Onde vamos parar?

Número de assaltos e roubos cresce na capital e desperta sensação de insegurança na população. Alvos principais são a área da Savassi e bairros da região Centro-Sul, como Sion e Anchieta. Comerciantes e moradores estão assustados

por Geórgea Choucair 21/03/2014 15:34

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.


Jair Amaral/EM/D.A. Press
Blitz da Polícia Militar na Praça Sete, centro de BH: ações preventivas para coibir a criminalidade estão sendo intensificadas (foto: Jair Amaral/EM/D.A. Press)

O ritual de trabalho do empresário Yonel Hofman, proprietário da relojoaria Tic Tac, no coração da Savassi, é o mesmo há 36 anos. Ele entra na loja uma hora antes de a freguesia chegar, varre o chão, limpa os vidros e só depois abre as portas. Mas se dentro da sua loja – sempre cheia – a rotina não mudou, o mesmo não se pode dizer do cenário a seu redor, na avenida Getúlio Vargas, quase esquina com avenida Cristóvão Colombo, onde a Tic Tac está instalada.

O glamour da praça Diogo de Vasconcelos (praça da Savassi), vizinha da loja de Hofman, parece, aos seus olhos, ter desaparecido. "Depois que colocaram as fontes de água, os pivetes passaram a tomar banho e lavar roupa por aqui. Teve até homem pelado rodando na vizinhança", afirma. O charme da região, segundo ele, foi se esvaindo principalmente depois que os mendigos passaram a se abrigar do outro lado da avenida, onde tem loja. "A reforma da Savassi só trouxe dor de cabeça. Quebrou muito lojista. Poucos permaneceram da minha turma", diz ele, com olhar triste e feição desolada. 

Hofman fala com propriedade da região, já que trabalha e mora há anos na Savassi, na rua Alagoas. "A situação como morador tem piorado também. É muita insegurança e assalto. À noite, escuto muito alarme disparar", diz o empresário. A preocupação dele, que se alastra para moradores e comerciantes de Belo Horizonte, não está baseada apenas na sensação de insegurança. Ela é comprovada em números. O volume de roubos consumados em Belo Horizonte teve alta de 24,35% de 2012 para 2013, segundo dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). Os roubos saltaram de 22.965 para 28.558 no ano. Na prática, isso significa que, no ano passado, um morador da capital foi roubado a cada 18 minutos. Assustador? Muito.

Fonte: Seds, PM e lojistas
(foto: Fonte: Seds, PM e lojistas)

A criminalidade levou o governador Antonio Anastasia a anunciar, no dia 17 de fevereiro, um pacote de medidas para tentar frear o avanço da violência no estado e aumentar a sensação de segurança da população. Cerca de 1,3 mil servidores civis aprovados em concurso da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) serão convocados para trabalhar no setor administrativo da corporação, liberando outros militares para o policiamento onde eles mais fazem falta: nas ruas. O governador afirmou que o estado trabalha com dois indicadores de violência: os dados estatísticos e a sensação subjetiva de segurança.

O governo designou, ainda, 163 cadetes do curso de formação para reforçar o policiamento preventivo nas regiões com maior índice de crimes violentos. Até 30 de maio, os cadetes vão atuar no hipercentro, avenida Nossa Senhora do Carmo, Gutierrez, Padre Eustáquio, Caiçara, Savassi, Sion, Serra e Santo Antônio." Estamos somando esforços com eles. Vamos unir os ensinamentos da academia à prática de rua", afirma o subcomandante do batalhão acadêmico da PM, Fernão Campelo, Clodoaldo Costa.

Fonte: Seds, PM e lojistas
(foto: Fonte: Seds, PM e lojistas)

As assembleias de bairros que estão  sendo convocadas pelas associações de moradores com faixas nas ruas e divulgação nas paróquias da capital têm um tema em comum: a violência. No dia 24 de fevereiro, os moradores do bairro Gutierrez, região Oeste, reuniram-se com a PM para debater a criminalidade na região. "Depois de mais uma morte que aconteceu por aqui, queremos segurança preventiva, que hoje não existe. Ninguém quer perder a vida para só depois a polícia aparecer", afirma Guilherme Neves, presidente fundador da Associação SOS Bairros, que reúne os bairros Gutierrez, Prado, Calafate e Barroca. No início de fevereiro, o universitário Matheus Salviano foi morto a tiros quando voltava para buscar o carro por volta das 22h no Gutierrez. "A falta de segurança nessas regiões está terrível. A Polícia Militar está transferindo para os cidadãos as responsabilidades que seriam dela", diz Neves.

A aposentada Miriam Flores mora no Gutierrez há 25 anos. No fim do ano passado, seu prédio sofreu dois assaltos. "Há dez anos não vejo policiamento, ronda ou posto policial no bairro. A cidade está mal iluminada, com ruas muito escuras", diz. O estudante Bruno Raydan participou da assembleia que tratou da violência no Gutierrez. Ele mora no bairro desde 2009. "Nos últimos dois anos, aconteceram alguns incidentes na rua onde moro, como roubo de carro e arrombamento de residências. Deveria ter um patrulhamento mais ostensivo no bairro", afirma.

Fonte: Seds, PM e lojistas
(foto: Fonte: Seds, PM e lojistas)

No Anchieta, região Centro-Sul da capital, foram espalhadas faixas por todo o bairro convocando os moradores para reunião para tratar da segurança. "Já que o governo anunciou algumas medidas e prometeu mais policiais na rua, queremos saber o que está trazendo de novo para o nosso bairro", diz Paulo Omar Nascimento Pereira, que mora há 42 anos na região e é presidente da Associação  dos Moradores do Anchieta (Amoran).

A segurança também foi tema de assembleia no dia 18 de fevereiro no bairro Buritis, região Oeste da capital, onde tiveram presentes 200 moradores, deputados, representantes da Polícia Militar e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "Temos visto muita violência aqui no bairro, com vários assaltos e sequestros relâmpagos. Achamos que acontece em função da impunidade, pelo fato de ter muito menor envolvido", observa Maria Consuelo Arreguy, presidente da Associação de Moradores do bairro Buritis. No dia 29 de janeiro, um homem foi morto no bairro, depois de ser baleado ao sair de carro da academia.

Cláudio Cunha
Batida policial na avenida Nossa Senhora do Carmo, próximo ao trevo do Belvedere: região registra assaltos constantes a motoristas parados no sinal (foto: Cláudio Cunha)

Na análise de Ludmila Ribeiro, professora-adjunta do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp), a violência tem acontecido em função da perda de análise e de entendimento das causas. "Temos observado, nos últimos anos, mais ações de cunho repreensivo do que preventivo", afirma. Além disso, diz, há a perda de compartilhamento das informações entre a Polícia Militar e a Polícia Civil. "Hoje cada organização trabalha com suas informações. Aí fica difícil definir onde serão feitas as investigações prioritárias", esclarece.

Moradora e empresária da zona Sul de Belo Horizonte, a comerciante Maria Auxiliadora Teixeira de Souza, presidente da Associação de Lojistas da Savassi, sofre com os incidentes na região nos últimos anos. Sua casa, no bairro Sion, teve oito tentativas de arrombamento só no ano passado. Os ladrões não tiveram sucesso em função do aparato gigantesco de segurança que Maria Auxiliadora tem na casa: 30 sensores de presença, cinco sirenes e uma cerca elétrica. "Meu marido não quer se mudar, pois tem apego pela casa pelo fato de ter sido o pai dele que a construiu. Mas os ladrões só não conseguiram entrar porque temos muito alarme. Aqui está muito perigoso. As ruas são escuras e é rota de fuga para a favela", diz a empresária. Maria Auxiliadora cresceu na Savassi e se entristece ao falar da região onde tem o seu comércio de bijuterias. "O ano de 2013 foi o pior de todos os tempos da Savassi, em consequência da economia do país e das reformas na região. Mais de 60 lojas fecharam. As quatro fontes instaladas aqui viraram banheiro público e dormitório de mendigos", diz.

Samuel Gê
Josilene Soares, gerente de uma loja de lingerie: "Estamos perdendo o movimento nas lojas porque as pessoas preferem a segurança dos shoppings" (foto: Samuel Gê)

Apesar de moradores e lojistas citarem alguns pontos de maior incidência da violência, a PM alega que as ocorrências são espalhadas e evita mapear áreas mais perigosas. "Cada bairro contribui com o aumento da estatística. As ocorrências acontecem em todos eles. Não é característica de uma rua específica", afirma o capitão Jackson Ramos, assessor de comunicação do 22º Batalhão da Polícia Militar na região Sul da cidade. A sua área abrange bairros como São Bento, Belvedere, Mangabeiras, Santo Antônio, Gutierrez, Sion e Anchieta. Ele ressalta que o batalhão tem intensificado o policiamento preventivo na região com viaturas (patrulhas de bairro), táticas móveis e agrupamento de motocicletas, que ganham maior mobilidade. "Temos feito ainda reuniões comunitárias para que, trabalhando em conjunto com a comunidade, possamos aumentar a sensação de segurança das pessoas", diz Ramos. 

Contudo, no dia a dia, o que tem reinado entre os comerciantes é a insegurança. Alguns preferem não se identificar, com medo de represália. O empresário Olímpio Soares tem duas óticas na Savassi, uma na rua Tomé de Souza e outra na rua Pernambuco. Nos últimos três meses, ele já sofreu três furtos na loja. "Se for depender da polícia, eles não chegam. Aqui virou uma terra sem lei", diz. 

Paulo Márcio
Yonel Hofman, dono da relojoaria Tic Tac e morador do Sion: "É muita insegurança e assalto. À noite, escuto muito alarme disparar" (foto: Paulo Márcio)

A gerente da loja de lingerie Carolina Etz, Josilene Soares, tomou duas medidas para evitar danos à loja e às funcionárias: ela vai passar a trabalhar de portas fechadas e encerrar o expediente mais cedo. Tudo isso em função da insegurança na Savassi, depois de sofrer assalto no ano passado, no horário de fechamento da loja. Josilene evita falar do prejuízo. Apenas afirma que há necessidade de maior fiscalização e monitoramento da polícia na região. "Estamos perdendo o movimento nas lojas porque as pessoas preferem ir para os shoppings, que oferecem mais segurança", afirma. Os ladrões, diz, chegam a entrar na loja para oferecer celular roubado. "Eu não vejo policiamento fixo. É só viatura passando", afirma. 

O comandante Marcellus de Castro Machado, da 4ª Companhia do 1º Batalhão da Polícia Militar, responsável pela região da Savassi e Lourdes, explica que o objetivo da polícia não é deixar as viaturas paradas em um só local. "Na Savassi, fazemos a mobilidade para atender à necessidade pontual do bairro. O nosso objetivo não é ficarmos parados em um só local", diz. A PM, segundo Machado, pretende desenvolver um Conselho de Segurança Pública na região da Savassi e Lourdes, com participação do comércio e lideranças comunitárias para recolher toda a informação, necessidades e demanda que a comunidade precisa. "A nossa intenção é ter a participação da comunidade nos assuntos referentes à segurança pública", diz.

Roberto Rocha
A comerciante Maria Auxiliadora Teixeira de Souza, presidente da Associação de Lojistas da Savassi: "As fontes aqui viraram banheiro público" (foto: Roberto Rocha)

Se for depender da opinião pública, a PM terá muito trabalho pela frente. O comerciante Rubens Batista, proprietário da Status Café, Cultura e Arte, não poupa esforços em falar da Savassi. "É preciso que os órgãos públicos entendam que a região é um dos pontos mais importantes da capital, é o cartão-postal", afirma Batista. Ele é um dos comerciantes mais antigos da área. Chegou há 40 anos como jornaleiro, em uma banca de revista em frente à Padaria Savassi, onde atualmente funciona uma operadora de telefonia. Com saudosismo, recorda-se do ponto da esquina entre as avenidas Getúlio Vargas e Cristóvão Colombo, onde se encontravam na padaria personalidades da política, cultura, do empresariado e das artes. "Comíamos pão com salame lá e tudo ainda era retornável, como o casco de refrigerante. O leite era armazenado em garrafas com aquela tampa de alumínio", lembra.

Hoje, Batista é proprietário da Status, na rua Pernambuco. Ele afirma que praticamente "mora" na Savassi, já que chega às 10h no trabalho e só sai por volta da 1h. "O objetivo da revitalização era dar cara nova à Savassi, mas até agora não adiantou. Depende do poder público colocar os olhos voltados para cá. Os mendigos continuam aqui. E o carro da polícia fica alguns dias e vai embora", diz o empresário.

Eugênio Gurgel
Faixa colocada nas ruas do bairro Anchieta convoca moradores para reunião sobre a questão da segurança: associações de bairros estão mobilizadas (foto: Eugênio Gurgel)
 

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) alega que os moradores de rua são pessoas em situação especial e que devem receber acompanhamento social. Segundo a PBH, se algum morador for flagrado cometendo algum delito em área de atuação da Guarda Municipal, as providências serão tomadas. Caso contrário, o direito de ir e vir é assegurado a qualquer cidadão. Já o coordenador do Conselho da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) da Savassi e presidente da Associação de Moradores e Amigos da Savassi (Amas), Alessandro Runcini, diz que os moradores de rua estão se apropriando de algo que é público, como as quatro fontes de água da Savassi. "A situação é grave e crítica. Precisa ser resolvida de forma abrangente e que seja boa para os dois lados. Não queremos nenhuma limpeza, mas sim moradia mais digna", diz. 

Ele ressalta ainda que o Orçamento Participativo de 2011 para 2012 ainda não foi implementado. "O primeiro item a ser tratado eram as câmeras para a região. Só agora, depois de dois anos, que está sendo feita a licitação desses equipamentos", diz. Runcini revela que a Savassi conta atualmente com seis câmeras de vigilância. "Desse total, ficamos sabendo que só uma estava funcionando", diz. A CDL fez, no fim do ano passado, um ofício para a PM pedindo que seja efetuada a manutenção e conserto das câmeras danificadas, além de maior reforço do número de policiais na praça da Savassi. "A verdade é que a violência aumentou não só na região, mas em toda a Belo Horizonte. A segurança está pior", ressalta Runcini.

João Carlos Martins
Morador de rua se refresca na fonte da praça da Savassi: comerciantes reclamam que banhos constantes e até lavagem de roupa afugentam clientes (foto: João Carlos Martins)

Câmeras sem funcionar também são a realidade das ruas da região central da capital. "Com isso, os bandidos estão percebendo que há uma brecha para atuarem. Os pequenos crimes tinham sido reduzidos com a instalação de câmeras e saída dos camelôs das ruas, mas voltaram a acontecer", diz Flávio Fores Assunção, presidente da Associação dos Comerciantes do Hipercentro de Belo Horizonte, que reúne cerca de 3 mil lojistas. Ele revela que a região central contava, no passado, com cerca de 700 policiais – e, hoje, são apenas 230. "Há uma defasagem de pessoas. A maré virou outra vez", diz. O capitão Gibran Maciel da Silva, da 1ª Região da Polícia Militar, afirma que será feito reforço de policiamento preventivo nas áreas de Belo Horizonte que registraram maior número de ocorrências no ano passado, na comparação com 2012, bem como naquelas que apresentaram tendência de aumento nos primeiros meses de 2014. É esperar para ver se a presença de fardas vai crescer entre um quarteirão e outro.

Últimas notícias

Comentários