de um jato e se movimentar como um avião real não é coisa de criança. E, antes que alguém diga, não se trata também de pilotos frustrados. "Quando morrer, quero ser cremado aqui. E, no céu, vou continuar voando", afirma o engenheiro eletrônico Roberto Samy Assad, de 56 anos, o Robertinho, olhando para a pista que ajudou a fundar na Associação Mineira de Aeromodelismo (AMA), no Jardim Canadá, em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte. Além da AMA, existe a União Mineira de Aeromodelismo (UMA), no distrito de Ravena, também na Grande BH. Ambas são filiadas à Confederação Brasileira de Aeromodelismo (Cobra).
  
Robertinho, uma das referências na modalidade no estado, diz que se apaixonou pelo mundo dos aviões em miniatura quando tinha 8 anos. "Estava passeando com meu pai no terreno onde, hoje, é o BH Shopping, no Belvedere, quando vi um rapaz 'batendo motor'", diz, lembrando o momento no qual o aeromodelista empurra a hélice para ligar o motor do avião. O esporte, como Robertinho gosta de dizer, entrou no sangue e nunca mais saiu. Ele uniu o útil ao agradável ao se tornar engenheiro eletrônico, quando pôde aplicar o ofício em seu hobby. "Meu grande prazer é vir aqui e ajudar essa turma toda a construir e consertar aviões. Essa é minha vida", afirma. 

Bruno Visconte dos Santos, de 24 anos, além dos 12 aviões, guarda com carinho vários troféus. Ele é o atual Campeão Brasileiro de F3A, espécie de Fórmula 1 do aeromodelismo. O rapaz é também especialista no voo 3D, modalidade que reúne acrobacias radicais, na qual o que conta é a criatividade e talento do praticante, com o rádio nas mãos. Ao fazer a demonstração para produção das fotos desta reportagem, Bruno surpreendeu a todos por abusar das manobras radicais com o seu modelo Extra 300, mesmo num dia em que o vento não favorecia. "É um prazer que não tem explicação", afirma Bruno, que todo fim de semana reserva boas horas para voar. Quando ainda engatinhava na modalidade, o jovem conta que abusava das manobras radicais bem no alto, longe do chão, para não ter dor de cabeça com as possíveis colisões. Mas quando aprendeu... "Passei a fazer rasantes e destruir algumas aeronaves, mas não desistia até acertar", afirma.

Foto: Léo Araújo
(foto: Foto: Léo Araújo)
    
Além de voar, os aeromodelistas gostam é de se encontrar e trocar ideias sobre novos equipamentos, acessórios e reforçar a amizade em torno do hobby. Numa manhã de domingo, na AMA, o engenheiro Rodrigo Soares Aroeira, de 52 anos, estava, com ajuda dos amigos, montando o seu quinto avião, adquirido em um dos sites especializados em aeromodelismo. "Voo só para me divertir, mas acaba se tornando um desafio, pois sempre existe o risco de derrubar o avião e, além disso, a situação do vento pode mudar de repente", diz. O representante comercial de bebidas Eduardo Alberto Generoso, de 43 anos, faz piada com a paixão pelos aviões. "O que eu vendo de cachaça lá, eu gasto com essa cachaça aqui". Para o chef de cozinha Enrico Biadi, de 38 anos, aeromodelismo representa uma espécie de válvula de escape para o estresse da semana. "Você se desliga do mundo", afirma.
 
A gama de detalhes dos aeromodelos impressiona. Há exemplares que imitam fielmente um avião real, como caças, jatos e biplanos. Até o piloto pode ser devidamente paramentado e ganhar movimentos. Quanto maior a riqueza de detalhes, mais caro é o modelo. O empresário Antônio de Pádua, de 44 anos, frequenta, como ele próprio afirma, "todos os clubes de aeromodelismo". Ele tem nada menos do que 60 aeronaves, das quais 25 são jatos. Esses podem ultrapassar a velocidade de 500 km/h. É complicado "pilotar" um jato? "É relativamente simples, mas quem quiser aprender sozinho pode acabar desistindo. É como tirar carteira de habilitação", diz.
    
O grande mercado do mundo, a China, também passou a comercializar aeronaves, rádios e outros acessórios, o que ajudou a popularizar o esporte por aqui. Com pouco mais de R$ 600 (sem impostos) é possível adquirir um kit completo de aeromodelismo. Contudo, quem entende do assunto afirma que a compra de modelos do país asiático deve ser feita com parcimônia, devido à qualidade de certos equipamentos, que não têm um bom custo/benefício. 
                     
Há quem resista às facilidades de adquirir um aeromodelo pronto para voar. Humberto Trindade Ciatti, de 53 anos, constrói suas próprias aeronaves a partir da madeira bruta. Há 26 anos no aeromodelismo, Humberto participou da fundação da UMA. Devido a sua larga experiência no esporte, Humberto sempre é chamado para ajudar aeromodelistas experientes e iniciantes. "Para quem está começando a voar, o pouso é o mais complicado, porque a pessoa não tem a noção da exata inclinação e da velocidade do avião, é tudo apenas visual", conta, ao lado de seu modelo Extra 330S, com 40% do tamanho real.

Fotos: Léo Araújo
(foto: Fotos: Léo Araújo)

Pablo Azevedo Alves, de 38 anos, presidente da AMA, que também se apaixonou pelo esporte na infância, acredita que ao contrário de um simples brinquedo, a prática proporciona maior socialização e troca de experiência. "A antiga geração continua se reunindo, conversando e trocando informações sobre o equipamento, que evolui a cada dia, possibilitando novas configurações", diz. 

O aeromodelismo deve ser praticado com todo o cuidado. O primeiro passo para quem deseja iniciar-se no esporte é procurar um clube especializado. "O que observamos é que muitas pessoas realizam voos em locais inapropriados, como em ruas e perto de residências", diz Pablo. Quem também faz questão de alertar sobre os riscos de voar fora de ambientes apropriados é Leonardo Amaral de Carvalho, de 51 anos, presidente da UMA. "Imagina um avião de 2 kg caindo num carro ou atingindo uma pessoa?", compara. Leonardo aprendeu a coordenar os movimentos da aeronave no estacionamento do estádio do Mineirão, na Pampulha, numa época em que voar na região era comum. Não é raro, entre os praticantes, o discurso de que a técnica usada para conduzir um aeromodelo se assemelha bastante ao que acontece num voo de escala real. Wolfgang Josef Sicherl, de 37 anos, é instrutor de helimodelismo na AMA. Ele já tem a carteira de piloto privado de avião real e está finalizando o de piloto privado de helicóptero. "O grau de dificuldade de conduzir um aeromodelo é o mesmo de estar dentro de uma aeronave real", afirma.

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