"O Cruzeiro de hoje é igual ao de Tostão e Dirceu Lopes"

O presidente do clube comemora a conquista do Campeonato Brasileiro, conta como conseguiu montar uma equipe competitiva e fala como é conviver com a fama

por Renan Damasceno 07/01/2014 14:31

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.


Denis Medeiros
(foto: Denis Medeiros)
 
 
Aos 73 anos, o advogado Gilvan de Pinho Tavares já não pode mais ir ao supermercado sossegado. Desde que assumiu o cargo de presidente do Cruzeiro, em janeiro de 2012, as caminhadas ficaram escassas, assim como as pescarias no rio Paracatu. Recebe reclamações, elogios e pedidos para tirar foto, segundo ele, até com torcedores do clube rival. Uma vez por semana vai à missa, acompanhado da mulher, Sileda Maria Tavares, com quem é casado há 47 anos, e é protegido por duas imagens de Nossa Senhora Aparecida: uma na cabeceira da cama e outra ao lado de sua mesa, na sala da presidência, na sede administrativa, onde recebeu a reportagem de Encontro. Ele falou sobre a relação com os presidentes anteriores e a montagem do time, além de ter revelado que será, sim, candidato a deputado estadual pelo Partido Verde (PV) e à reeleição para presidente do clube, no ano que vem.

Gilvan lamentou o comportamento de parte dos torcedores que atrapalhou a festa programada pelo clube para comemorar o título de campeão brasileiro, marcada para logo após o jogo com a Bahia, no início de dezembro, no lado externo do Mineirão. "A gente precisa encarar de forma diferente esses vândalos, que não são torcedores. É preciso acabar com eles", diz.

Nascido em Belo Horizonte, mas de família ligada a Sabinópolis, no Vale do Rio Doce – é parente, por parte de mãe, do famoso compositor mineiro Ary Barroso, de Aquarela do Brasil –, o advogado e procurador do Estado aposentado é sócio do clube desde a infância, quando chegou a jogar nas categorias de base, na década de 1950. Questionado se é melhor presidente do que zagueiro, esquiva-se: "Se, naquela época, eu tivesse um companheiro de zaga igual ao Dedé, acho que seria um zagueiro melhor. Mas estou fazendo um bom trabalho como presidente."
 
 

ENCONTRO – O pleito que o elegeu, em outubro de 2011, ocorreu em momento delicado do clube, com chance de rebaixamento e críticas aos 16 anos da gestão dos irmãos Alvimar de Oliveira Costa e Zezé Perrella, que avalizavam a sua candidatura. Hoje, o senhor considera o seu mandato uma gestão de marcas próprias ou uma continuidade da anterior?
GILVAN DE PINHO TAVARES – À época da eleição, o Zezé disse que o melhor para o Cruzeiro era eu ser eleito. Ele me considerava mais preparado e com mais conhecimento, mas não se tratava de continuísmo, pois ele iria se afastar. Ele acreditava que seu passado foi benéfico para o clube e que, se eu desse seguimento ao trabalho, seria bom. Mas não se pensava em continuísmo, mesmo porque ele reconhecia que o último período não foi tão bom quanto os anteriores. E eu disse que continuísmo jamais.
 
O senhor ainda mantém contato com os dois?
Não constantemente, mas quando preciso. Sempre que peço, nunca me faltam. Evidentemente, eles querem me deixar à vontade, para que ninguém fale que tem mão deles nesta atual gestão. 

O estatuto permite reeleição e seu mandato vai até dezembro do ano que vem. Vai concorrer em 2014?
Tenho direito de mais um mandato e vou concorrer. Acho que o Cruzeiro vai precisar de mais um tempo para consolidar este trabalho que estou fazendo e ficar definitivamente naquele plano em que a equipe saiu por breve período.

Ainda falando em eleições, em setembro, o senhor acertou sua filiação ao PV. Vai pleitear algum cargo público no ano que vem?
Confesso a você que não tinha pensado em me candidatar até certo momento, mas senti a necessidade de ter mais força à frente do Cruzeiro. Acho que muita coisa tem de ser mudada no direito desportivo e, quando você é presidente do clube, não é ouvido. Sempre enxergam que você é parte interessada, ainda que seja um mandato estadual, como esse que vou pleitear, de deputado estadual. O Cruzeiro não pode ter um presidente longe, preciso ficar em Belo Horizonte. O máximo que poderia ser é deputado estadual. Penso que, no futuro, será hora de ir para Brasília e fazer muita coisa.
 
 

Em dois anos, o Cruzeiro foi da crise ao título, quebrando a hegemonia de 10 anos de títulos dos times do eixo Rio-São Paulo, que recebem fatias maiores de patrocinadores e direitos de televisão. Como o clube fez para superar esses clubes?
Quando vou a reuniões na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ou Rede Globo, eles me perguntam: como vocês montaram um time tão depressa? E eu respondo: lembram aquele jogador que vocês queriam? Nós já tínhamos comprado. Nós planejamos melhor, corremos, fizemos negociações antes dos adversários. A credibilidade nos ajudou demais. Começamos com dificuldade, em 2012, para negociar e pagar a folha de pagamento. Chegamos a atrasar alguns dias a folha de janeiro, mas enxugamos despesas da casa, descobrimos outras formas de receita, colocamos o pagamento em dia. 

A volta ao Mineirão e o programa de sócio-torcedor, que ultrapassou a marca dos 40 mil associados, em novembro, ajudaram a dar essa tranquilidade ao departamento de futebol?
O trabalho do setor de marketing bem feito, mais a valorização da marca em decorrência das boas campanhas, dá margem para isso acontecer. Com o programa de sócio-torcedor, a torcida descobriu que pode participar, que é parte importante do sucesso do clube. Para fechar o acordo com o Mineirão para os próximos 25 anos, negociamos durante um ano, enquanto outros clubes não quiseram conversar. Quem vai negar que esse contrato não foi bom, que não foi bem feito? Olhe o que o Cruzeiro está arrecadando, compare com outros times que jogam em estádios menores.

A arrecadação de bilheteria, hoje, representa qual porcentagem da receita total do clube?
Hoje, a receita dos sócios-torcedores somada à bilheteria, eu diria que totaliza mais ou menos um terço da receita total do Cruzeiro, o que não existia há dois anos. Pelo número de partidas no ano, teremos uma arrecadação em torno de R$ 65 milhões. Ou seja, isso nos dá a possibilidade de não precisar gastar o dinheiro do ano que vem, para gastá-lo na hora certa, não passar os apertos que passamos no tempo que ficamos fora do Mineirão. Não há como manter um time de futebol com folha salarial alta, como é a do Cruzeiro, sem receita, sem dinheiro. 
 
 

O senhor sempre tem falado da importância da torcida, mas nesta reta final, alguns torcedores atrapalharam o planejamento, fazendo o Cruzeiro perder mando de campo e a adiar a festa do título...
A gente precisa encarar de forma diferente esses vândalos, que não são torcedores. É preciso acabar com eles. Se não é possível conviver com eles, temos de acabar com eles. A sociedade não é obrigada a aguentar isso, senão daqui a pouco não teremos mais torcida nos estádios. 

E é possível virar o ano sem vender jogadores?
Já chegamos a esse ponto. Se tiver de desinteirar esse plantel, não será por causa da necessidade, a não ser que o contrato esteja vencendo e o jogador não queira ficar. Mas não estou vendo nenhum atleta pensando nisso. O que ouço é que estão satisfeitos e querem ser campeões da Libertadores. 

A diretoria foi muito criticada pela venda do Montillo, no ano passado...
A venda do Montillo para o Santos foi para cumprir compromissos que nós tínhamos feito. Inclusive, para pagar o Everton Ribeiro. O plantel atual custou R$ 40 milhões.  Fomos parcelando alguns valores, conseguimos montar um time sem ter o dinheiro. Fizemos com que o dinheiro aparecesse. A venda do Montillo foi fundamental para montar esse time.

O Fred, atacante do Fluminense e com boa passagem pelo Cruzeiro, é um sonho da torcida. Ele vem?
Se ele fosse jogador do Fluminense seria mais fácil negociar. Mas ele é atleta do presidente da Unimed (Celso Barros), que é vidrado, tem adoração pelo Fred e paga salário altíssimo por ele. O Cruzeiro não vai pagar o mesmo tanto.

Por falar em ídolo, o Cruzeiro perdeu a queda de braço pelo Alex. Foi um momento difícil, já que o clube e a torcida estavam carentes de ídolos com a saída do Montillo? 
Eu cheguei a achar que ele viria. Logo depois do anúncio que ele não permaneceria na Turquia, em uma de nossas conversas, eu falei para ele que iria mandar o diretor de futebol (Alexandre Mattos) para conversar pessoalmente  para acertar, pelo menos, um contrato apalavrado. Ele desconversou, explicando que a casa já estava desmontada, por causa da viagem de retorno, e queria ficar um mês sem pensar em futebol. Mas, assim que ele chegou no Brasil, ele me ligou para me passar seu novo número de telefone para continuarmos conversando. Foi quando eu percebi que tinha chance de ele vir para o Cruzeiro. Mas a decisão da família pesou muito para o Alex optar pelo Coritiba, a esposa dele é filha de um ex-presidente. Mesmo assim, ele sempre demonstrou carinho muito grande pelo Cruzeiro.
 
O Cruzeiro campeão brasileiro é o time que o senhor sonhava quando assumiu a presidência em 2011?
É um time que dá prazer de ver jogar. A velocidade, a forma de todo mundo se ajudar. O toque lembra muito o Cruzeiro do passado, de Tostão e Dirceu Lopes, que era uma academia do futebol. Todo mundo tinha sintonia, jogava bem, tocava rápido. Às vezes, eu assisto aos treinos e fico pensando: será que é meu lado torcedor que me faz ver o time assim? Mas aí eu vejo o Tostão fazer o mesmo elogio, de que ele gosta de ver esse time jogar, e então percebo que não sou só eu. Até alguns cronistas que não gostam de assumir já falam que Everton Ribeiro é o melhor jogador do campeonato.

Como foi para driblar a desconfiança e a resistência do Conselho para trazer o Marcelo Oliveira, um técnico de vida ligada ao Atlético?
Há muitos anos que venho ajudando o Cruzeiro, muito antes de ser presidente do Conselho. Fui advogado do clube, fui vice-presidente de especializados, de 1983 a 1984, ajudei a dirigir a base. Quando precisavam reformar o estatuto, eles me chamavam. Desde a década de 1960 que ajudava na elaboração de reforma de estatuto. Sempre tive credibilidade com os conselheiros. Tive atuação importante para amarrar o contrato do Cruzeiro com a Hicks Muse, em 1999. Por tudo isso, todo mundo confiou. Então, toda vez que precisei do Conselho, eles me apoiaram.
 
 

Como é a relação com o presidente do Atlético, Alexandre Kalil?
A relação com Kalil é muito boa. Acho que ele fala muito para o público dele. Cada um tem seu modo de agir, de ser. Sempre que nos encontramos é a maior cordialidade.
 
Assumir o principal cargo do clube mudou sua vida?
Completamente. Quem assume esse cargo perde o direito de ser ele mesmo, de fazer as coisas de que gosta. Por exemplo, hoje não tenho condições de ir ao supermercado, ao shopping, ao sacolão, como gostava. Fico por conta da torcida, tirando foto com os funcionários, torcedores do Cruzeiro ou até de outros clubes. Ainda bem, porque vejo que estão satisfeitos, vemos o prazer das pessoas em ouvir do presidente aquelas confidências que eles gostariam de saber, de ouvir. Eu fazia caminhada, mas, hoje, a todo momento, tenho de parar para dar explicação.

São quantas horas por dia dedicadas ao Cruzeiro?
Eu me levanto muito cedo, durmo no máximo seis horas por noite. Hoje me dedico só ao Cruzeiro, meu escritório tem outras pessoas. Às vezes, quando não tenho compromisso à noite, tem aquele lado torcedor, de ficar assistindo ao futebol, ver como estão jogando outros times. Às vezes, os atletas aparecem na Série B, como foi o Ricardo Goulart, Egídio, Lucca.

Fora do futebol, o que o senhor gosta de fazer?
Gosto demais de pescaria. Adorava pescar duas vezes por ano no rio Paracatu. Desde que assumi a presidência do clube, não consegui mais. Quando consegui uma folguinha e pensei que poderia descansar no rancho, só num dia pude pescar tranquilo, pois coincidiu com a negociação do Diego Souza e tive de voltar.

A família apoia sua dedicação ao Cruzeiro?
Minha mulher torce demais para o Cruzeiro, e meus filhos também. Ela passou até a ir ao campo, não perde um jogo, torce, dá palpite. "Ah, você não vai vender fulano...”. Às vezes um empresário me liga. Ela me fala: “Esse você não vai vender, não".  Lógico que não dou ouvidos a tudo o que ela diz, mas não custa nada eu falar que fiz determinada coisa para agradar a ela (risos).

Últimas notícias

Comentários