Movidos pelo medo

Aumentou em BH o número de pessoas que investem na blindagem do carro para tentar escapar da violência. O serviço é caro, não sai por menos de R$ 37 mil, mas deixou de ser visto como luxo

por Pedro Rocha Franco 24/03/2014 14:54

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Cláudio Cunha
"A situação é caótica. A insegurança está extrapolando de tal maneira que a sensação de medo se tornou realidade", diz o empresário Joel Ayres (foto: Cláudio Cunha)
Antes, eram só estatísticas. Até que a violência bateu à porta de casa. Primeiro foi um vizinho que teve o relógio roubado em um semáforo de Belo Horizonte por um ladrão armado; outro conhecido ficou sem o celular e a carteira. Já a cunhada se arriscou ao arrancar o veículo enquanto um criminoso apontava um revólver para sua cabeça. Foi então que o empresário Joel Ayres não teve dúvidas. Mandou blindar o carro da família. "A situação é caótica. A insegurança está extrapolando de tal maneira que a sensação de medo se tornou realidade", diz Joel.

Além do investimento em blindagem, próximo de US$ 20 mil, ele decidiu instalar câmeras e contratar seguranças para sua residência. Com isso, Joel é obrigado a viver praticamente em uma redoma em busca de maior segurança. "Antigamente, tínhamos notícia de uma pessoa assaltada. Depois, omeçamos a ter amigos assaltados. Agora são várias pessoas próximas", diz. As muitas medidas adotadas pelo empresário para diminuir os riscos de ser mais uma vítima assustaram amigos chilenos em visita à casa dele. "Eles ficaram impressionados. No Chile, isso é impensável", afirma o empresário.

O aumento dos casos de crime em regiões nobres da capital mineira tem levado ao crescimento desse tipo de serviço. Na MG Blindados, uma das empresas do ramo em BH, só nos dois últimos meses do ano passado, 13 carros foram equipados com o sistema de blindagem. O número equivale à procura que era registrada em oito meses, há três anos, segundo o proprietário Alexandre Maia da Fonseca. "Era raro alguém procurar o serviço em BH. Tínhamos um mercado muito pequeno. Hoje é crescente", diz ele.

Léo Araújo
Diretor de empresa de blindagem em BH, Alexandre Maia executou o serviço em 13 carros só em janeiro e fevereiro deste ano: o número equivale à procura que era registrada em oito meses, há três anos (foto: Léo Araújo)
Na ATM Blindados, a procura em janeiro foi o dobro em relação ao mesmo mês do ano passado. "Todas as empresas de blindagem estão lotadas. O que há três, quatro anos era um produto para milionário, hoje, é para um cliente assustado", afirma o consultor técnico e especialista no segmento de blindados, Carol Figueiredo.

O carro blindado praticamente isola os ocupantes dos riscos do mundo exterior. Com os vidros fechados, dificilmente o motorista e os passageiros serão coagidos pelo criminoso. Além de resistentes a disparos de revólver e até fuzis (dependendo da categoria de blindagem), o veículo é equipado com uma série de acessórios que facilitam a fuga e praticamente impedem que um assaltante tenha acesso ao interior do automóvel.

Um exemplo é o sistema comunicador com sirene. Os ocupantes conseguem escutar o que se fala do lado de fora, enquanto o ladrão escuta por meio de um alto-falante. Além disso, uma sirene, semelhante à de viaturas, é acionada para indicar o assalto, chamando a atenção de quem passa. E mais: os pneus são reforçados com um sistema que permite ao condutor dirigir por tempo suficiente para escapar de um local de crime, caso ele tenha sido furado por um tiro.

Especialista no sistema, Carol Figueiredo, no entanto, aconselha aos proprietários de veículos blindados a se preparar para saber usar o carro em certasocasiões. Entre os conselhos dados por ele, está o de nunca baixar os vidros, não parar em locais desconhecidos e perigosos na madrugada e fazer curso de direção defensiva. "É preciso saber que ele não é o Batman. No dia em que uma pessoa aponta um revólver em sua direção, mesmo atrás de um vidro blindado, você precisa estar preparado, porque as pernas tremem", afirma Figueiredo.

Na lista de pessoas que têm optado por equipar o automóvel para ter maior segurança estão advogados, engenheiros, médicos, empresários e, claro, famosos, como jogadores de futebol, músicos e atores. O fotógrafo Alberto Wu é um dos adeptos. Há quase duas décadas, ele e a família decidiram trocar São Paulo por Belo Horizonte em busca de mais segurança e tranquilidade. Pacata, a capital mineira era a esperança para se escapar do caos da maior metrópole do Brasil.

Alberto não faz parte da lista de vítimas da violência – pelo menos diretamente. Por outro lado, ele vê a criminalidade aproximar-se. Escutar histórias de colegas de profissão assaltados se tornou algo "comum". Como anda com equipamentos de trabalho que podem valer até R$ 20 mil, decidiu se prevenir para dificultar a ação de criminosos. "Seja classe A, B ou C, estão todos insatisfeitos. Os índices de criminalidade chegaram a níveis tão altos que leva os cidadãos a se precaver. A blindagem deixou de ser luxo e tornou-se necessidade", diz.

Grávida, a empresária Bárbara Santos Aguiar perdeu um pouco da agilidade, "gastando mais tempo para entrar e sair do carro", o que, nas proximidades do parto, inclusive, fez com que, por questão de segurança, deixasse de fazer certas atividades por não querer dirigir. A gota d’água para decidir por comprar um carro blindado, no entanto, foi o assalto sofrido por sua mãe, acompanhada de seu filho, de 5 anos. De moto, dois
assaltantes roubaram a bolsa e o celular da mãe e a mochila do garoto. "Meu filho ficou muito impressionado. Sem saber por que uma pessoa que ele não conhece tirou um bem dele. Tive de tentar explicar a situação para ele", explica Bárbara.

Cláudio Cunha
Há quatro anos, o fotógrafo Alberto Wu decidiu equipar seu SUV com o nível 3A, eficaz até contra submetralhadora 9 mm: "A blindagem deixou de ser luxo e tornou-se necessidade" (foto: Cláudio Cunha)
O carro blindado foi uma das formas encontradas por ela para tentar recuperar um pouco a segurança do filho e de toda a família. O menino teve de entender o funcionamento do carro e ainda fez teste para verificar se realmente estava seguro: "Ele deu um chute no pneu para ver se furava", conta ela, que lamenta o fato de o filho ter de se preocupar com coisas que ela nem pensava quando pequena, como o simples fato de poder andar com o vidro do carro aberto. Amedrontado, o pai de Bárbara também mandou blindar o carro da esposa e planeja fazer o mesmo com o dele.

Mas, diferente da família de Bárbara, que foi vítima direta da violência, na maioria dos casos, quem tem optado por blindar o carro o faz por receio e prevenção, explica o especialista Carol Figueiredo. Nos casos do empresário Marcelo Cohen e do advogado Sérgio Rodrigues, bastaram a repetição de crimes com pessoas próximas para eles tomarem essa providência. "É o conjunto da obra", afirma o Sérgio Rodrigues.

Além do próprio carro, há nove meses, Marcelo Cohen investiu também na blindagem dos automóveis das filhas, da mulher e de um irmão. "Tenho escutado muitos casos de roubos de relógio, de bolsa. Fico preocupado com minha família", diz ele, que, por precaução, não usa mais relógio.

Além de blindar o carro, o advogado Sérgio Rodrigues decidiu fazer treinamento para ter porte de arma, mesmo sem saber ainda se andará com um revólver ou se apenas o manterá em casa. "Não me preocupo somente comigo. Do ano passado para cá, muitos amigos foram vítimas no trânsito e tenho de me resguardar", diz, pensando no filho. Para ele, o carro blindado impede que ele seja surpreendido até mesmo ao entrar em casa.

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