O mistério do livro que encolheu

por Claudio de Moura Castro 07/11/2013 12:48

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Quando Neymar passa a bola entre as pernas do seu adversário, isso pode refletir uma centelha de genialidade, mas, antes de tudo, é o domínio da técnica de controle da bola, fruto de muito treino. Para José Saramago, Prêmio Nobel de literatura, as palavras são as ferramentas do escritor. Portanto, ele precisa ter total domínio sobre elas.

Pelo mesmo raciocínio, a ferramenta do estudante é estudar. Mas como estudar sem saber como? Bem ou mal, os estudantes estudam, mas Deus sabe como! Perdem tempo, se aborrecem. Aprendem pouco. Quando acham que aprenderam, logo esquecem a lição. 


Mas isso tem remédio. A arte de estudar é coisa que se aprende. Ironicamente, a escola ensina muitas coisas, até demais. Contudo, não ensina a estudar. Não precisamos entrar em teorias complicadas do processo cognitivo para entender alguma coisa sobre o funcionamento da nossa cabeça. Um traço importante da nossa mente é que o conhecimento precisa de um esqueleto, uma estrutura, um chassi guardado na memória, para que os detalhes possam ser nele encaixados e façam sentido. 

Olhamos atemorizados para o livro que precisa ser lido. Trezentas páginas! Como é possível lembrar-se disso tudo? Parece tarefa sobre-humana. Mas não é. Vejamos.

Você está em uma situação de grande perigo e precisa comunicar-se com alguém que pode ajudá-lo. Mas precisa decorar e jogar fora o papel com o código secreto ao lado. 

Não parece ser muito fácil. Dependendo da memória de cada um, pode levar um bom tempo para ser capaz de se comunicar nessa linguagem cifrada.  Mas será que há uma maneira de decorar todos esses códigos em cinco segundos?


Na verdade, há. Veja a seguir  a fórmula mágica! Note que é rigorosamente a mesma informação, só que a primeira lista não encontra qualquer ressonância no nosso cérebro. Já a segunda dá um clique: é um jogo da velha! Entendida a fórmula, podemos guardar tudo na cabeça, com a maior facilidade.
 
Portanto, se vamos aprender alguma coisa, antes de mais nada, é preciso buscar alguma estrutura lógica para nela ir pendurando as informações necessárias. Se quisermos decorar o nome das peças de um automóvel para o exame do Detran, por exemplo, poderíamos tomá-las a esmo e ir decorando. Contudo, fica muito mais fácil pensar nos diversos sistemas de um carro e estudar os nomes das peças dentro de cada conjunto. Assim, a suspensão tem os amortecedores, as molas, os estabilizadores. No motor, há os pistões, os anéis de segmento, as válvulas. E assim por diante. A "teoria do automóvel" nos ajuda a organizar e facilitar o processo de memorizar cada peça. 
 
Se fossem dez páginas da lista telefônica, seria impossível lembrar. Curiosamente, 300 páginas de um livro sério pode virar uma empreitada fácil. Por que será? A resposta, enigmática, é que o livro encolhe. Como assim?

A explicação tem a ver com a existência de uma estrutura lógica em um bom livro. Há algumas ideias centrais que estruturam o pensamento a ser transmitido. É como se fosse a espinha dorsal de um animal. Em torno dela, articulam-se ideias secundárias e, finalmente, os músculos e cartilagens, que são os fatos, os exemplos, os detalhes. 


Começamos tateando, na busca dos contornos dessa ideia central. Aos poucos, a espinha dorsal começa a se delinear, ficando as ideias mais claras. O resto da informação, isto é, os fatos e os detalhes, vai encontrando os seus lugares nesse todo articulado. 

O que parecia um tarefa invencível se transforma em um conjunto compreensível. As grandes ideias criam ganchos para pendurar os detalhes. E os detalhes ajudam a entender o grande esquema. 

O livro enorme, de 300 páginas, encolhe e cabe na nossa cabeça. Se começamos a esquecer o que diz, basta passar os olhos no índice, volta tudo. Ou seja, o livro encolheu e virou o seu índice. 

O catálogo de dez páginas continua impossível, pois não tem lógica ou estrutura. Irremediavelmente, é uma pilha de números desconexos. Mas a lógica interna do livro faz com que seja absorvido em nossa mente e facilmente lembradas as suas ideias e até boa parte dos seus detalhes. Eis a mágica do livro que encolheu.

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