"Hoje, ninguém tem medo de ser preso"

Comandante do Policiamento da Capital diz que há mais rigor na prevenção do crime em BH, mas a população precisa ajudar para garantir a própria segurança

por Marina Dias 21/03/2014 14:45

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Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

Os números não deixam dúvidas: a criminalidade  violenta aumentou 21% em Belo Horizonte em 2013, na comparação com o ano anterior, com 31 mil ocorrências, segundo dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). Mas poderia ser pior se a polícia não atuasse ostensivamente na prevenção. Segundo a coronel Cláudia Romualdo, comandante da 1ª Região de Polícia Militar de Minas Gerais (ou Policiamento da Capital), não há como medir o crime evitado, especialmente aqueles mais violentos. "O que se mede é o fato acontecido, e a característica da PM é a prevenção ostensiva, para não permitir que o crime ocorra", diz. "E temos aumentado a nossa ostensividade."

Uma das medidas nesse sentido, e que contribui para reduzir a sensação de insegurança da população, é a maior presença de políciais na rua, como anunciado pelo governador Antonio Anastasia em janeiro.  Segundo a comandante, é imprescindível gerar sensação de segurança nas pessoas – apesar de subjetiva, essa sensação é um indicador importante para a polícia e para o estado. 

Responsável por liderar um efetivo de 5.400 policiais, a comandante sabe bem do que está falando. Ela tem uma carreira de 28 anos na corporação, onde ingressou perto de completar a maioridade. A vocação profissional se manifestou bem precocemente. O desejo de se tornar policial já era certo aos 12 anos. Foi quando ela, filha de policial militar, viu a primeira turma de mulheres do curso de formação de sargentos aprendendo a marchar, ao som do bumbo. "Subi no muro para vê-las, e foi ali que soube", diz, sem esconder o sorriso no rosto. 

Expansiva e falante, Cláudia insiste na importância de, como chefe, ir às ruas e acompanhar o trabalho dos PMs sob seu comando. Ela observa não só como estão atuando, mas, principalmente, quais são os maiores anseios das pessoas em relação à polícia – que, segundo a coronel, é vista como referência – e se estão sendo atendidos. Nesta entrevista, ela avalia a segurança em BH e as novas medidas anunciadas, além de adiantar o que será feito para garantir que tudo corra bem durante os jogos da Copa do Mundo. Isso incluiu providências para controlar possíveis protestos. A comandante chama a atenção para a importância do trabalho conjunto, inclusive com o cidadão, para se chegar ao objetivo maior: "Que as pessoas se sintam seguras de ir e vir na capital".

    

ENCONTRO – A criminalidade violenta aumentou em BH de 2012 para 2013. A cidade está mais perigosa? 
CORONEL CLÁUDIA ROMUALDO – É preciso entender que o que se mede é o fato acontecido, não o prevenido. E a característica da PM é a prevenção ostensiva, para não permitir que o crime ocorra. Quando não conseguimos prevenir, tentamos fazer repressão qualificada – identificar autor do crime e efetuar sua prisão e apreensão de material. Isso é o que se mede. Além disso, a polícia é apenas um elo de um sistema grande, do qual o cidadão também faz parte, e deve nos ajudar a ajudá-lo. Mas, como forma de medida, a estatística demonstra aquilo que aconteceu, e esses números, sem dúvida, servem como referência para que possamos adotar providências específicas. Contudo, não se pode tratar casos apenas como números.

Pode explicar melhor?
Se olharmos um crime de roubo, por exemplo (crime em que há emprego de arma ou violência), um roubo na rua, em que a pessoa o empurra e pega um bem seu, não se compara, em termos de trauma, à sensação de alguém entrar na sua casa com uma arma, render sua família e pegar seus bens. E ambos são contados como roubo. Temos a preocupação de não enxergar casos apenas como estatística pura e simples.  Em termos de números, eles apontam fatos ocorridos e registrados. 

E como prevenir os crimes? 
Aumentando a ostensividade. Nós fazemos lançamento do nosso efetivo tendo como referência os pontos onde crimes estão acontecendo, conforme os registros demonstram. Temos a ferramenta Igesp Focal (Integração da Gestão em Segurança Pública), que permite identificar quais os principais problemas de determinado local e quais as melhores medidas para solucioná-los e para que a criminalidade se reduza em termos numéricos.  

Qual é a relação entre os números da criminalidade e a sensação de insegurança?
Às vezes os números de uma região, em termos de criminalidade violenta, estão em patamar abaixo do referencial do ano anterior. Mas pode ser que um fato com grande repercussão na mídia traga às pessoas uma intranquilidade. E o que mais faz com que haja sensação de segurança é ver a polícia. Quando veem policiais nas ruas, as pessoas se sentem seguras. Em BH, temos adotado a prática, em conjunto com a Polícia Civil, de investimento em visibilidade, em presença real da polícia na rua.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

Já são percebidos resultados da medida que o governador anunciou sobre a ida para as ruas de policiais em treinamento e de PMs que atuavam na área administrativa?  
Eles já estão nas ruas, e foram lançados nas regiões (e horários) com maiores registros pelo Igesp. Isso tem aumentado a visibilidade e as operações de cunho eminentemente preventivo. No entanto, a medida foi adotada há menos de 30 dias, então, ainda não é possível apresentar números, principalmente no que tange à questão da prevenção. 

A sra. diz que, em um crime, a possibilidade de atuar na motivação do infrator é mínima, sendo preciso atuar nas outras duas pontas: evitar a vítima vulnerável e o ambiente favorável. Por quê?
É preciso atuar na vítima vulnerável, passando dicas de segurança, e no ambiente favorável, monitorando-o por câmeras, estabelecendo ações de presença policial, etc. Sobre a motivação do infrator, você acha que alguém tem medo de ser preso hoje? Ele escolheu que será criminoso, traficante, fará parte de uma quadrilha.  Não tem medo. Há uma fragilidade da lei nesse sentido; estamos trabalhando com privação de liberdade como exceção. Se o cidadão escolheu viver de um crime e ele sabe que não vai ficar preso, não tem medo disso. 

No bairro Santo Antônio, um homem foi amarrado a um poste após tentar roubar um carro. Algo parecido ocorreu no Rio de Janeiro, onde um jovem foi preso, nu, em um poste. As pessoas estão tentando fazer justiça com as próprias mãos? 
Você está retratando esse caso do Santo Antônio, e eu ouvi sobre outro hoje. Um cidadão, na rua Timbiras, tentou pegar a correntinha de uma moça, e os populares viram e fizeram a contenção. Pelo que ouvi, ele apanhou no local. Primeiramente, é importante considerar que, se a pessoa estiver armada, tentar uma reação contra ela é colocar-se em risco. Se não há arma e se pessoas conseguem contê-la e acionar a PM, não tem problema. A Constituição estabelece que qualquer um pode prender alguém em flagrante. Conter e acionar a PM, sem dúvida, é uma ajuda. Mas, quando se imobiliza a pessoa e a agride, aquele que agride passa a cometer um crime. Você, que teria razão por ser a vítima de um crime, passa a ser autor de outro. E não se soluciona um crime cometendo outro. Sem dúvida, isso retrata a sensação de indignação a que o povo já chegou, por ver a mesma pessoa sendo presa várias vezes, ver a demora no processamento e julgamento de quem comete um crime, ver a preocupação de se ter um auxílio para a família do autor, mas não da vítima. São fatores que vão se somando nessa sensação de indignação. Nós não podemos concordar com um crime praticado para resolver outro, mas precisamos ter a sensibilidade de entender que o cidadão se aproxima do limite de tolerância daquilo que não tem ocorrido da maneira como gostaria em termos de segurança.


O que se aprendeu com as manifestações do ano passado? 
Nós nos deparamos com uma situação nova. As manifestações apresentavam interesses e solicitações difusos, pessoas totalmente heterogêneas, e não havia lideranças. Nesse contexto, é difícil fazer intervenção, funcionar como intermediário. A polícia estava acostumada com manifestações quase diárias, mas de categorias específicas, com lideranças estabelecidas e propostas definidas. Assim, é possível fazer um acordo, combinar o itinerário. E, quando a liderança é eleita, as outras pessoas obedecem: "Vamos caminhar em uma de três pistas, manifestar por 30 minutos, depois nos dispersamos. Combinado? Combinado." Foi o que fizemos na manifestação das professoras, que aconteceu no mesmo dia em que houve o protesto na avenida Antônio Carlos, no primeiro dia de jogo em BH. Nesta última, um pequeno grupo se desprendeu dos manifestantes – que já tinham, inclusive, dado por encerrada a manifestação – e decidiu que não pararia, partindo para cima da polícia, agredida com pedradas, bola de gude, estilingue, coquetel molotov. Mas essas observações nos permitiram estabelecer a atuação na manifestação do 7 de setembro, pois já sabíamos qual era o grupo que vinha com o propósito de prática de violência e dano. A ação das polícias foi legal e legítima, baseada em planejamento de atuação. Um grupo está se reunindo para discutir a questão das manifestações na Copa do Mundo, estamos com um trabalho adiantado para impedir que ações criminosas aconteçam. 

Segundo a Secretaria de Defesa Social, em BH, o carnaval deste ano foi menos violento do que o de 2013, apesar de ter reunido mais pessoas. Houve um planejamento especial?
Muito planejamento e acordo com as comunidades. Os blocos de rua se cadastraram na prefeitura, e foram acordados horário e local de concentração, bem como itinerário. Fora isso, havia palcos em locais específicos, tudo acordado com a PM, com hora de começar a acabar. Além do planejamento, outro fator significativo foi o estado de espírito do folião, que foi para a rua para se divertir. Tivemos algumas ocorrências policiais – extravios de documento, alguns furtos, pequenos roubos, algumas brigas –, mas foi possível um carnaval seguro, devido às reuniões de planejamento com prefeitura, associações de bairros, comerciantes. Os blocos que não se cadastraram, por sua conta e risco, ficaram sem a presença da polícia, e quem lidera isso assume o risco – mas é importante considerar que o policiamento ordinário se manteve em toda a cidade. 

Quais são as prioridades da PM hoje?
Manter o foco na busca da redução dos índices criminais, mas, principalmente, atuar na sensação de insegurança do cidadão. Precisamos estar cada vez mais próximos das pessoas, para que, juntos, possamos encontrar soluções para os problemas que temos, uma vez que o nosso propósito maior é este: que as pessoas se sintam seguras de ir e vir na capital. O importante é o trabalho conjunto.


Houve avanços da segurança em BH?
O mais positivo em BH é a participação massiva e efetiva do cidadão, que hoje é consciente e preocupado com sua segurança. Antigamente, se você perguntasse a uma pessoa onde ficava, no bairro dela, a igreja, o hospital, o supermercado, ela saberia dizer. Mas, se perguntasse onde era a polícia, não saberia dizer. Hoje, ela sabe. Porque se tem trabalhado cada vez mais na proximidade entre o cidadão e a polícia, para que ele sempre saiba a quem recorrer em caso de necessidade. A consciência do cidadão sobre sua importância na construção da segurança pública aumentou muito, e isso é um dos fatores de maior relevância para que a polícia tenha condição de fazer um trabalho de maior excelência. 

Como é ser mulher em um cargo tradicionalmente ocupado por homens?
A mulher está na polícia há 33 anos, e nossa instituição é extremamente democrática. Qualquer um que a integra pode chegar ao último posto, basta que se prepare, se qualifique e seja dedicado. Um cônsul japonês uma vez me disse que uma das coisas que os levaram a ter mais mulheres na polícia é a facilidade que temos na verbalização. Mas, em Minas, vejo que isso não é característica da mulher policial, é no geral. Apesar de mineiro ser pensado como mais desconfiado, conservador, o PM mineiro recebe treinamento para buscar expansividade no trato com as pessoas. O que há de diferença entre homens e mulheres é que não temos a mesma força física que eles, mas a instituição permite o exercício de todas as funções. Mulheres já foram de soldado a coronel; o fato de ser mulher não é tão marcante.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

Como a sra. se descreve no cargo?
Tenho como característica acompanhar tudo de perto. Gosto de ir à rua diariamente, acompanhar as atividades. Claro que tenho as atividades administrativas, as reuniões, mas gosto de acompanhar ocorrências. Assim, vejo como o planejamento está sendo executado, vejo as dificuldades com as quais os policiais se deparam no trabalho, como podemos auxiliar na solução, e converso com os cidadãos, para ver se o trabalho da polícia está atendendo aos anseios da população. Indo ao lugar, consegue-se enxergar com mais facilidade essas questões e, às vezes, adotar soluções naquele mesmo momento.

O interesse pela profissão vem de família?
Meu pai é policial militar, hoje na reserva. Eu o via trabalhando, e isso me interessou. Lembro-me do dia exato em que decidi entrar para a polícia: foi aos 12 anos, quando estava no Clube dos Oficiais, que fica ao lado do pátio da academia. Vi a primeira turma de mulheres que entrou na polícia, alunas do curso de formação de sargento, e elas estavam na aula de ordem unida, ou seja, para aprender a marchar. Eu as vi marchando ao som do bumbo e sabia que queria ser aquilo. No mês em que faria 18 anos, entrei para o curso, no edital da terceira turma. De lá para cá, já são 28 anos de serviço.

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