"Vou ajudar Aécio da forma que ele achar melhor"

Ex-presidente do Servas, Andrea Neves fala sobre os programas sociais implantados no estado sob sua gestão e o desafio de conciliar a vida familiar e o apoio ao irmão na campanha presidencial deste ano

por Paulo Paiva 19/02/2014 13:38

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Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

A entrevista está quase no fim. De repente, Andrea Neves, ex-presidente do Servas, abre um sorriso, faz uma pausa e diz: "Mas não falamos sobre o mais importante". Paro para pensar. A conversa que acabamos de ter passa na minha mente em questão de segundos. Servas, projetos sociais, política. O que estaria faltando? Ela responde: "Minha filha, Maria Clara. Ela hoje é meu fio terra".

Naquele momento, percebi que minhas impressões, captadas na entrevista, estavam corretas: a Andrea Neves mitificada no imaginário popular como a pessoa mais influente (quase uma eminência parda) no governo do irmão (ela acompanha Aécio desde seu primeiro governo em Minas, em 2003) vai além do poder. Andrea é uma mulher simples. Tem orgulho de seu trabalho social, uma visão aguda da vida e, como toda boa mineira, mantém laços fortes com a família. Na infância, ouvia moda de viola com os irmãos (Aécio e Angela) e primos nas ruas de São João del-Rei. 

Filha do ex-deputado federal Aécio Cunha e neta do ex-presidente Tancredo Neves, cresceu curtindo Bob Dylan e teve participação ativa nos movimentos de redemocratização do país. A única filha, 19 anos, fruto de seu primeiro casamento com o jornalista Herval Braz (já falecido), é seu lastro, ao lado do atual marido, Luiz Márcio Pereira. Ela tem consciência da imagem negativa que, muitas vezes, chega a uma parte da população pelas redes sociais.  "Às vezes, me assusto com o que inventam de mim e como as mentiras acabam virando verdade. Virei uma lenda urbana", desabafa.

Não, ela não é uma mulher comum. Sua inteligência afiada aparece em cada ponto da conversa. Mas é, acima de tudo, uma pessoa preocupada com os rumos que o mundo vai tomando. Nesta entrevista a Encontro, ela fala do trabalho, de sua trajetória, e garante que participará da campanha de Aécio e PSDB ao governo de Minas. 

ENCONTRO - Após 11 anos dedicados ao Servas, a sra. deixou o cargo no fim do ano passado para ajudar seu irmão, o senador Aécio Neves, na campanha presidencial deste ano. Qual o balanço que faz do período em que esteve à frente da entidade?
 
 
 
ANDREA NEVES - Confesso que, quando cheguei ao Servas, não conhecia completamente sua realidade, apesar de minha avó (dona Risoleta Neves, mulher do ex-governador de Minas Gerais e ex-presidente Tancredo Neves) ter sido presidente da entidade. Fiquei muito surpresa, principalmente com as pessoas que encontrei lá, que são absolutamente abnegadas e dedicadas ao Servas. Então, a partir daí, construímos uma série de programas. O primeiro passo foi tentar entender como poderíamos ser mais úteis aos mineiros. E percebemos que havia uma rede no estado que já desenvolvia uma extensa lista de atividades sociais. Decidimos então que o Servas teria como norte de ação, de um lado, fortalecer o trabalho dessas entidades e, de outro, construir novos projetos. Hoje, olhando para trás, vejo que criamos programas muito bacanas. Um exemplo é o Vozes do Morro, feito em parceria com o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de Minas Gerais (SERT-MG). Selecionamos artistas que são moradores de vilas e aglomerados e que, embora tenham talento, estão limitados às comunidades. Após a seleção, as empresas ligadas ao SERT-MG cedem gratuitamente espaços na grade de programação para eles. O trabalho é exibido nas rádios e TVs. O programa fez uma grande diferença na vida de muitos deles, que conseguiram impulsionar a carreira. Mas o principal objetivo do Vozes não é esse. É criar outros valores de referência de sucesso nas comunidades. Assim, a pessoa que vai ser admirada, respeitada e que vai estimular os jovens daquele local deixa de ser alguém ligado a atividades nocivas à sociedade. O que queríamos era que essas comunidades pudessem se orgulhar e dar o devido valor ao talento das pessoas da própria comunidade. O pessoal do Playing for Change (projeto internacional que grava e coloca na internet clipes de vários artistas do mundo) esteve em Belo Horizonte e convidou os integrantes do Vozes para gravar. E eles gravaram na barragem Santa Lúcia e, de repente, estavam fazendo parte de um clipe intercontinental. O Vozes do Morro é exemplo do tipo de trabalho que tentamos fazer ao longo desses anos.

Que outros projetos a sra. destacaria em sua gestão à frente do Servas?
 
Criamos campanhas que pudessem ajudar na mobilização da sociedade em torno de causas que consideramos relevantes. Fizemos três campanhas básicas. A primeira foi de apoio a famílias que têm pessoas desaparecidas, chamada "Volta", com a música homônima do Lupicínio Rodrigues. E aí encontramos uma coisa que me impressionou muito: o número de idosos desaparecidos. Porque o número de adultos que desaparece involuntariamente é mínimo. A grande parte dos adultos desaparece por vontade própria. São pessoas que, por alguma razão pessoal, querem ir embora, querem deixar suas vidas. Mas o número de idosos que às vezes, até por questões de doenças e alterações mentais, sai de casa e não consegue lembrar de como voltar é muito grande. Então, a primeira campanha foi essa, foi "Volta". Depois, fizemos a "Proteja nossas crianças", sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes. E a terceira abordou a valorização da pessoa idosa. Foi com o Zezé di Camargo declamando uma música chamada "Couro de Boi". Eu e Aécio sempre ouvíamos essa música lá em Cláudio (cidade natal da avó Risoleta Neves); a vida inteira tivemos essa coisa de tocar viola de noite, em reunião de primos, e essa música fez parte da nossa infância. Ela tem um começo fantástico, que é assim: "Existe um velho ditado que é do tempo do zagaio que diz que um pai cuida de 10 filhos e 10 filhos não cuidam de um pai". Quando sugeri usar essa música, todo mundo achou que eu estava doida, que não ia funcionar. Mas aí conversamos com Zezé di Camargo e ele ficou muito surpreso, e disse que a mãe dele o embalava com essa canção. E gravou, de graça, como contribuição dele para a campanha. Essa peça rodou o mundo na internet e foi traduzida em diversas línguas.

A questão dos idosos parece ser especial para a sra. Por quê?
 
Já temos certa atenção da sociedade para a questão da criança, do jovem. Agora, precisamos mostrar a solidão da velhice, quando bate uma coisa angustiante, que é o tal do "se". E "se" eu tivesse feito diferente? E "se" eu tivesse tomado outras decisões, feito outra coisa? Vamos ficando reféns desse "se". Quando somos jovens, temos a ilusão de que temos o tempo todo pela frente, de que podemos tomar uma decisão diferente a qualquer hora. Mas chega um momento em que temos de abrir mão dessa ilusão. E passamos a olhar mais para trás do que para a frente. E isso é muito difícil. 

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)
 

Antes de a sra. assumir o Servas, já fazia algum tipo de trabalho social?
 
Não de forma profissional. Mas tem coisas que a  gente aprende sem saber que está aprendendo. A família em que nasci já era assim. Minha avó tinha essa matriz de solidariedade. Eu me lembro de que, quando era pequena, ela me dizia: "Faça o que você puder, onde você estiver, e com o que você tiver". Então, minha forma de olhar a vida sempre foi assim. O Servas me deu oportunidade de transformar isso em trabalho. Criamos todos esses programas, como o Valores de Minas, que é voltado para a autoestima dos jovens. Os meninos vêm para cá, passam um ano conosco, aprendem valores, têm oficinas de dança, teatro e, no fim do ano, fazem um  grande espetáculo, todo produzido por eles. Numa dessas vezes, fizeram também leitura de poesias. O menino que declamou o poema chamou Aécio até o palco e disse para ele: "A coisa que mais aprendi aqui é que palavra serve para a gente falar o que sente". Nunca mais esqueci isso. Criamos também as brinquedotecas móveis para crianças em hospitais, porque sabemos que brincar é um modo de cura. Hoje, são quase 300 espalhadas pelo estado.  

A Andrea Neves criada ouvindo Bob Dylan acha que é possível mudar o mundo?
 
Eu acho que o difícil é a gente mudar a gente mesmo. Tem uma frase que eu gosto muito, que fala isso, que todo mundo quer mudar o mundo, mas poucas pessoas estão dispostas a mudar a si mesmas. E é verdade. Precisamos perceber que somos nós que temos de abrir mão de preconceitos, de ser mais generosos no acolhimento um do outro. Esse mundo abstrato que a gente acha que tem de salvar não existe. O que existe é o mundo real, onde eu e você estamos vivendo.

O que a sra. vai levar de aprendizado, desse período no Servas?
 
Um sentimento de gratidão. Porque às vezes ficamos muito mobilizados por coisas que são menores, por problemas e aborrecimentos menores. Eu não acredito que nada seja por acaso na vida. Acho que existe alguma coisa que nos orienta de alguma forma. Tem uma frase que diz o seguinte: "O destino nos alcança mais depressa justamente nos atalhos que usamos para fugir dele". Então, eu acredito que exista alguma coisa maior. É uma convicção.

Onde isso se encaixa na sua nova vida agora?
 
As pessoas da minha família são muito próximas umas das outras. tenho com Aécio uma relação muito próxima. Sou um ano mais velha e somos muito próximos, assim como minha irmã Angela, embora ela tenha optado por um outro estilo de vida, vivendo no Rio de Janeiro. Minha vida agora está dividida entre ajudar minha irmã (que enfrenta um problema de saúde) e ajudar meu irmão.

E como você pretende ajudar Aécio na campanha presidencial?
 
Como ele achar melhor. Eu tenho minha formação profissional, sou formada na área de comunicação, tenho contribuído com o PSDB nas campanhas eleitorais. A primeira campanha política de que participei foi a de meu avô, Tancredo, nas eleições de 1982 para o governo de Minas. Depois, participei da Diretas Já (movimento a favor das eleições presidenciais com voto popular direto). Ajudei meu avô novamente na campanha para presidente da República em 1984. Toda minha vida de trabalho foi sempre muito vinculada à política, até por uma questão familiar. Seria natural, portanto, que agora eu contribuísse com a campanha do Aécio. Tenho feito política a vida inteira. Qualquer contribuição que você dá para transformar o mundo é uma ação política. Vejo hoje, muitas vezes, como essa atividade ficou pequena. Isso explica por que as pessoas se afastaram da política, por que ela passou a ter o desprezo de setores da sociedade – o que é uma pena, porque a política é a grande guardiã da democracia. Esse desprezo pela atividade só interessa realmente a quem tem um viés autoritário. Então, minha vida sempre foi na política. E a gente caminha juntos, Aécio, eu e minha irmã.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)
 

A sra. e Aécio já chegaram a conversar sobre como será sua participação na campanha?
 
Será do jeito que ele achar que eu possa ser útil. E eu também penso em ajudar na campanha do PSDB em Minas Gerais, já que há um acúmulo de memória desses anos de governo do PSDB que não pode se perder; uma memória de todo esse trabalho feito.  

Como a sra. analisa o atual momento político no Brasil?
 
Acho que está tendo uma perda da atividade política para todo mundo, independentemente dos partidos. As pessoas, hoje, tendem a ver política não como um um espaço de transformação para alguma coisa melhor, mas sim como oportunismo. E isso é muito ruim, porque com isso todo mundo perde. Ninguém sai vitorioso com esse descrédito na política. Isso é uma perda para todos os partidos, é uma perda para todo mundo, porque a política é a principal ferramenta de transformação social. Nenhuma sociedade pode abrir mão dela.

Como a sra. viu as manifestações populares de junho do ano passado? Como um descrédito na política ou como uma reivindicação por mudanças?
 
Acho que o sentimento que prevalece é o de cansaço. As pessoas estão cansadas de ver tanto desatino, tantas promessas que nunca são cumpridas. A política deveria ser um espaço nobre, no qual todos os sinais deveriam ser mobilizadores da sociedade. Mas quando a política emite sinais menores, de corrupção, o efeito disso é desagregador, desalentador. Por isso, o espaço da política é de muita responsabilidade e precisa ser ocupado por pessoas que têm essa noção. Fico preocupada quando vejo as pessoas abrindo mão da política. Quando se tem uma manifestação contra alguma coisa concreta, ela é sempre bem-vinda. Mas quando se faz da manifestação uma negação da política, é muito danoso para a sociedade. A negação tem de trazer alguma coisa que seja transformadora... Mas, em meio a tudo isso, não falamos do mais importante...

E o que seria?
 
Minha filha. Eu tenho uma filha linda, de 19 anos, a Maria Clara. Ela é uma menina encantadora, do ponto de vista de caráter e das escolhas dela. Começou faculdade agora, de economia, e é uma menina muito especial, uma grande companhia. Ela hoje é a minha raiz, meu fio terra. E ser mãe é uma aventura, não é? E veja bem: não existe espelho mais preciso da gente do que nossos filhos. A gente envelhece mais rápido por fora do que por dentro. Eu, por dentro, estou próxima dos meus 20 anos, da Andrea que ouvia Bob Dylan. É como se tivesse sido ontem. E isso é uma coisa para ser pensada, porque conheci uma pessoa que dizia: "Filho é muito engraçado. Acham que já nascemos mãe". Parece que, para eles, essa coisa de termos sido jovens, de termos vivido aventuras, é uma coisa fora do comum, porque os ritmos são diferentes. Mas os filhos são um espelho absoluto da gente. E quando a gente olha para nossos filhos, não adianta achar que foi ontem que estávamos andando pelas ruas de São João del- Rei e tomando vinho de madrugada...(risos). O tempo passa. 

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