A campeã do Enem

Estudante mineira de 18 anos, Mariana Drummond trocou o sonho de ser bailarina pela medicina. Em sua estreia para valer na prova, faturou o primeiro lugar geral numa disputa com sete milhões de estudantes

por Marina Santos 18/02/2014 17:28

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Cláudio Cunha
A estudante Mariana Drummond em sua casa, no bairro Sagrada Família: foco na vida e disciplina herdada do balé (foto: Cláudio Cunha)

Pergunta: o que é preciso para estar bem preparado para o vestibular? Opções: (A) resolver todos os exercícios da apostila; (B) não faltar aos simulados; (C) acompanhar o conteúdo dado em sala de aula, sem deixar acumular dúvidas; (D) fazer do estudo uma tarefa diária, inclusive, aos sábados e domingos; ou (E) todas as alternativas anteriores. Acertou em cheio quem marcou a última. E quem garante é a estudante Mariana Drummond Martins Lima. Aos 18 anos, a mineirinha de Belo Horizonte, uma garota tímida e com uma vida social bastante regrada (ao contrário de muitos jovens de sua idade), conquistou o primeiro lugar geral no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, em outubro do ano passado, que contou com mais de 7 milhões de inscritos, com 858,54 pontos. Acredite: ela só errou 16 das 180 questões objetivas da prova (e obteve 960 pontos na redação), considerada hoje a principal ferramenta de ingresso ao ensino superior público do país.


Com o resultado, Mariana garantiu a primeira colocação no curso de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a mais concorrida entre as 115 instituições participantes no Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Ainda com sua nota, poderia também se matricular na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Finalmente, também foi aprovada nos concursos da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Um feito e tanto. Ela chegou a se matricular na UFMG, por influência dos pais, mas na última hora acabou optando mesmo pela USP. Mas quais seriam os segredos de Mariana para tanto sucesso no Enem? 

"Não tem segredo", diz, modesta, a estudante. "Eu me dedico muito ao que faço e consigo manter o foco. Se preciso abrir mão de algumas coisas para conseguir o que quero, não vejo problema." E quando diz "abrir mão", Mariana não se refere apenas em deixar de comparecer a alguns encontros com os amigos aos fins de semana, privar-se de luxos como ver televisão após o almoço ou ficar pouco tempo conectada às redes sociais, embora tenha perfil no Facebook. Para ela, a decisão de se empenhar ao máximo para garantir a aprovação no exame significou aposentar as sapatilhas de ponta, às quais se acostumou desde pequena. Namorado? Mariana nunca namorou. O foco é outro. 

Arquivo Pessoal/Reprodução Cláudio Cunha
Aos 15 anos, na apresentação do balé La Bayadère, em Curvelo, Minas Gerais: paixão trocada pelo jaleco (foto: Arquivo Pessoal/Reprodução Cláudio Cunha)

Ex-bailarina da Escola Bolshoi, Mariana se iniciou na dança aos 4 anos de idade. Filha única e com poucos parentes em Belo Horizonte, ela ainda não estava em idade escolar para conhecer amiguinhos da sua idade – e o balé foi a solução encontrada pela mãe, a psicóloga Belmira Drummond, de 51 anos. "Vamos lá! Tem uma música bonita, você vai gostar", foram as palavras de incentivo. Resistente à primeira aula, o contato com o balé para Mariana, porém, foi surpreendente: "Mãe, eu gostei, não precisa mais vir comigo", disse, logo após conhecer a dança.

Ainda criança, a menina ingressou no Centro de Formação do Palácio das Artes (Cefar) e, aos 12 anos, mudou-se com a família para Joinville, em Santa Catarina, para se aperfeiçoar na unidade brasileira da escola de balé russa. Lá, Mariana tinha uma rotina atarefada. Ao menos quatro horas do dia ficavam reservadas para o estudo da dança, com aulas de balé clássico, balé moderno, piano, história da dança, entre outras. Às vezes, quando se aproximavam as datas de apresentações e festivais, mais algumas horas eram dedicadas aos ensaios durante a noite. E, mesmo com uma rotina corrida, Mariana não ficava atrás no colégio. Sempre prestava atenção às aulas. O que não conseguia fazer ao longo da semana, deixava para estudar nos dias de folga. O talento era tamanho que a bailarina chegou até mesmo a fazer um curso de verão no Kirov, em Washington, uma das mais reconhecidas academias de balé do mundo.

Mas, pouco depois, com a aproximação do ensino médio no colégio, o futuro promissor como bailarina foi colocado em questão. "Percebi que, se tivesse de optar por uma carreira acadêmica, já deveria começar a me preparar para o vestibular", conta. Por outro lado, o contraste em investimento e infraestrutura das companhias estrangeiras em relação à realidade brasileira fez com que Mariana sonhasse com uma bolsa de estudos em dança fora do país. "É difícil viver de arte aqui", lamenta. Foi quando decidiu voltar a Belo Horizonte e disputar diversos concursos, em Minas, São Paulo e Distrito Federal, em busca de visibilidade e patrocínio. Mas tinha como meta apenas mais um ano de dedicação à dança. Caso contrário, priorizaria os estudos.
 
Arquivo Pessoal
No dia da matrícula na Faculdade de Medicina da UFMG, com uma turma de veteranos: "Acredito que deve ser muito gratificante poder ajudar alguém", diz a estudante (foto: Arquivo Pessoal)
 

E foi o que aconteceu. Sem conseguir sair do país, Mariana começou a amadurecer a ideia de cursar medicina. "Acredito que deve ser muito gratificante poder ajudar alguém que está em apuros", diz. Aliada a isso, biologia sempre foi sua matéria preferida. Foi então a hora de aplicar toda a disciplina e determinação aprendidas no balé em uma maratona constante de lições de casa, provas e simulados. "Sabia que o curso que queria era concorrido e me coloquei como meta passar de primeira. Se não conseguisse, não seria porque não fiz tudo que estava ao meu alcance."

O empenho de Mariana sobressaía aos olhos dos educadores. Seu professor de matemática, Rommel Domingos, confessa que a menina é "um ponto fora da curva". Com desempenho excepcional, a estudante sempre foi muito comprometida em sala de aula. "Ela se concentra com facilidade. Olhava para Mariana e percebia que o conteúdo estava sendo assimilado e ela parecia satisfeita em estar ali. Mariana é viciada em aprender", afirma Rommel, que é também diretor de ensino do Colégio Bernoulli, onde a jovem estudou nos últimos anos do ensino médio.
 
Cláudio Cunha
Mariana entre os pais, o engenheiro Célio e a psicóloga Belmira: "Ela sempre foi assim, curiosa e boa aluna", garante a mãe (foto: Cláudio Cunha)
 
 
Em casa, Mariana envolvia também os pais no processo preparativo para o vestibular. Belmira conta que, às vezes, já era tarde da noite e a menina pedia: "Mãe, me fala um tema. Vou fazer uma redação". A estudante se debruçava sobre o assunto, sempre atenta e cronometrando a hora, para não abusar do tempo. Depois de pronto, entregava o texto para que Belmira e o pai, o engenheiro e funcionário da Caixa Célio Augusto, de 55 anos, pudessem corrigir e opinar. "Sempre foi assim, curiosa e boa aluna", diz a mãe, orgulhosa. 

Belmira conta que, quando voltaram a BH, Mariana estava preocupada com as aulas de química, já que em Joinville a disciplina só começava a ser ensinada posteriormente e a adolescente ainda não tinha entrado em contato com os conceitos introdutórios. Mariana decidiu então comprar alguns livros e começou a estudar nas férias, por conta própria. "Acho que é uma estratégia para diminuir a tensão. Quando ela percebe que terá dificuldades, já se antecipa", revela a mãe. A curiosidade insaciável e dedicação da estudante lhe renderam a medalha de prata na olimpíada de química estadual em 2012.

Eugênio Gurgel
A amiga Priscila e a professora de balé, Adriana Villela: "Quando havia um intervalo, ela faiza um grand ècart (posição de abertura de pernas) e se aquecia enquanto lia um livro", diz a professora (foto: Eugênio Gurgel)

Depois de dois anos de estudo intensivo, enfim, o esforço recompensado. Mas a notícia sobre a primeira colocação no Enem veio a conta-gotas. Mariana acessava o site do Sisu todos os dias para ver sua posição, já que o sistema, aberto durante cinco dias para as inscrições, sempre era atualizado às 2h com a nova classificação dos candidatos na disputa. Dia após dia, a menina se mantinha em primeiro lugar entre as 160 vagas para o curso de medicina na UFMG. Inscrições encerradas, logo foi informada de que tinha sido também primeiro lugar geral da instituição. E, por fim, um comunicado do Ministério da Educação, anunciando que ela estava no topo entre os concorrentes do exame nacional, coroou a espera.

"Ficamos muito felizes, primeiramente, por ela ter passado no curso que queria. Mariana nunca estudou por nota, a nota vinha como consequência. E é interessante porque ela faz isso por prazer, não por imposição de ninguém", diz o pai. As expectativas em relação ao desempenho da menina eram as melhores, já que Mariana vinha acumulando bons resultados quando prestou o vestibular ainda como treineira. Em 2012, quando estava no 2º ano do ensino médio, a estudante já havia alcançado nota para passar na UFMG e na USP. Além do Enem, este ano, Mariana também participou de outros vestibulares, concorrendo pelas principais universidades públicas de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Daquelas que já obteve resultado, curiosamente, não passou apenas para a Universidade de Campinas (Unicamp). Mesmo tendo resolvido quase 98% das questões objetivas, as dissertações não teriam classificado a estudante. "Eu também fiz vestibular em que não passei. Se você não foi aprovado, não pode desanimar", aconselha a aluna, que hoje se coloca como um verdadeiro exemplo de persistência e superação.

Pedro Nicoli
Rommel Domingos, professor de matemática: "Mariana é um ponto fora da curva. Ela se concentra com facilidade. Durante as aulas, eu olhava para ela e percebia que o conteúdo estava sendo assimilado" (foto: Pedro Nicoli)

Finalizada mais essa etapa na vida de Mariana, agora é chegado o momento de colher os elogios. Adriana Villela, professora de balé e que ensaiou a menina em seu retorno a Belo Horizonte, é uma das que tiram o chapéu para a estudante. Ela acredita que a disciplina é um dos grandes legados que a menina levará da dança. "No balé, você tem de se dedicar várias horas por dia até a exaustão para evoluir. E Mariana era assim." Com saudades, a professora se recorda da dedicação de sua ex-aluna, equilibrando-se entre as sapatilhas e as apostilas. "Quando havia um intervalo, ela fazia um grand ècart (posição de abertura de pernas) e se aquecia enquanto lia um livro. Sei que ela amava dançar, mas os estudos falaram mais alto. Tenho certeza de que ela terá um futuro brilhante como médica." 

Priscila Diniz, também de 18 anos de idade, amiga e parceira de Mariana na dança, compartilha da mesma opinião. "Mariana, quando arruma um objetivo, dedica-se a ele 100%. No balé, tinha uma técnica impecável, muito delicada e expressiva. Mas sempre humilde, me ajudava nas coreografias. Além de inteligente, ela tem esse lado humano, tão importante e que está em falta nos profissionais da saúde", diz. 

Pronta para trocar o collant pelo jaleco, Mariana se prepara para o novo desafio. "A carreira de uma bailarina é muito curta. Eu queria uma profissão na qual eu pudesse ficar velhinha trabalhando." Não se preocupe, Mariana. Você conseguiu.

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