O anjo da guarda de Aleijadinho

Livro mostra como a dedicação de um funcionário público mineiro, nascido em 1889, em Ouro Preto, foi fundamental para provar que as obras da igreja de São Francisco de Assis são realmente de autoria do mestre do barroco

06/11/2013 15:16

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Arquivo Público Mineiro
Autodidata, seu Manoel trabalhou como revisor da Revista da Semana, no Rio de Janeiro: posteriormente, seria disciplinador na Escola de Farmácia de Ouro Preto, hoje pertencente à Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) (foto: Arquivo Público Mineiro)

Foi o historiador italiano Carlo Ginzburg, nos anos 1960, um dos primeiros intelectuais europeus a escrever sobre a importância dos anônimos. Acostumados a estudar apenas os grandes nomes da história, como Napoleão ou Stálin, o refinado escritor chamava a atenção dos seus colegas para um protagonista que, até então, passava despercebido: o homem comum. Figuras como o ouro-pretano Manoel José de Paiva Junior. Personagem desconhecido do grande público, seu Manoel, como carinhosamente era chamado pela população da antiga Vila Rica, é um dos nomes mais importantes quando o assunto é barroco. Graças à sua dedicação e amor à arte, a história pôde comprovar, por exemplo, que as obras da igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, eram de fato de Aleijadinho – cuja morte, por sinal, completará 200 anos em 2014.
 
"Ele foi mesmo fundamental para a nossa cultura", atesta o historiador Amilcar Vianna Martins Filho. "E, embora bastante reconhecido pelos principais estudiosos do período, como Germain Bazin, Curt Lange e Manuel Bandeira, pouca gente fora da academia sabe da importância do seu trabalho", conta Amilcar, que, com o lançamento do livro Em Defesa do Patrimônio: a correspondência entre Manoel José de Paiva Junior e Rodrigo Melo Franco de Andrade, pretende diminuir, em parte, a ignorância do grande público sobre esse importante personagem. Já o belo-horizontino Rodrigo Melo Franco de Andrade foi advogado, escritor e jornalista. Em 1936, por indicação dos escritores Mário de Andrade e Manuel Bandeira, o então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, convidou-o para organizar e dirigir o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Foi nessa condição que ambos se conheceram, e foram amigos até a morte do escritor, em 1969.
 
O interesse pela história de Ouro Preto começou ainda cedo na vida de seu Manoel. Seu bisavô, o alferes Caetano Simões de Paiva, sua avó Veridiana Francisca de Paiva (Dona Simplícia) e seu pai, Manoel José de Paiva, eram irmãos da Ordem Terceira de Nossa Senhora das Mercês. O convívio diário, desde cedo, com os monumentos barrocos acabaria despertando o interesse do então garoto pela história mineira. "Ele cuidou, durante toda a vida, de um grande número de documentos que, no começo do século passado, antes da criação do Iphan, estavam complemente à míngua, estragando nos porões das igrejas", conta Amilcar. Manoel também passou parte da vida no Rio de Janeiro, onde, por exemplo, acompanhou o enterro de Machado de Assis, em 1908.

Arquivo Público Mineiro
Manoel de Paiva e Renato Soeiro, um dos organizadores do Sphan: dedicação ao barroco fez com que seu trabalho, até então desconhecido, ganhasse importância nacional na cultura do país (foto: Arquivo Público Mineiro)

Foi o cuidado com o patrimônio que garantiu a comprovação de que as obras da igreja de São Francisco de Assis são de Aleijadinho. A papelada que prova ser a famosa igreja autoria do mestre do barroco foi salva por ele de uma fogueira. "Um dia, durante uma faxina no consistório da igreja, alguém cismou que aqueles papéis velhos não tinham nenhuma serventia e decidiu queimar tudo. Manoel salvou a documentação que provava a autoria de Aleijadinho na igreja", conta Amilcar. Sem Man oel, a história poderia ser diferente.

O jornalista Ângelo Oswaldo, outro admirador de Manoel, conta que foi graças a sua dedicação para conservar a matriz de Antônio Dias e as igrejas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora das Mercês e Perdões (Mercês de Baixo) que Rodrigo Melo Franco Andrade o chamou para atuar no Iphan. Manoel se transformaria num colaborador extraordinário – uma espécie de braço direito de Rodrigo. "Ele copiava à mão – num tempo em que nem o xerox existia – documentos de interesse do Iphan que eram por ele pesquisados nas paróquias de Antônio Dias e do Pilar", conta Ângelo. "E o fazia com sua letra esplêndida, à maneira dos melhores calígrafos do século XVIII", explica.
  
"Creio que foi a intuição do amor à causa pública e a afeição pela verdade o que atraiu primeiramente a atenção de Rodrigo para a personalidade de Manoel de Paiva", escreveu Clara Alvim, filha de Rodrigo, no prefácio do livro. "E o fez antever, nele, a possibilidade de acrescentar às características de homem religioso, cuidador dos bens das igrejas que sabia ser patrimônio inestimável, as do investigador a ser paulatinamente formado pela escola exigente daqueles primeiros tempos do Iphan", finaliza Clara.

Reprodução: Cláudio Cunha
O jornalista e historiador mineiro Rodrigo Melo: descobridor e maior incentivador do trabalho de seu Manoel (foto: Reprodução: Cláudio Cunha)

Carta entre amigos

Já doente, prestes a submeter-se a uma operação cardíaca (na qual viria a falecer), Rodrigo Melo Franco de Andrade ainda conseguiu buscar forças para escrever ao amigo de Ouro Preto. Sem que o criador do Iphan soubesse, a carta seria a última. Uma espécie de despedida. Confira um pequeno trecho: 

“Rio de Janeiro, 5 de maio de 1969 Caro amigo Snr. Manoel de Paiva, Demorei esta resposta devido à sua boa carta de 16 de março, porque tenho estado doente desde o princípio do ano. Mas, como devo ser operado dentro dos próximos dias, não quero deixar de escrever antes ao Senhor (...) O zelo e o desvelo com que o Senhor, por longos anos, protegeu o monumento e todos os valores a ele pertencentes nunca lhe serão agradecido bastante.

Amigo e velho admirador Rodrigo M. F. de Andrade”

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