A falta que eles fazem

Referências do humor brasileiro nos anos 1970 e 1980, os mineiros Henfil e Zacarias são hoje pouco conhecidos dos mais jovens

por João Pombo Barile 31/03/2014 16:36

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Reprodução/Cláudio Cunha
(foto: Reprodução/Cláudio Cunha)
"A cada 15 anos, o Brasil esquece os últimos 15 anos." A frase do escritor Ivan Lessa resume bem a maneira como o Brasil se relaciona com a cultura. O próprio Lessa, morto em 2012, já caiu no esquecimento e é um anônimo para a nova geração, mais interessada no Facebook e no WhatsApp. Espécie de praga nacional, o esquecimento acaba de fazer mais duas vítimas: o humorista Zacarias, morto em 1990 e que em janeiro teria feito 80 anos; e o cartunista Henfil, que morreu em 1988 e que em 2014 completaria 70 anos. O aniversário dos dois mineiros passou meio batido da grande mídia e nem de longe tiveram a cobertura e o destaque merecidos.

"Hoje, não é todo mundo mesmo que conhece o Mauro", atesta a simpática Marly Gonçalves, irmã do eterno Zacarias, personagem criado pelo ator Mauro Gonçalves e que durante décadas divertiu milhões de brasileiros na TV e no cinema (veja box). "Geralmente, só quem tem mais de 20 anos é que ainda se lembra dele", diz.

Jose Pereira/EM
(foto: Jose Pereira/EM)
Wilma Gonçalves, outra irmã do artista, revela que, na intimidade, Mauro nem de longe lembrava o Zacarias da TV. "Quem o viu na televisão não tem ideia de como ele era na intimidade. O Mauro era reservado, tímido, brincava só com os conhecidos e a família", explica. Tanta sisudez só acabava quando o irmão, ainda menino, começava a brincar de ser ator, e aí ele se transformava: "É verdade. Desde pequeno, ele já gostava dessa coisa de artista: pegava as roupas da mãe e ficava imitando um monte de gente. O mais curioso é que lá em casa ninguém mexia com isso. Era um dom dele mesmo", conta Wilma.

As duas irmãs se emocionam ao lembrar-se do irmão e da relação que ele tinha com a mãe. Muito ligado a dona Virgínia, que morreu em 2000, Marly conta que Mauro viajava todo ano até Sete Lagoas para passar o Natal com a mãe. "Depois, os dois iam juntos para o Rio para ver os fogos em Copacabana. Nossa mãe amava ver o espetáculo da queima na praia", diz.

Reprodução/Cláudio Cunha
Cartaz do filme Os Trapalhões na Serra Pelada: um dos maiores sucessos de bilheteria estrelado pelo quarteto (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)
Mas a lembrança de Zacarias, pelo menos na sua terra natal, fica apenas entre os familiares. Em Sete Lagoas, a única homenagem ao artista está localizada no Centro Cultural Nhô-Quim Drumond, mais conhecido como Casarão. Em uma sala, de maneira improvisada, funciona um memorial. No pequeno espaço, parte do acervo do Trapalhão mineiro doado pela família e pela TV Globo: roupas que foram usadas por ele, fotos, reportagens, discos e até algumas das famosas perucas. "Muita coisa já sumiu, foi roubada", diz Wilma.

Realistas, as duas irmãs não acreditam mais que um memorial, feito especialmente para homenagear Zacarias e uma promessa da prefeitura de Sete Lagoas há mais de 30 anos, algum dia se tornará realidade. "Entra prefeito, sai prefeito, e eles sempre falam que vão fazer. Ouvimos essa conversa desde a época em que o Mauro era vivo. Sinceramente: não acreditamos mais", constatam, resignadas.

Já no caso de Henfil (veja box), a praga do esquecimento parece ter feito um pouco menos estrago. Se seu nome nem de longe tem a popularidade que teve nos anos 1970/80, quando durante a luta pela anistia escrevia cartas para a mãe, dona Maria, e criticava o então general João Batista Figueiredo (último presidente militar do Brasil), Henfil tem alguns fãs nas gerações mais novas. Sobretudo entre a moçada que curte quadrinhos. No ano passado, a Coleção Fradim começou a ser lançada: serão 31 edições que reúnem um pouco do trabalho do genial artista mineiro.

Cláudio Cunha
As irmãs Marly e Wilma Gonçalves, com a foto de Zacarias: elas mantêm parte do acervo do humorista em um centro cultural de Sete Lagoas (foto: Cláudio Cunha)
"Henfil, de fato, ainda é pouco conhecido das novas gerações, num país em que prevalecem a cultura conformista, o consumismo alienante e o desprezo pela memória histórica", acredita Dênis de Moraes, autor da mais importante biografia escrita sobre Henfil. Moraes, que é professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), espera que, com a reedição do seu livro neste ano, ele seja mais lembrado. "Com a nova edição, revista e ampliada do meu livro O Rebelde do Traço: A Vida de Henfil, espero contribuir para um conhecimento mais amplo da trajetória de um dos mais criativos e combativos artistas brasileiros do século XX", diz.

Dênis de Moraes, no entanto, relativiza o completo desconhecimento das novas gerações sobre o trabalho de Henfil. E chama a atenção para a permanência de Henfil no imaginário das novas gerações que acompanham seu trabalho. "Nos recentes eventos em memória aos 70 anos do artista, a circulação de artigos e desenhos de Henfil pelas redes sociais foi enorme e surpreendente", conta.

O cartunista Laerte Coutinho, um dos mais geniais quadrinistas brasileiros da atualidade, não acredita que Henfil, de quem era amigo, tenha sido esquecido: "Pelo menos na minha área, o Henfil ainda é muito conhecido. Ele é uma referência obrigatória para qualquer um de nós", comenta o artista, que se diverte ao tentar imaginar o que seu querido amigo estaria desenhando hoje. "Não faço a mínima ideia de como o Henfil estaria vendo o mundo de hoje. Mas acho que, certamente, ele estaria ironizando muito os ditos poderosos", diz Laerte. 

Em 2009, o único filho de Henfil, Ivan Cosenza de Souza, fundou o Instituto Henfil, para preservar a memória do cartunista, escritor, quadrinista e jornalista. O acervo tem milhares de originais, além de outros documentos reunidos pela família.

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