Novos tempos, novo perfil

Ao adotar processo seletivo nacional (Sisu), a UFMG tornou-se a universidade federal mais concorrida do país e, antes reduto de mineiros de alta renda, agora abriga alunos de outros estados e cotistas sociais. A concorrência ficou mais acirrada

por Pabline Félix 20/03/2014 16:20

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Samuel Gê
(foto: Samuel Gê)

"Galucho", "novato", "bicho" ou o tradicional "calouro". São muitos os nomes usados em todo o país para identificar – e, é claro, tirar uma "onda" com – os novos universitários. Recém-ingressados na vida acadêmica, eles recebem a zoação com o sorriso aberto. Afinal de contas, a chacota é para poucos: mais de 2,5 milhões de estudantes tentam ingressar na educação superior hoje, mas as vagas no ensino público não chegam a 172 mil. E, quando se fala em aprovação em instituições de renome nacional e internacional, como é o caso da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), parece que a palavra "calouro" ganha um significado ainda mais especial.

Neste ano, as várias mudanças aplicadas no sistema de seleção da UFMG prometem dar uma nova e mais democrática cara para a histórica instituição, selecionando calouros com um perfil mais diversificado do que de costume. É que, apesar de federal, a universidade era dominada por estudantes de Minas Gerais, que contavam com o privilégio da proximidade para realizar as provas de primeira e segunda etapas. Entre os mineiros, o comum era encontrar estudantes brancos, de classe média alta e com formação em escolas particulares, características que passam longe de ser comum fora do campus.


Agora, as coisas mudaram. Pela primeira vez em 87 anos, a UFMG dispensou a realização de prova própria e adotou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como único método avaliativo – apenas as provas de habilidade em cursos como música, artes visuais, dança, teatro e cinema de animação foram mantidas. A inscrição para os mais de 150 cursos ofertados foi feita por meio do Sistema de Seleção Unificado (Sisu), do governo federal, que permitiu a estudantes de todo o país tentarem a sorte em busca de uma vaga em terras mineiras. O resultado é que, no primeiro ano de participação, a UFMG foi a universidade mais concorrida do país, com 52,65 candidatos por vaga, índice quase seis vezes superior ao ano anterior. Foram 186.123 inscritos para 3.535 vagas, enquanto em 2012 foram 60.264 candidatos para 6.670 vagas. Além do aumento na procura, consequência da "nacionalização" do exame seletivo, o número de vagas caiu quase pela metade, já que a diretoria decidiu fazer duas entradas anuais – uma em janeiro e outra em julho – de maneira desvinculada. Antes, os estudantes das duas entradas eram selecionados simultaneamente no início do ano. 


Quem conseguiu ser aprovado ficou com um gostinho ainda melhor na boca, podendo cantar aos quatro ventos ter vencido uma alta concorrência. Petra Faria Fantini, por exemplo, caloura do curso noturno de comunicação social, comemora o investimento de um ano de estudos com a vitória sobre outros 87 candidatos, maior relação da história para o curso. "Já havia tentado uma vez e não consegui ser aprovada. Nesta segunda tentativa, tive de me dedicar mais a matérias como matemática e física, que não são o meu forte, para me sair bem na nota geral. Por ter sido uma concorrência nacional, a pressão foi maior: antes, a relação por vaga era de menos de 20 candidatos, por exemplo. De todo modo, considero um esforço válido. Faz mais sentido do que fazer um monte de prova por aí", diz a estudante de 19 anos que mora em Lagoa Santa, cidade da região metropolitana.
 
Dênis Medeiros
(foto: Dênis Medeiros)
 

João Victor Saraiva, de 18 anos, calouro de ciências sociais, também não esconde a alegria de ingressar em uma das melhores universidades do país e, assim, complementar os estudos em relações internacionais, carreira que escolheu e para a qual se prepara na PUC Minas. Apesar de ser negro, a formação em escolas particulares da capital não o permitiu ser beneficiado pelas cotas, outra grande novidade no processo de seleção de 2013. "Compreendo a lógica, apesar de algumas universidades terem o benefício relacionado apenas à etnia. Estudei em boas escolas, pude pagar cursinho para me preparar para o Enem. Mesmo com a maior concorrência, esta foi minha segunda tentativa e eu já estava mais preparado", explica.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

Se antes o número de estudantes de outros estados era tímido – apenas 4% entre os inscritos em 2011 –, a unificação do sistema seletivo permitiu que muitos candidatos passassem a considerar a UFMG e, assim, fizessem pular para 17% o número daqueles que vêm "de fora". O maior grupo é o dos paulistas, que corresponde a 10% do total de novos alunos. Entre eles, está Ana Luiza de Souza Lima, de 18 anos, que deixou Taubaté, no interior de São Paulo, para estudar química em Minas Gerais. Dedicada aos estudos, ela conta que sua nota no Sisu a permitiria entrar em outras instituições mineiras, como as federais de Itajubá (Unifei), Alfenas (Unifal), Lavras (Ufla) e Viçosa (UFV). Em São Paulo, passaria também na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Mas ela preferiu a UFMG. "Esse novo sistema amplia as nossas opções, permitindo que tentemos faculdades que antes não tentaríamos em razão da distância. Escolhi a UFMG pela fama da faculdade e pelas grandes oportunidades que teria aqui, tanto agora, durante o curso, quanto depois de formada. Tenho grandes esperanças em relação a Belo Horizonte", conta.

 
Já para João Vitor Turchetti, de 18 anos, a UFMG sempre foi a primeira opção. Por isso, desde o 2º ano do ensino médio ele decidiu deixar a família e a cidade de Vitória (ES) e mudar-se para a capital mineira, a fim de se preparar melhor para o vestibular. A opção da UFMG pelo Enem não afetou a escolha do jovem, e ele foi aprovado na primeira tentativa "para valer", como defende: "Já tinha feito como ‘treineiro’, mas esse foi o primeiro que valeu mesmo". A aprovação no curso de engenharia aeroespacial foi comemorada. "A UFMG é reconhecida nacionalmente por sua excelência. Além disso, pesquisando sobre o meu curso, descobri que ele é mais bem-visto do que o de outras universidades, como o da USP", afirma.
 
Nereu Jr.
(foto: Nereu Jr.)
 

Perto de grupos grandes como os paulistas (com cerca de 350 alunos) ou os capixabas (60 alunos), os que vêm do Nordeste ainda são minoria, mas o sotaque "arretado" já se faz notar entre os calouros. Gabriela Falcon, de 17 anos, mudou-se de Aracaju, capital do Sergipe, para Belo Horizonte, certa de que, para ela, só a carreira na engenharia aeroespacial serviria. Considerou investir na prova do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), mas a aprovação na UFMG na primeira tentativa acabou com a dúvida. Com pais e quatro irmãos com passagem pela educação superior, ela conta que ingressar em uma universidade pública sempre esteve em pauta na sua casa. "Minha mãe e meu irmão mais velho têm doutorado, outro irmão tem mestrado, o de 18 anos está na federal do Sergipe. Então, para mim, era um caminho natural", afirma.

Rogério Sol
(foto: Rogério Sol)

Exclusivo de universidades do Sudeste do país, o curso escolhido por Gabriela fatidicamente a obrigaria a se mudar. A diferença é que, com a adoção do Enem, ela pôde economizar o trabalho – e mais de R$ 1 mil – para vir à cidade prestar provas da primeira e segunda etapas, quase a mesma economia que o calouro de artes visuais Erik Ordanve pôde fazer. É que, nos cursos voltados para a área artística, a prova de habilidades, equivalente à segunda etapa, foi mantida. Apesar de já ser universitário, o jovem de 26 anos decidiu trocar a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) pela escola mineira em busca de uma formação mais focada. "Em Recife, o curso é voltado para a formação de professores de artes, enquanto eu queria cursar o bacharelado. A UFMG é uma das poucas que oferece essa modalidade, além de ser uma das melhores do país. Mesmo tendo um custo alto para me manter na cidade, decidi apostar", afirma. 
 
Samuel Gê
(foto: Samuel Gê)
 

Apesar de mineira, Elaíne Faria de Godoi, de 19 anos, é outra que se encaixa no perfil de estudantes que só chegaram à UFMG graças à unificação das provas. Natural de Pouso Alegre, no Sul de Minas, seus familiares preferiam que a garota fosse para outras instituições, como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ou a Universidade de São Paulo (USP), pela menor distância de casa. Mas ela bateu o pé.

"Desde que entramos nesse mundo de vestibular, já ficamos sabendo da fama das universidades, e a UFMG sempre foi muito elogiada por colegas e professores. O curso de economia da UFMG está entre os melhores do país, e confesso que, quando vi o prédio da Faculdade de Ciências Econômicas pela internet, fiquei apaixonada", afirma. Determinada a ingressar em uma universidade, Elaíne prestou vestibular em mais duas universidades, além do Enem. Com conhecimento de causa, pondera que o sistema unificado facilita muito a vida do estudante, que não tem de coordenar calendários nem viajar para fazer provas.
 
Samuel Gê
(foto: Samuel Gê)

Outra importante mudança neste ano na nova face da UFMG esteve na política de inclusão da universidade, que deixou de ser iniciativa isolada e integrou-se à Lei das Cotas, nome pelo qual ficou conhecido o Decreto 12.711, assinado em 2012 pela presidente Dilma Rousseff, e que garante a reserva de 12,5% das vagas para estudantes de escolas públicas, com baixa renda e de ascendências negra, parda ou indígena. Essa porcentagem deve crescer 12,5% anualmente até 2017, quando 50% das vagas de instituições federais de ensino superior deverão ser exclusivas para cotistas. A introdução das reservas, apesar de obrigatória, dá continuidade a um esforço inaugurado em 2009 pelo ex-reitor Ronaldo Tadeu Pena e continuado por Clélio Campolina, que assumiu a cadeira em 2010 e que a deixa agora, em 17 de março, sob a responsabilidade de Jaime Arturo Ramirez. "As cotas são medidas paliativas, têm de ser temporárias. Elas são resultado da desigualdade do país. Não afetam, de forma alguma, a qualidade do conhecimento produzido na universidade. Quando tivermos escolas fundamentais e médias de qualidade, não precisaremos mais desses artifícios. Mas, por enquanto, eles são necessários".
 
Rogério Sol
(foto: Rogério Sol)
 

Uma das aprovadas entre os cotistas é Dayse Cristina Gomes, de 22 anos. Negra, com renda familiar inferior a um salário mínimo per capita e vinda da educação pública, ela é um bom exemplo de que basta incentivo para que o sonho da universidade se torne realidade. "Sempre quis fazer nutrição. Mesmo depois da minha primeira reprovação, aproveitei a oferta de um curso do governo estadual na área e me formei no nível técnico. Mas ainda assim sonhava com a UFMG. Foi graças a um período de três meses desempregada que consegui estudar para o Enem e tirar uma boa nota. Não esperava ser aprovada, mas agora, que fui, quero aproveitar a oportunidade para mudar o meu futuro", conta a estudante, que permanece morando com os pais, um vigia e uma auxiliar de serviços escolares, e a irmã caçula, em Contagem. Para chegar às aulas matutinas no campus Pampulha, com início às 8h, ela acorda às 5h, sai de casa às 6h e caminha até o metrô de Contagem, onde pega um ônibus intermunicipal que a deixa na avenida Antônio Carlos. Não é pouco esforço, tampouco barato. 

Apesar de ser boa aluna, Dayse credita às cotas sua entrada na faculdade. "É muito difícil competir com estudantes que não têm de trabalhar, podem somente estudar. Tive a sorte de estudar em uma boa escola municipal no ensino médio, mas ainda assim não é o mesmo padrão das escolas particulares. E, se não fosse em uma instituição pública, seria impossível pagar faculdade", afirma.
 
Nereu Jr.
(foto: Nereu Jr.)
 
 
Para Chrystian dos Santos, de 18 anos, manter-se na UFMG será um desafio tão grande quanto o de entrar. Aluno do curso de aquacultura e cotista nas categorias escola pública e ascendência negra, ele considera inviável conciliar uma rotina de estudos e trabalho, mas sabe que são altos os custos para se manter, mesmo em uma instituição gratuita. Morador de Betim, na região metropolitana da capital, onde vive com a mãe, Chrystian terá um gasto considerável apenas para se transportar até o campus Pampulha. Há ainda despesas com livros, refeições e material escolar – para dizer o mínimo. Por isso, muitos estudantes recorrem à assistência estudantil oferecida pela Fundação Mendes Pimentel (Fump), que tem como objetivo auxiliar os estudantes para que eles consigam desenhar a melhor trajetória possível. "Contar apenas com minha mãe para bancar a casa é complicado", diz. 

No caso de Leilianny Martins de Vasconcelos, de 22 anos, a situação é ainda mais difícil. Cotista nas categorias baixa renda e escola pública e residente em Augusto de Lima, cidade no extremo norte do estado, ela conta que está se mantendo com o acerto do último emprego, que logo deve acabar. "Meu pai não pode me manter, já que só ele trabalha em casa e ganha pouco mais de um salário mínimo. Sem a ajuda da Fump, será impossível continuar. Só com o transporte, gasto mais de R$ 300 por mês, fora o aluguel em Betim, alimentação, água, luz e a internet, que ainda preciso ter em casa", diz.
 
 

De origem humilde, mas determinação de quem sonha alto, Leilianny sempre foi boa aluna e sonhava estudar na UFMG. "Nunca pude comprar plástico para encapar meus cadernos, era sempre com a embalagem de ovo de páscoa ou jornalzinho de campanhas políticas. Mas eu era cuidadosa e a única na turma que tinha o material completo", lembra hoje, em tom de comemoração. E não é à toa: aprovada na primeira chamada para nutrição, sua segunda opção, a segunda chamada da universidade tornou concreto o seu sonho de cursar farmácia. "Estudar na UFMG é um sonho de muitos anos. Acho a política de inclusão muito importante, pois faz valer os reais objetivos das escolas públicas. Não que tenha de ser uma universidade somente para pobres, negros e índios, mas principalmente para esses, que já foram tão desfavorecidos durante toda sua vida escolar", completa. 

A administração da UFMG diz estar ciente da necessidade de ampliação da assistência estudantil, até porque ela já existe há mais tempo. A chegada de mais alunos de outros estados e com perfil socioeconômico "carente" só agrava o problema. Segundo Campolina, a verba dedicada a iniciativas de suporte já foi aumentada e deve dar conta de todos os casos. O orçamento, que era de R$ 11,5 milhões em 2010, passou para R$ 23,5 milhões em 2013. Em 2014, deve chegar a R$ 36 milhões e atender a mais de 12 mil alunos em situações desfavoráveis. Outra boa notícia é o anúncio de construção de uma nova moradia universitária na avenida Fleming, no bairro Ouro Preto, onde já existe uma unidade. O número de vagas deve subir de 740 para 1.126 até o fim de 2015. 

Paulo Antônio Romano de Mello, estudante de ciências sociais e coordenador-geral do Diretório Central de Estudantes (DCE), órgão representativo discente, aponta três principais desafios a serem vencidos pela universidade para que ela tenha, enfim, uma nova cara – e não uma nova máscara. O primeiro é a ampliação de vagas, especialmente no turno da noite, ação vista como em prol, sobretudo, dos jovens pobres trabalhadores; o segundo é a assistência e o acompanhamento dos estudantes carentes; e o terceiro é o combate a ações violentas de caráter sexista, machista, homofóbico ou racista, fruto da própria cultura. "Há uma série de questões que merecem mais cuidado dentro da universidade, mas acredito que esses são os três desafios cujas soluções nos fariam avançar firmemente no sentido de construir um espaço a serviço da maioria da população", diz.

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