Fora da rede

Com dez anos de história, o Facebook continua líder mundial entre as mídias sociais, mas seus usuários começam a demonstrar cansaço com o excesso de exposição e a contestar os benefícios de se manterem conectados

31/03/2014 14:16

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Samuel Gê
A estudante Renata Paiva com o filho Miguel, de 7 meses: "Sempre me pediam para postar fotos do Miguel. Comecei a achar que meu filho ficava muito exposto e resolvi sair" (foto: Samuel Gê)
No dia 19 de fevereiro, uma oferta de dezesseis dígitos reposicionou as fronteiras do universo virtual. O Facebook, líder entre as redes sociais de todo o mundo, estendeu sua hegemonia ao adquirir o aplicativo de bate-papo Whatsapp por US$ 16 bilhões – valor bem acima de outras transações já feitas no meio. Em abril de 2012, o Face já havia desembolsado US$ 1 bilhão na compra do aplicativo de compartilhamento de fotos Instagram.

A diferença é que, dessa vez, a ação veio como um contra-ataque do exército de Mark Zuckerberg, fundador e presidente-executivo do Facebook, àqueles que profetizavam o fim de seu império. A rede, que completou recentemente 10 anos, não tinha até então, tantos motivos para comemorar. Em janeiro, um levantamento da consultoria iStrategy revelou que o site estava perdendo espaço entre o público jovem. Segundo a pesquisa, mais de 3 milhões de adolescentes americanos haviam deixado o Facebook nos últimos 3 anos – ou seja, nos Estados Unidos, 1 milhão de jovens, em média, estão deixando a rede todos os anos.
 
Junto a isso, estudiosos da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, trouxeram polêmica ao cenário das mídias sociais. Utilizando-se de modelos usados para calcular o ciclo de vida de epidemias, os pesquisadores constataram que, até 2017, o Facebook perderia 80% de seus usuários. Ao comparar a rede a uma doença, o estudo afirmava que, passada a fase de "contaminação", as pessoas "infectadas" iniciariam um processo para se tornarem imunes. Loucura ou não, a projeção apocalíptica chamou a atenção da mídia e instaurou um debate sobre qual seria o futuro do site. Estaria o Facebook atravessando uma fase de saturação ou atingindo sua maturidade?

Geraldo Goulart
Ana Carolina Vitorino, estudante: "Muitos não sabem fazer bom uso da rede, com excesso de postagens e exposições desnecessárias. Ficou cansativo" (foto: Geraldo Goulart)
Agora que Zuckerberg parece ter virado o jogo com a compra do Whatsapp, as previsões nefastas sobre seus negócios foram afastadas. Ainda assim, existe uma legião disposta a resistir aos domínios do Facebook – e os motivos são vários. Há três meses, a estudante Renata Paiva, de 21 anos, colocou na balança sua privacidade e a do filho Miguel, de apenas 7 meses. Resultado: decidiu se desconectar. "Sempre me pediam para postar fotos do Miguel. Comecei a achar que meu filho ficava muito exposto", explica. Quando criou a conta, 8 anos atrás, a estudante queria se comunicar com uma tia que mora nos Estados Unidos. Mas, à medida que outros colegas entraram na rede, a ferramenta perdeu sua função primordial e passou a ser uma prioridade em seu dia-a-dia. "Fiquei escrava do Facebook. Estava amamentando o meu filho com o celular na mão. Às vezes, deixava de dar atenção a ele, pois queria sempre saber as atualizações, ver fotos. Era uma necessidade." 

Samuel Gê
Orozimbo Henriques Campos, farmacêutico: "No interior, as pessoas convivem umas com as outras. Acredito que as redes sociais sejam uma maneira de se relacionar, mas muitos as usam para mostrar como estão felizes, o que têm feito, por onde têm andado. Não há necessidade disso" (foto: Samuel Gê)
Como Renata, Ana Carolina Vitorino, estudante de 18 anos, afirma que decidiu sair da rede social quando percebeu que o acesso estava tomando muito o seu tempo. Porém, para ela, o principal motivo foi o descontentamento com o conteúdo. "Muitos não sabem fazer bom uso da rede, com excesso de postagens e exposições desnecessárias. Ficou cansativo", diz. Afastada desde outubro, ela não se arrepende. "Me perguntam como estou conseguindo viver sem o Facebook. Acordava e a primeira coisa que fazia era entrar no site. Hoje, nem acredito nisso. Andava na rua mexendo no celular, desatenta. É até perigoso", alerta. 
 
O "basta" para Bruno Rocha veio muito antes. Há dois anos, ele optou por abrir uma conta, porém permaneceu ativo por apenas 3 meses. "Entrei por pressão. Minha esposa e amigos falavam que era legal. Mas não vi utilidade", afirma o engenheiro de 29 anos. Bruno preferiu outras ferramentas, como o Twitter e o LinkedIn – rede de contatos profissionais – que, segundo ele, atendem melhor aos seus interesses.

Já Orozimbo Henriques Campos, farmacêutico de 29 anos, não chegou nem perto de fazer seu cadastro no Facebook. Natural de Igaratinga, em Minas Gerais, mas hoje estabelecido em Belo Horizonte, ele acredita que as relações nesse contexto são muito superficiais. "No interior, as pessoas realmente convivem umas com as outras. Acredito que as redes sociais sejam uma maneira de se relacionar, principalmente nas grandes metrópoles, em função da distância. Mas o problema é que muitos usam a ferramenta para mostrar à sociedade como estão felizes, o que têm feito, por onde têm andado. Não há necessidade disso", diz.
 
A mestranda em antropologia Bárbara Altivo, de 23 anos, compartilha do mesmo pensamento. "É incômoda a maneira como as pessoas expõe assuntos pessoais. Há um narcisismo, um culto de si próprio nessas redes, principalmente pela juventude. Além disso, pessoas que eram minhas amigas no Facebook não me cumprimentavam quando me viam na rua. Comecei a questionar esse tipo de relação." A conta, desativada há um ano, abriu espaço para que ela descobrisse novas formas de vivenciar a internet, direcionando o uso para blogs e sites cujos conteúdos lhe parecem mais interessantes. Com o pé atrás, Bárbara vai mais além e questiona a segurança das informações que são disponibilizadas na rede. "Vivemos hoje em um mundo extremamente conectado. Em situações de crise e espionagem, o Facebook é uma fonte de informações". Em meados do ano passado, o jornal londrino The Guardian revelou que o acervo da rede teria sido usado para investigações pela Agência Nacional de Segurança (NSA) americana.

Àqueles que sentem necessidade de estar constantemente "online", a psiquiatra e especialista em distúrbios causados pelo uso patológico da internet Gilda Maria Paoliello alerta  para o risco de aprisionamento no mundo virtual. "As redes parecem oferecer recursos inestimáveis para preencher a demanda humana por conexão social. Mas podem gerar compulsão ou alienação", afirma. Para identificar sinais de abuso, é mais importante levar em conta o uso que se faz das redes do que a freqüência de acesso – já que algumas pessoas trabalham longo tempo conectadas à internet. "Porém, se a pessoa percebe que está perdendo o controle sobre o tempo que passa conectada e que sofre quando está fora da rede, ela deve colocar limite". Familiares e amigos próximos podem ajudar a monitorar a freqüência. Se o problema persistir, a pessoa deve procurar ajuda profissional.

Para aqueles que estavam na torcida pelo declínio do Facebook, o pesquisador em mídias sociais e doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Ruleandson do Carmo adianta que a rede está longe de ter seus dias contados. "Rede social também é uma questão de status. Quando surge uma novidade, vira modismo, e passa a ser brega manter-se na versão anterior". Algo semelhante aconteceu com o Orkut, outra rede de relacionamentos. "Criado praticamente junto ao Facebook, em janeiro de 2004, o Orkut fez sucesso primeiro no país. Chegou a ser o site mais acessado pelo brasileiro, à frente até mesmo do Google. Era um fenômeno!" Com a ascensão do Facebook, hoje praticamente caiu no esquecimento. Segundo o pesquisador, a internet é muito dinâmica, sendo difícil prever até quando um site permanecerá popular.

Embora seja possível detectar sinais de desgaste em usuários do Facebook, Ruleandson afirma que interpretá-los como o colapso da maior rede social do mundo não condiz com a realidade. "Vejo que algumas pessoas se cansaram de tanta exposição, jovens que estão incomodados com a presença da família e de adultos na rede e que optam por sair. Mas o Facebook fez algo inédito, conseguindo reunir vários serviços na mesma plataforma e, até então, não surgiu nenhum site que o tenha impactado", conclui. E, pelo visto, a equipe de Mark Zuckerberg está disposta a agir ao menor sinal de ameaça. What’s up, Zuck?

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