"Mães e filhos não se escutam"

Psicanalista e autora do livro Carta ao Filho fala sobre as dificuldades da relação entre pais e filhos, a importância de ouvir e sobre como é preciso fugir do ainda recorrente mito da "boa mãe"

10/12/2013 15:53

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Geraldo Goulart
(foto: Geraldo Goulart)
 
 
"A partir do dia em que você foi concebido, eu não imaginei mais a minha vida sem a sua. E você agora não quer falar comigo, não responde aos meus e-mails, não atende o telefone. Como se a nossa história não existisse... O que resta é escrever esta carta." É com esse apelo de mãe que a psicanalista Betty Milan termina a primeira página do livro Carta ao Filho, sua publicação mais recente, lançada em abril. A obra começou como uma carta de fato, que a médica decidiu escrever como forma de se reaproximar do filho, Mathias Mangin, de 31 anos, com quem tinha tido um desentendimento, depois do qual ficaram semanas sem conversar. Betty escrevia para estar com o rapaz; para torná-lo presente sem procurá-lo antes da hora – e, como psicanalista que é, para tentar rever sua relação com ele. 

Com isso em mente, sentou-se para analisar sua forma de ser mãe, os motivos que levaram ao afastamento do filho e repassar suas próprias questões: a origem libanesa, o tempo que passou tendo sua formação com Jacques Lacan, em Paris, o casamento aberto com o marido, Alain Mangin, a vida entre Brasil e França, a paixão que a levou a manter um amante por anos, entre outros sentimentos, acontecimentos, dúvidas, realizações. Depois de conseguir a tão desejada reaproximação – na qual, segundo ela, a carta teve papel importante –, resolveu publicá-la. Ela diz que a escolha de tornar pública parte de sua vida veio quando chegou à conclusão de que os motivos que a levaram a fazer o texto eram as mesmas dificuldades por que passam muitas outras mulheres: não se ensina a maternidade, e é por isso que toda mãe está sujeita a erros. 

Autora de peças de teatro, romances, ensaios e crônicas, a paulistana de 69 anos veio a Belo Horizonte em novembro para lançar seu livro no projeto Sempre um Papo. Na ocasião, conversou com Encontro sobre a relação entre pais e filhos, conflito de gerações, a importância do desapego e sobre o momento em que a mãe deve dizer ao filho: "Vá" – e, a partir daí, reinventar a própria vida. "E reinvenção é sempre bom", afirma ela.

1 | ENCONTRO - O que a motivou a escrever o livro?
BETTY MILAN - Meu filho, que já morava fora de casa, na França, veio passar um tempo no Brasil, e foi difícil para ele voltar a morar na casa da mãe. Foi complicado dividirmos a mesma casa depois de tanto tempo tendo morado separadamente, e ele decidiu se afastar, sair de lá. Na verdade me dei conta, quando nos desentendemos, de que o desentendimento era datado de mais tempo. Mas, graças à carta, ele se reaproximou.
 
 

2 | E por que a escolha de escrever para tentar a reconciliação?
A carta era um instrumento de estar junto com o meu filho e, ao mesmo tempo, rever a relação com ele. Mas eu não tinha a intenção de publicá-la. Só que, à medida que ia escrevendo, eu me dava conta de que o conteúdo era universal. Eu tratava da minha relação com meu filho, mas ia descobrindo que a minha questão também era das outras mães.  

3 | Qual é essa questão comum entre as mães?
Ninguém ensina ninguém a ser mãe. Todas elas estão expostas aos erros, porque filho é um só, cada qual diferente do outro. Portanto, não existem modelos que sejam verdadeiros para a mãe seguir, embora todo o século XIX tenha produzido e reproduzido modelos. Foi nessa época que surgiu o mito da boa mãe: aquela infalível, que se limitava aos afazeres domésticos, que não falava de si. Existe essa reprodução de ideias de como mães devem se comportar, e as pessoas obedecem a esses imperativos. Ao escrever esse livro, fui rompendo um tabu em relação à mãe falar de si, dos seus erros, seus sentimentos.

4 | E que lições a sra. tirou dessa carta?
O que eu aprendi é que a mãe precisa escutar. Não há saída. Como cada filho é diferente do outro, se você não o escutar, observar, você não sabe como está o seu filho. Normalmente, as mães não escutam, e os filhos também não. Não existe a ideia de que filhos devam escutar a mãe, e mãe nenhuma fala dos seus sentimentos.

5 | No passado, o modelo de uma mulher para ser mãe era a própria mãe. Continua sendo assim?
Inevitavelmente, mas é isso que nós precisamos superar, porque as nossas mães ainda são mais arcaicas, então, o modelo tem de ser questionado. E isso só pode ser feito a partir da escuta do filho, porque é através disso que você encontra seu modo de comportamento possível e necessário.

6 | E essa dificuldade em deixar o filho partir é vivida por toda mãe?
Sim, isso é inevitável. Não vou dizer que a função materna tem um tempo limitado, porque a relação mãe e filho nunca acaba, mas, na forma como é no início da vida da criança, durante seu desenvolvimento, essa função termina. Há um momento em que a mãe precisa dizer “vá”, o que é particularmente difícil, sobretudo se a mulher foi educada para ser exclusivamente mãe. Eu cito, no livro, a famosa música dos Beatles She’s Leaving Home [ela está saindo de casa], em que a mãe toma a filha que está indo embora como uma ingrata, que não reconhece seu empenho e entrega. Então, a função materna implica, por um lado, a dedicação e, por outro, uma diferente forma de dedicação, através da autorização final, que está na palavra “vai”. E essa separação tem uma força vital, tanto para o filho quanto para a mãe. A partir daí, é preciso reinventar a vida, mas isso é sempre bom.

7 | O momento de se separar é tão problemático para os filhos quanto para as mães?
Acho que não. Meu filho, por exemplo, se sentiu mal, porque sabia que era complicado para mim. Mas ele queria ficar na dele. Continua, aliás, e está ótimo. É normal. Eu fiz exatamente a mesma coisa, e também foi difícil para a minha mãe, que está com 96 anos, e com quem tenho uma relação privilegiada. No futuro, terei de passar por outra forma de separação.

8 | E quando é a mãe quem se casa de novo, faz uma nova família, o filho pode sentir essa separação?
Tudo depende de como lidamos com isso. Se o discurso sobre a separação, sobre o novo casamento, for competente, não há o menor sofrimento. Se a separação for imposta, fica mais complicado. É preciso conversar muito, porque, na verdade, o problema hoje não é mais a separação em si – que, infelizmente, é moeda corrente na atualidade –, mas sim como os filhos vão lidar com essa questão. 

9 | E por que temos dificuldade para dizer “não” aos pais, como a sra. diz que teve, ao não negar seu pai e estudar medicina por desejo dele? 
Essa é a questão fundamental do ser humano, sintetizada maravilhosamente bem na peça Hamlet, de Shakespeare – obra mais importante do autor, e personagem mais frequente na literatura e no teatro, justamente por colocar essa questão do sujeito com seu ancestral. O protagonista não sabe dizer não ao pai, cujo fantasma pede ao filho que o vingue, matando seu assassino. Como Hamlet obedece a esse imperativo, acaba matando, mas também morrendo. Se não formos capazes de dizer não, como é necessário, não fazemos o que queremos e também não satisfazemos o ancestral, porque ele precisa que nós nos realizemos. Essa dificuldade de dizer não vem do sentimento de agir por apego, achar que vamos perder a pessoa. O apego é o que mais nos prejudica. As pessoas precisam se desapegar.

10 | O que seria, afinal, uma boa relação entre mãe e filho?
Aquela em que a escuta e a liberdade são possíveis. Aquela que que tenha muito diálogo. É preciso respeitar a liberdade do silêncio. É aquela relação em que se pode se afastar sem culpa, deixar que o outro se afaste sem culpar, não esperar que o filho satisfaça todos os seus desejos. Uma certa solidão é inevitável e até benéfica.

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