Para dormir como um anjo

Saiba quais são os principais distúrbios do sono e confira algumas dicas para desfrutar de uma noite tranquila

por Rafael Campos - Revista do Correio 02/04/2014 11:16

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(foto: Shutterstock)
Você já deve ter escutado alguém dizer: "Dormir é perda tempo". Então responda rápido: o que você faz antes de dormir? Como é o seu quarto? Quais atividades você se propõe a fazer na cama: comer, estudar, ouvir música, teclar no smartphone ou simplesmente dormir? São perguntas simples, mas que ajudam a elucidar as causas de alguns problemas que podem ocorrer e atrapalhar uma boa noite de sono. No Brasil, mais de 60% das pessoas têm algum tipo de desconforto enquanto dormem, ao longo da vida. Portanto, o problema é sério, e a máxima de que uma boa noite de sono é fundamental, também. Prova disso é que o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) resolveu tornar obrigatória a certificação dos colchões e colchonetes de espuma, que atesta, por exemplo, a densidade e resistência desses produtos. A lei já está em vigor, e a partir de fevereiro de 2015 nenhum colchão poderá ser comercializado sem os selos.

Geraldo Goulart
Para o motorista Cláudio Luis Gomes, o alívio veio com o tratamento e o uso do aparelho que monitora seu sono: "Estou mais disposto para o dia a dia e minha pressão se regularizou" (foto: Geraldo Goulart)
De acordo com a pneumologista Regina Magalhães Lopes, coordenadora do laboratório do sono do Hospital Mater Dei, existem mais de 80 tipos de distúrbios do sono e os mais comuns continuam sendo a insônia, mais recorrente em mulheres, e a apneia, que é uma pausa respiratória, com maior incidência em homens. A médica explica que o sono possui quatro fases, sendo as três primeiras caracterizadas por estágio não REM (da sigla em inglês Rapid Eye Movement, ou Movimento Rápido dos Olhos). A quarta fase é caracterizada pelo sono REM, mais profundo e marcado pelo movimento dos olhos. É nesse período que os sonhos acontecem: "Cerca de 65% do sono de um adulto saudável que dorme oito horas por dia passa pelos estágios um e dois, e depois pelos outros", afirma. Segundo a pneumologista, a qualidade do sono é sentida quando há preservação desses quatro estágios. "O sono não é um período passivo. Quando ele é bom, há reestruturação do ponto de vista físico e cognitivo", diz.

E quando o sono não anda bem? Irritabilidade, dor de cabeça ao acordar, diminuição da libido, parte intelectual prejudicada são alguns dos problemas que podem surgir. Se você sente tais incômodos com certa recorrência, comece agora a responder as questões levantadas no início desta matéria. De acordo com a especialista em medicina do sono, a insônia, por exemplo, pode ser o resultado de como a pessoa lida com o sono, ou melhor, sinal de que ela não valoriza tanto assim as tão preciosas horas na cama. "É preciso tirar a imagem de que o quarto é um ambiente em que você faz de tudo", diz a médica Regina Magalhães. Ela lembra que o quarto é lugar de descanso, para a pessoa repor, enquanto dorme, as energias perdidas durante o dia.

A publicitária Ivonéria Rodrigues bem que gostaria de aproveitar as oito horas de sono tão recomendadas pelos especialistas, mas a insônia que a persegue não permite. "Só consigo ir para a cama às 3h da manhã", diz. Devido ao trabalho, ela dorme, em média, apenas quatro horas por dia. "Aproveito a madrugada para ler e-mails, conferir as notícias e repensar a vida", conta. O resultado não poderia ser outro: "Gostaria de dormir o dia inteiro. Levantar cedo é um problema para mim desde o meu nascimento", brinca a publicitária que sofre com a insônia há 20 anos. Já para o engenheiro civil Saulo José Reis o problema é a apneia, ou melhor, era. "Eu acordava com dor de cabeça e muito cansado. Além disso, minha mulher percebia que algo estava errado com a minha respiração enquanto eu dormia", diz. Saulo procurou ajuda no laboratório do sono do Mater Dei, mudou seus hábitos e está dormindo provisoriamente com a ajuda de um aparelho chamado CPAP (Continuous Positive Airway Pressure ou Pressão Aérea Positiva Contínua). É uma espécie de máscara com compressor de ar, que leva pressão aérea para o paciente. "Levo o aparelho para todos os lugares", diz.

Samuel Gê
A publicitária Ivonéria Rodrigues tem insônia há 20 anos: "Aproveito para ler e-mails, conferir as notícias e repensar a vida" (foto: Samuel Gê)
É o que também acontece com o motorista Cláudio Luís Gomes: "Minha mulher dizia que eu roncava demais. Hoje, durmo feito um anjo. Estou mais disposto para o dia a dia e minha pressão se regularizou", afirma Cláudio.

Cláudio e Saulo fizeram um exame muito comum e até então mais indicado para detectar problemas durante o sono, que é a polissonografia, conhecido como exame do sono. No hospital, o paciente é monitorado durante a noite a fim de se verificarem alguns aspectos significativos enquanto dorme: atividade elétrica do cérebro, movimento dos olhos, das pernas, fluxo de ar que sai pelo corpo, batimento cardíaco, oxigenação do corpo, entre outros.

Para Cheng T-Ping, presidente da Sociedade Mineira de Otorrinolaringologia, além dos fatores ambientais, os distúrbios do sono podem estar ligados a transtornos psíquicos, como ansiedade e fobias, uso de medicamentos ansiolíticos, consumo de bebidas alcoólicas e cafeinadas. "A sensação de queimação e dor na região do epigástrio causada pelo refluxo gastroesofágico ou gastrite, a obstrução nasal da rinite alérgica e o aumento da frequência da micção noturna (problemas de bexiga, esfíncter urinário, ingestão de líquidos, uso de diuréticos) podem provocar intervalos do sono e induzir a distúrbios", afirma o especialista.
 
Sobre a apneia, doença com incidência maior em homens, Cheng explica que ela pode estar associada a vários motivos, como hipertrofia amigdaliana, aumento do diâmetro cervical, obesidade, alterações nasais como o desvio de septo, aumento das conchas nasais e rinite alérgica, além do uso de sedativos.

O professor Maurício Viotti, do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, atribui aos problemas durante o sono à alta carga de tarefas que as pessoas têm de cumprir no dia a dia. Horários irregulares para dormir também contribuem para um sono conturbado: "O organismo gosta de rotina. Caminhadas matinais são importantes, pois é quando se mostra para o organismo que é dia", diz o psiquiatra. 
 
Pegar no sono também pode ser mais difícil se você não consegue desgrudar de computadores, telefones celulares e da TV, pois o hormônio da melatonina que inibe o estado de alerta não se fortalece quando há muita luz no ambiente. Portanto, o sono é, sim, o momento mais importante do dia. É quando o organismo aproveita para recarregar as energias para o dia seguinte. "Não se trata de perda de tempo, e sim de ganhar saúde e anos de vida", afirma a pneumologista Regina Magalhães.

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