Vai de bermuda?

O calor constante e a entrada da geração Y no mercado de trabalho têm feito a peça ganhar cada vez mais espaço no ambiente corporativo. Mas atenção: é preciso bom senso para usá-la sem perder a credibilidade

por Marina Dias 27/03/2014 15:59

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Cláudio Cunha
Thomás Capiotti e Mauro Freitas (ao fundo, da esq. para dir.) e Rafael Nascente e Tiago Alves (em primeiro plano, da esq. para dir.) trabalham de bermuda no programa de aceleração de start ups do governo de Minas: lá, o estranho é não usar a peça (foto: Cláudio Cunha)
Ela é sinônimo de calor, praia, lazer e fim de semana. Combina com óculos escuros, regata e chinelo. Cai bem nos dias de folga. Certo? Ok. Mas, neste verão, a bermuda deu um grande passo em direção ao armário corporativo e promete se consolidar no dress code profissional – ao menos, nos dias mais quentes. Afinal, com as temperaturas chegando a 30° C quase todos dias em BH – e superando 40° C em outros lugares do país –, não foi fácil para os homens manter a pose, trajando calça e camisa social, ao longo de toda a estação. 

Daí a força que a bermuda vem ganhando: para os homens, ela faz o papel das saias e vestidos que as mulheres costumam usar para trabalhar. Órgãos públicos de cidades como São Paulo (SP), Porto Alegre (RS), Taquara (RS) e Curitiba (PR) liberaram, até o fim do verão, usos da bermuda para servidores em algumas situações. Entre empresas privadas, o tradicional Grupo Ibope entrou na onda e também passou a permitir a peça este ano. 

A questão ganhou força – e mais debate – em dezembro, quando uma grande manifestação a favor da bermuda começou no Rio de Janeiro (onde, aliás, a peça já é permitida para servidores públicos municipais há dez anos, durante o verão), com o movimento on-line Bermuda Sim. Os publicitários Ricardo Rulière, Guilherme Anchieta e Vitor Damasceno – todos de 20 e poucos anos – criaram uma página em uma rede social pedindo o uso da bermuda em ambientes corporativos. A página já foi curtida por mais de 17 mil pessoas.

Cláudio Cunha
O empresário Adriano Guimarães (sexto, da esq. para a dir.) liberou o dress code de sua equipe: "O funcionário tem de estar confortável para fazer seu trabalho, o que inclui uma vestimenta menos rígida" (foto: Cláudio Cunha)
No site que criaram em seguida, em janeiro, além de dicas de como usar a peça, oferecem uma ferramenta com a qual qualquer pessoa pode enviar um e-mail anônimo para o chefe, pedindo a flexibilização do código de vestimenta da empresa. Até agora, já foram 18 mil e-mails enviados. "Vemos a bermuda como um símbolo. É claro que um escritório de advocacia não tem como liberar a peça, mas pode abandonar gravata e terno quando os empregados estiverem dentro do escritório", diz Ricardo, lembrando que tribunais de Justiça do Rio e de São Paulo já tiraram a exigência de terno e gravata, exceto em dias de audiência, até o fim de março. "Estamos vendo a adesão em todo tipo de ambiente, desde empresas menores e mais novas até algumas mais tradicionais", diz, comemorando. "É um desejo de muita gente. O jeito com que nos vestimos não tem a ver com o Brasil", diz.

Entre os empreendedores mais jovens, a medida é muito popular. No Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development (SEED), programa de aceleração de start ups  do governo de Minas, que mantém um espaço de trabalho em Belo Horizonte, o difícil é achar alguém que não esteja de bermuda. Os sócios Tiago Alves, de 27 anos, e Rafael Nascente, de 24, usam a peça com frequência quando estão no SEED, onde desenvolvem sua empresa de tecnologia. "O estranho, aqui, é alguém chegar engomadinho", brinca Rafael, que, antes de virar empreendedor, ia trabalhar em uma empresa cujo dress code era formal. "Desisti. Não só pelo código, mas pela rigidez", afirma.

Samuel Gê
Fernando Lopes (à frente) e seus colegas, que podem usar bermuda no trabalho desde janeiro: "Temos ar condicionado, mas o calor é forte durante o almoço e na ida e volta para o escritório" (foto: Samuel Gê)
Os dois sócios admitem que essa liberdade para se vestir é algo mais comum nas gerações mais novas e nas empresas lideradas por jovens – principalmente nas áreas de tecnologia e publicidade –, que não se preocupam tanto com formalidade no traje. Por isso, Tiago reforça a importância de se adequar a cada ambiente, motivo pelo qual admite vestir uma roupa mais formal quando vai visitar clientes. "Se o cliente é mais formal, é preciso respeitá-lo. Mas, se ele vier até aqui, verá várias pessoas de bermuda", diz.

Para a consultora de moda Glória Kalil, a ideia é bem aceita entre os jovens, mas tende a se popularizar. Segundo ela, o código de vestimenta do Brasil é importado da Europa, o que faz dele inadequado para os trópicos. Além disso, ela lembra que esse código nunca foi revisado e, hoje, não se pensa da mesma forma. "A etiqueta moderna tem menos a ver com convenção e mais a ver com sentido. O que não faz sentido tende a cair com o tempo", explica.

Mas não é só a geração Y que foi seduzida pela bermuda. Depois de passar anos da carreira obrigado a seguir códigos formais e a usar terno e gravata diariamente, o empresário Adriano Guimarães, de 41 anos, decidiu fazer diferente na sua própria empresa. Há três anos, liberou o dress code da equipe – vale ir de bermuda, camisa de malha e até chinelo. "Tratamos de inovação. Então, entendo que o funcionário tem de estar confortável para fazer seu trabalho da melhor forma, desde um ambiente acolhedor até uma vestimenta menos rígida", conta ele, que prefere a calça jeans e blusa polo, mas também é fã de uma bermuda. "Temos muitos jovens em início de carreira. Exigir desse pessoal que sejam muito formais não faz sentido: a roupa não pode ser um fator impeditivo", completa.


Fora do ambiente de tecnologia e criação, há também alguns que resistem ao código europeu. O engenheiro químico Leandro de Oliveira, de 49 anos, é professor universitário e adepto da bermuda, que usa em sala de aula, orientação de alunos e até nas reuniões que não exigem muita formalidade. Apesar de a instituição onde trabalha não ter dress code formalizado, o acadêmico diz que percebe, por parte de colegas, olhares de reprovação. "É interessante perceber que, para determinadas profissões, como a de carteiro, a bermuda é perfeitamente aceitável como parte do uniforme", observa ele, que já morou no Havaí (EUA). "Lá, e em outros lugares do mundo, a bermuda é aceita, mesmo em ocasiões de maior formalidade", afirma.

Como no Brasil a peça ainda não foi oficialmente incorporada ao armário corporativo, especialistas em recursos humanos sugerem cautela por parte dos empregados. Segundo Beatriz Delgado, diretora executiva da Associação Brasileira de Recursos Humanos de Minas Gerais, o dress code faz parte da cultura organizacional, por isso, o processo é lento para sua mudança, já que envolve mexer nos valores das empresas – algumas delas, muito tradicionais. "A mudança começa nas empresas jovens, criativas, com pessoas desapegadas a esse tipo de código, e a tendência é que seja incorporada ao modo de vida das empresas. Mas, nas mais tradicionais – e o mercado mineiro tem essa característica –, o processo é lento. Nem sei se, algum dia, a bermuda será totalmente aceita", diz. No entanto, Beatriz incentiva os funcionários a conversar sobre o código de vestimenta no trabalho e a perguntar sobre a possibilidade do uso da bermuda. "Hoje, a comunicação é transparente dentro das empresas. É melhor perguntar e saber se pode ou se incomodará", afirma.


Algumas empresas entenderam essa demanda e decidiram adaptar o dress code, como a Totvs, uma das referências em tecnologia no país. A companhia reformulou seu código – basicamente, o uso de roupa social – e, desde janeiro, permite uso de bermudas jeans e de sarja. Em Belo Horizonte, o líder de inovação Fernando Lopes, de 29 anos, já virou adepto do novo traje. "Achei ótimo. Nós temos ar condicionado, mas o calor é forte durante o almoço e na ida e volta para o escritório", diz ele, que guarda uma calça na gaveta para ocasiões mais formais que possam surgir de surpresa. "A bermuda traz mais conforto e, consequentemente, pode trazer mais bem-estar e produtividade", afirma.

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