Renascido das cinzas

Sinônimo de calmaria e silêncio durante décadas, o carnaval de BH volta às ruas com força total este ano, redescoberto pela própria população. A festa deve atrair mais de um milhão de pessoas, segundo a prefeitura

por Rafael Campos - Revista do Correio 19/02/2014 15:57

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Marcos Vieira/EM/D.A. Press
A praça da Estação, em plena folia: local, mais uma vez, será um dos principais palcos da festa (foto: Marcos Vieira/EM/D.A. Press)

No carnaval de Belo Horizonte, as ruas e avenidas ficam lotadas. Milhares de pessoas brincam fantasiadas correndo atrás do batuque. A rua estreita, em Santa Tereza, um dos bairros mais tradicionais da cidade, não é empecilho para a folia e, das sacadas, foliões mais caseiros preferem acenar com um largo sorriso no rosto e lançar jatos de água para amenizar a temperatura quente da época. Há alguns anos, tal descrição do carnaval de BH ganharia ares de ficção. Ficar por aqui era sinônimo de sossego e, para quem torcia o nariz para festa, era o paraíso. No entanto, a ficção deu lugar a cenas verídicas. O carnaval foi redescoberto na capital mineira, e os protagonistas dessa história são os próprios belo-horizontinos. 

Tudo começou em 2011, quando pequenos blocos foram se juntando nas esquinas e, mesmo debaixo de um temporal, cantavam e pulavam. Nos anos seguintes, os blocos foram crescendo e o número de pessoas que optavam pela festa na cidade, em detrimento do litoral ou do interior, também. Resultado: a Belotur estima que, este ano, mais de um milhão de pessoas brinquem o carnaval na capital. O número de blocos deve ultrapassar duas centenas. Sim, BH carnavalizou! 

Alexandre Gusanshe/EM/D.A. Press
Carnaval em frente à PBH, na avenida Afonso Pena: "Ei, Chapolim, joga água em mim" foi um dos gritos de guerra em 2013 (foto: Alexandre Gusanshe/EM/D.A. Press)
    

Diante desse novo cenário, os gestores da cidade estão tendo de se virar para dar conta de tanta folia. "O carnaval está sendo uma grande escola para todo mundo", diz Luiz Felipe Barreto, diretor de operações e eventos turísticos da Belotur. No ano passado, uma das principais queixas de quem participou da festa foi a infraestrutura, ou melhor, a falta dela. No centro de BH, os foliões que precisavam de banheiro tiveram de contar com a boa vontade dos bares e restaurantes. Mas a coisa ficou feia mesmo em Santa Tereza, na região Leste. Moradores e foliões reclamaram da sujeira, falta de banheiros químicos em quantidade razoável, entre outros problemas. Esse fato motivou a elaboração de uma lista de reivindicações, enviada à prefeitura. Entre os pedidos estão mais banheiros químicos, policiamento e uma programação diurna.

Alexandre Gusanshe/EM/D.A. Press
As ruas de Santa Tereza, na região Leste, atraem grande número de foliões. A pedido dos moradores, neste ano, a festa ocorrerá apenas durante o dia (foto: Alexandre Gusanshe/EM/D.A. Press)

Barreto, da Belotur, reconhece que, em 2013, o tamanho da festa pegou a todos de surpresa. "Até os organizadores dos blocos não contavam com tanta gente", diz. Para evitar nova dor de cabeça, a Belotur adotou uma estratégia diferente este ano: criou um site para os blocos se cadastrarem. Segundo a empresa, 137 blocos se inscreveram até 20 de janeiro. Sobre Santa Tereza, Barreto confirma que haverá mudanças – e uma delas será o palco, que não deve ser montado no bairro. Além disso, a folia será mesmo durante o dia. "O lema é: enquanto o sol está no céu, o carnaval rola em Santa Tereza", afirma. 
 
O bloco Alcova Libertina no ano passado atraiu cerca de 15 mil pessoas na praça Duque de Caxias, em Santa Tereza. A primeira apresentação foi na calçada do restaurante do Bolão. Na ocasião, cerca de 800 pessoas pulavam e cantavam, em ritmo de carnaval, as clássicas canções dos Beatles, Rolling Stones e The Doors, entre outros. Explicação para o sucesso? "O rock sempre foi uma tradição em BH e coincidiu com todo esse movimento de carnaval que vem crescendo na cidade", diz Marcos Araújo, tecladista da banda, formada em 2011.   

Gladyston Rodrigues/Em/D.A. Press
Desfile da Escola de Samba Acadêmicos de Venda Nova, na avenida dos Andradas, no ano passado. Em 2014, as agremiações retornam para a avenida Afonso Pena, após 23 anos (foto: Gladyston Rodrigues/Em/D.A. Press)
 

O bloco de rua Baianas Ozadas também é um dos que atraem grande público. A produtora cultural Renata Andrade é uma das integrantes do bloco, que surgiu em 2012. Com trajes que remetem às famosas baianas de Salvador (BA), os foliões esbanjam descontração tocando as tradicionais músicas do carnaval da boa terra. O bloco deve sair na segunda-feira de carnaval, a partir das 12h, da praça da Liberdade, de onde descerá para o centro. Renata acredita que o carnaval de BH cresceu depois que todos passaram a enxergar a rua também como palco de manifestação cultural. "O belo-horizontino pegou o gosto por ocupar as ruas e avenidas da cidade", diz. 


Um dos blocos mais antigos da cidade é o do Pirulito, do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e Região Metropolitana. São 21 anos de história e sempre alertando a população sobre as doenças sexualmente transmissíveis. No ano passado, um preservativo gigante foi colocado no monumento da praça Sete, na área central de BH. A concentração será, tradicionalmente, na rua Tamoios, 611, no dia 25 de fevereiro, com a participação da Escola de Samba Cidade Jardim e da corte momesca. "Nosso carnaval é também uma maneira de nos expressar. Essa moçada de BH quer mostrar que o carnaval também é um momento de reivindicação", diz Eliana Brasil, uma das organizadoras do bloco do Pirulito, sobre os novos blocos de rua.  

O carnaval de BH 2014 reserva ainda outras atrações. Após 23 anos, a avenida Afonso Pena, no centro, voltará a ser o sambódromo da capital. Blocos caricatos e escolas de samba, nos dias 3 e 4 de março, respectivamente, devem fazer a alegria dos foliões. "Vamos buscar o tetra", diz Carlos Damasceno, diretor da Escola de Samba Canto da Alvorada, campeã da festa de 2013. Cerca de 720 pessoas representarão a agremiação na avenida, distribuídas em 15 alas e três carros alegóricos. O tema será "Quem ama preserva. Luta pela vida e faz acontecer". Outras nove escolas devem desfilar na Afonso Pena. A folia belo-horizontina será distribuída por 12 palcos como nas praças da Estação, da Savassi e Dino Barbieri, na Pampulha. Segundo a prefeitura, cerca de 70 artistas devem animar o público de BH.

Netun Lima/Divulgação
A irreverência da Banda Mole marcarão o carnaval da cidade pelo 39º ano. Cerca de 50 mil foliões são esperados (foto: Netun Lima/Divulgação)

A mãe de todos os blocos

A Banda Mole, o bloco de rua mais antigo de Belo Horizonte, vai desfilar no dia 22 de fevereiro, na avenida Afonso Pena, entre as ruas Guajajaras e Bahia, pelo 39º ano consecutivo. O dia da festa não é novidade para ninguém, já que a data é garantida pela Lei 8.921, de 27 de julho de 2004, que instituiu o Dia Municipal da Banda Mole, sempre no sábado anterior ao carnaval. Kuru Lima, diretor da Cria! Cultura, empresa responsável pela organização da festa desde 2011, ressalta a importância da Banda Mole, que, no passado, enfrentou inúmeros obstáculos para desfilar. "Ela tem uma contribuição histórica para o carnaval de rua de Belo Horizonte. O bloco nunca fez questão de cordas ou de abadás. Sem dúvida, é uma das festas carnavalescas mais receptivas da cidade", afirma. A irreverência é a principal marca da Banda Mole, aliada à política e à indignação social. Neste ano, o líder sul-africano Nelson Mandela, morto em dezembro do ano passado, será o homenageado. "É importante lembrar que a festa está, a cada ano, mais familiar. Não há incidentes. É uma festa na qual só entram alegria e descontração", diz Kuru.

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