Coisa de Primeiro Mundo

Os carros compartilhados, sucesso na Europa e América do Norte, ganham adeptos no Brasil, mas ideia depende da vontade do poder público e da iniciativa privada

por Fábio Doyle 28/03/2014 17:40

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Daimler/Divulgação
Frota do Smart em Colônia, Alemanha: conceito do carro compartilhado pode ser uma alternativa para a questão do trânsito no país (foto: Daimler/Divulgação)
Deixando Belo Horizonte para trás, Leonardo e Maria chegaram em abril de 2012 a Stuttgart, na Alemanha, preparados para lá viverem por dois anos. Ela, advogada contratada por uma empresa de consultoria internacional, e ele em busca de novos conhecimentos. O casal logo se instalou em um apartamento na cidade sede da Daimler, a conhecida marca da estrela de três pontas, fabricante dos automóveis Mercedes-Benz e do subcompacto Smart. 

Resolvidas as questões de moradia, Leonardo Kubitschek saiu em busca de um meio de locomoção. A ideia era comprar um carro. Escolheu um Audi A3 pelo sistema de leasing. Daria entrada de 2 mil euros e prestações mensais de 350 euros por dois anos. Antes de fechar o negócio, ele lembrou que seu prédio não tinha garagem. Pesquisando, descobriu que poderia inscrever seu veículo na prefeitura da cidade, de forma a ter direito a estacionar em locais públicos no bairro em que vivia, mas observou que, além das dificuldades para achar vagas, fora do seu bairro as dificuldades seriam maiores e mais caras.

João Carlos Martins
Leonardo Kubitscheck, especialista em mobilidade: "Para que as pessoas deixem o carro na garagem, basta ter oferta, confortável e pontual, de transporte coletivo" (foto: João Carlos Martins)
Na busca de alternativas, viu que é muito fácil se locomover sem carro na cidade berço do automóvel. O transporte público é perfeito. Metrô, trens urbanos e ônibus funcionam com precisão de relógio suíço. Descobriu ainda que a cidade oferece o sistema de bicicletas compartilhadas (bike sharing) e, como se não bastasse, verificou que, para os momentos em que um carro é necessário, a cidade, em parceria com a Daimler, a locadora Europcar e a companhia de energia local, oferece, desde 2008, o sistema Car2Go. É o sistema car sharing, ou carros compartilhados, que funciona de forma semelhante ao bike sharing. Se precisar de um carro para fazer compras ou simplesmente optar pelo uso de um carro para ir a algum lugar, basta pegar o veículo nas proximidades de onde estiver e devolvê-lo onde for mais conveniente. A Daimler fornece a frota de carros Smart, a locadora gerencia o negócio e  a empresa distribuidora de energia abastece a frota de carros 100% elétricos.
 
Diante de tamanha facilidade, Kubitschek não pensou duas vezes. Abandonou a ideia de comprar um automóvel e se cadastrou no sistema Car2Go. Aproveitou a promoção de custo zero para novos participantes e logo recebeu em casa o cartão magnético, que é a chave de acesso aos carros. Entre três empresas que operam o car sharing  em Stuttgart, ele optou pela Car2Go. No mês passado, o sistema foi ampliado com a introdução do Car2Go Black, que acrescentou à frota 200 unidades do Mercedes-Benz Classe B.  

O sistema do car sharing é simples e funcional. A frota do Car2Go fica acessível em todas as cidades onde o sistema está implantado. São 25 localidades em sete países europeus, nos Estados Unidos e no Canadá. O cartão de identificação funciona como a chave do veículo. Os carros estão espalhados pela cidade e podem ser estacionados/devolvidos em qualquer lugar dentro da área de atuação definida pelo sistema. Para isso, o GPS no painel do veículo, além de navegar o cliente até o seu destino, orienta sobre os procedimentos de uso e encerramento do serviço. Quando o usuário necessita do carro, ele localiza o mais próximo com ajuda de um aplicativo em seu smartphone. Vai até ele e, com o cartão, abre o veículo e dali inicia o uso, que é cobrado pelo tempo, sem limite mínimo. "A devolução do automóvel pode ser em qualquer lugar, desde que em local permitido e dentro da área de atuação do sistema", explica Kubitschek. Ele conta que sua despesa com o Car2Go era de aproximadamente 30 a 40 euros por mês – e que só o utilizava quando realmente precisava de um meio individual de transporte. No dia a dia, o casal Kubitschek utilizava, de forma integrada, a bicicleta, o metrô e os trens, sempre levando no ombro a roller, uma patinete dobrável, colocada em ação em trajetos mais curtos e planos. Era a forma de percorrer, com maior rapidez e conforto, trechos planos que normalmente seriam feitos a pé.

Cartão que serve como chave e cadastro para os usuários dos carros compartilhados
Foi a partir dessa experiência e da forma como o sistema car sharing o impressionou que Leonardo se interessou pelo tema mobilidade, que hoje é o foco de sua carreira. Nos dois anos em que viveu na Alemanha, além de aprender o idioma, trabalhou na Daimler em projetos voltados para a área de marketing e publicidade.

Ao contrário do que está sendo apregoado em debates sobre mobilidade urbana, Kubitschek acha equivocada a qualificação do carro como "o cigarro do futuro" (ou seja, de uso cada vez mais restrito). Ele defende o automóvel como forma integrante e necessária à mobilidade e diz que o carro, como transporte individual, é apenas uma das modalidades que fazem parte da mobilidade urbana – que deve ser estudada e planejada no contexto da evolução e desenvolvimento dos centros urbanos. O carro, diz ele, é injustamente colocado como o culpado dos caos urbano, mas é na verdade a tábua de salvação para  quem precisa se locomover em uma grande cidade onde não existe planejamento de trânsito e a oferta de transporte coletivo é  precária.

"É óbvio que, se nas grandes cidades brasileiras houvesse ofertas confiáveis, confortáveis e pontuais de transporte coletivo, as pessoas deixariam seus carros na garagem e optariam pelo mais prático e racional. Culpar e condenar os automóveis não leva ninguém a lugar nenhum. O estágio em que se encontra a questão da mobilidade no Brasil está anos-luz atrás do que já existe em centros urbanos na Europa. O que precisamos é de vontade e seriedade política para planejar e colocar em prática as soluções da mobilidade urbana, ressalta.

Resultado: O sistema Car2Go torna o ato de dirigir na cidade tão fácil como dar um telefonema
"Na área do compartilhamento, precisamos que, como na Alemanha, onde a iniciativa privada implantou o serviço, os grupos do setor assumam a iniciativa  e transfiram para os centros urbanos do Brasil as experiências já comprovadas e aprovadas na Europa", completa. Há quem afirme que, diante do crescimento cada vez menor na demanda de carros, principalmente em mercados já maduros, a salvação da indústria automobilística é o car sharing. A frota do sistema Car2Go conta hoje com 10 mil unidades do Smart, mais de 600 mil clientes cadastrados e mais de 18 milhões de operações realizadas. 

O sistema de compartilhamento de bicicletas no Rio de Janeiro é exemplo da viabilidade dessa iniciativa. Em São Paulo, um empreendedor de pequeno porte implantou na capital paulista, há  quatro anos, o Zazcar, sistema de compartilhamento de carros. A iniciativa funciona, mas é ainda limitada e tímida: tem frota de 14 carros e 350 clientes. 
De volta ao Brasil, Kubitschek, sobrinho-bisneto de ex-presidente Juscelino Kubitschek, o homem que trouxe para o Brasil a indústria automobilística e as rodovias, já está de malas prontas para nova mudança. Desta vez, vai para São Paulo, contratado por um empresa de consultoria internacional, onde trabalhará com o tema mobilidade – e, quem sabe, conseguirá a tropicalização do car sharing.

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